Descrição de chapéu The Wall Street Journal

'Qatarização' do esporte chega ao ápice com Mundial de atletismo

Evento mais relevante já sediado no país sofre críticas por baixo público e altas temperaturas

Joshua Robinson
Doha | The Wall Street Journal

Os atletas não conseguem se acostumar. Quando chegam ao estádio Internacional Khalifa, em Doha, para as provas do Campeonato Mundial de atletismo, a temperatura do lado de fora costuma superar os 37°C, e a brisa que sopra em seus rostos parece emanar de um forno de pizza.

Mas assim que se aproximam dos portões, algo de bizarro acontece: a temperatura repentinamente cai em cerca de 15°C. O avançado sistema de refrigeração do estádio não só mantém a temperatura suportável em seu interior como cria um microclima artificial em torno do local.

Cabe enfatizar um ponto: a cidade de Doha fica no meio de um deserto. Os atletas visitantes jamais viram qualquer coisa de parecida.

“Minha sensação é de que eu e as garotas só falamos disso o dia todo, de nossa gratidão pelo ar condicionado”, disse Chari Hawkins, atleta americana do heptatlo. “Honestamente, o que estaríamos fazendo agora se estivéssemos do lado de fora? Todo mundo decidiria ir embora para casa.”

O estádio Khalifa, palco do Mundial de atletismo e da Copa do Mundo de futebol de 2022
O estádio Khalifa, palco do Mundial de atletismo e da Copa do Mundo de futebol de 2022 -  Fabrizio Bensch/Reuters

O domínio do Qatar sobre a temperatura foi só um dos fatores a contribuir para a profunda estranheza que reina sobre o campeonato. Restam sérias questões sobre o tratamento do país a trabalhadores imigrantes empregados na construção de suas suntuosas instalações esportivas.

 

Os atletas se queixam do baixo público e da atmosfera nada entusiástica. E os eventos realizados fora do estádio, como a maratona feminina e a marcha atlética, se transformaram em brutais disputas de atrito, no calor da meia-noite.

A coisa toda acontece diante de um grande shopping que tem canais em estilo veneziano em seu interior, restaurantes de franquias americanas e um rinque de hóquei no gelo de tamanho oficial, que sedia as partidas de um time chamado Qatar Raiders.

O que poderia parecer um sonho estranho também serve como um vislumbre do futuro dos grandes esportes internacionais. O Qatar está tratando o Campeonato Mundial de atletismo como um ensaio geral para o evento esportivo mais popular do planeta, a Copa do Mundo de futebol, que o país sediará em 2022.

A diferença é que a Copa ficará distribuída por oito estádios em cinco cidades ao redor do país, cujo território tem cerca de 11,5 mil quilômetros quadrados. As despesas totais foram estimadas por fontes em torno de US$ 220 bilhões (R$ 891 bilhões), cerca de quatro vezes o custo final da Olimpíada de Inverno de Sochi, na Rússia, em 2014, a mais dispendiosa da história.

Além dos locais de jogo, o Qatar também precisa se preparar para hospedar todas as 32 seleções dentro de suas fronteiras e para potencialmente receber centenas de milhares de torcedores.

Os organizadores insistem em que os preparativos estão correndo bem. Há canteiros de obras em toda parte. E em um momento no qual muitos países do Ocidente estão reconsiderando sua disposição de sediar eventos internacionais de alto custo e trabalhosos, os países ricos em petróleo do Golfo Pérsico não mostram sinal de perda de apetite.

Antes do final do ano, o Qatar sediará a Copa do Mundo de Clubes, da Fifa, e a vizinha Arábia Saudita receberá uma luta de boxe pelo título mundial dos pesos pesados.

A Associação Internacional de Federações de Atletismo (IAAF) é uma parceira mais que entusiástica.

“Se somos um esporte mundial, precisamos ser vistos como mundiais”, disse Sebastian Coe, presidente da IAAF. “[Os campeonatos] não podem continuar sendo realizados nos mesmos oito ou nove lugares em que sempre nos concentramos no passado.”

A “qatarização” do esporte internacional começou muito antes que o Qatar soubesse que desejava entrar no jogo. Seus vizinhos imediatos, os Emirados Árabes Unidos, deram a partida ao sediar torneios de golfe e tênis desde as décadas de 1980 e 1990. Esses esforços ganharam impulso na década de 2000, quando o Bahrein passou a sediar um grande prêmio de F-1, em 2004, exemplo seguido por Abu Dhabi a partir de 2009.

O Qatar, enquanto isso, sediou os calamitosos Jogos Asiáticos de 2006 e imediatamente começou a organizar sua candidatura a sediar a Copa do Mundo de 2022, para a qual o país foi escolhido em 2010. As consequências da vitória do Qatar incluem o escândalo que quase destruiu a Fifa, a organização que comanda o futebol mundial, em 2015.

O Mundial de atletismo, no entanto, é o evento esportivo mais importante sediado pelo país até o momento. Os atletas não hesitam em falar sobre suas preocupações.

“Mesmo que nem todo mundo esteja falando a respeito, todos podemos ver que isso é uma catástrofe”, disse Kevin Mayer, decatetla francês, em Doha. “Não há público nas arquibancadas. O calor não é apropriado, de modo algum... É uma tristeza”.

Nos três primeiros dias do Mundial, o público presente ficou abaixo dos 70% da capacidade do Estádio Internacional Khalifa, cujo número de assentos já havia sido reduzido a 21 mil para o evento.

Os organizadores se recusaram a fornecer o número de espectadores das noites subsequentes, mas quando as finais de algumas modalidades aconteceram, na noite de sexta-feira, ainda havia grande número de assentos vazios no anel inferior do estádio.

A IAAF disse que parte do problema está em algumas das principais provas acontecerem tarde da noite para acomodar a transmissão televisiva internacional e pelo interesse regional mais amplo em provas de média e longa distância. “Queremos um estádio lotado, e isso é um desafio que precisamos vencer, mas também precisamos nos concentrar na absoluta qualidade de tudo que estamos vendo aqui”, disse Coe.

Embora seja verdade que os desempenhos no estádio não foram afetados, nas provas realizadas fora dele, como a maratona e a marcha atlética, as consequências foram severas. A maratona feminina, que começou à meia-noite sob um calor sufocante, viu 28 das 62 participantes abandonarem a prova.

A marcha atlética masculina de 50 quilômetros registrou um tempo superior a quatro horas para o vitorioso, mais de 30 minutos acima do recorde mundial. Os atletas despejavam gelo sobre suas cabeças, e um dos medalhistas definiu a prova como “um inferno”.

Quando não estão se encharcando de água gelada, os atletas ainda assim precisam enfrentar outros desafio relacionados ao calor, como enfrentar as severas flutuações de temperatura causadas pelo ar condicionado.

Kristiina Mäkelä, atleta finlandesa do salto triplo, explicou que tomou precauções especiais para evitar adoecer, como dormir com o ar condicionado desligado e sempre carregar roupas adicionais para quando estiver em ambientes fechados. “É muito diferente da Finlândia”, ela disse. “Provavelmente o oposto.”

A maioria dos atletas participantes não vem permitindo que a estranheza abale seu foco. Ashraf Amgad El Seify, atleta do arremesso de martelo que é um dos 19 qatarianos participantes do torneio em seu país, disse que só recebeu elogios. Uma coisa impressionou particularmente os rivais —o lugar que fica do outro lado da rua diante do estádio. “Eles adoraram o shopping center”, disse El Seify.


Tradução de Paulo Migliacci

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