Descrição de chapéu The New York Times

Técnico suspenso por doping vira 'persona non grata' no atletismo

Alberto Salazar, um dos treinadores mais famosos do esporte, perdeu sua licença

Tariq Panja
Doha | The New York Times

A Associação Internacional de Federações de Atletismo (IAAF), organização que comanda o atletismo mundial, agiu rapidamente nesta terça-feira (1º) para se distanciar de Alberto Salazar, famoso treinador americano a quem as autoridades antidoping dos Estados Unidos suspenderam por quatro anos, por ter ministrado substâncias proibidas aos seus seus comandados e desrespeitado os protocolos antidoping.

Salazar estava no Campeonato Mundial de atletismo em Doha, mas imediatamente se tornou "persona non grata", uma consequência inesperada para um dos gigantes do esporte.

Pouco antes do nascer do dia no Qatar, a unidade de integridade da IAAF revogou a licença de Salazar como treinador, efetivamente proibindo-o de estar presente nos locais de competição e de se comunicar com os atletas que comanda em um programa patrocinado pela Nike, que ocupa posição central na decisão antidoping americana anunciada na segunda-feira.

O técnico Alberto Salazar durante competição em Pequim
O técnico Alberto Salazar durante competição em Pequim - Phil Noble - 21.ago.15/Reuters

As autoridades mundiais do atletismo enviaram um email circular de alerta aos atletas sobre Salazar e, para garantir que a mensagem chegasse a eles, representantes da organização foram aos hotéis das delegações para entregar cartas, a fim de assegurar que as repercussões de qualquer associação com o técnico punido ficasse clara.

Nada mais de contatos, falas motivacionais de último minuto ou orientação por Salazar, ou os atletas mesmos poderiam encarar punição, sob as regras da Agência Mundial Antidoping (Wada).

A necessidade de trabalhar rápido era evidente. Dois dos atletas de Salazar —Clayton Murphy e Donavan Brazier— disputam a final dos 800 metros na noite desta terça-feira.

"Agimos tão logo fomos informados", disse David Howman, presidente da unidade de integridade atlética, em entrevista. "Estamos acostumados a trabalhar virando a noite".

Pouco antes do meio-dia, a federação de atletismo dos Estados Unidos confirmou ter acatado a recomendação da IAAF e cancelado as credenciais de Salazar, excluindo-o de todos os locais de competição, incluindo instalações de treinamento e hotéis oficiais.

Salazar, que nega todas as acusações contra ele, teria deixado a cidade pouco depois do anúncio da decisão, que detalhava violações que incluíam tráfico de testosterona, manipulação do processo de controle antidoping e administração de infusões indevidas de L-carnitine, uma substância que ocorre naturalmente e converte gordura em energia.

Mesmo depois que acusações de impropriedades contra ele emergiram pela primeira vez, em 2015, Salazar, o diretor de treinamento do Projeto Nike Oregon, continuou a ser um profissional de destaque. Ele treinou astros como Mo Farah, do Reino Unido, quatro vezes medalhista de ouro olímpico no atletismo; Galen Rupp, o principal maratonista dos Estados Unidos; e Sifan Hassan, da Holanda, que bateu o recorde da milha feminina em julho e conquistou o ouro nos 10 mil metros neste final de semana em Doha.

"Estou chocada por receber a notícia da decisão de hoje, especialmente em um momento como esse, no qual estou me preparando para minha próxima prova no mundial de atletismo de Doha", afirmou Hassan em comunicado. "A investigação tem por foco o período anterior ao meu ingresso no Projeto Oregon e portanto não tem relação comigo. Eu estava ciente de que havia investigações em curso quando entrei para a equipe e sempre tive a consciência limpa, sabendo que estamos sendo monitorados de maneira permanente pela Wada e pela Usada", a agência antidoping dos Estados Unidos.

O clima no hotel que abriga a delegação britânica no centro da cidade era sombrio, e os dirigentes estavam reunidos para decidir como lidar com o veredicto.

Neil Black, o diretor de desempenho da equipe britânica e terapeuta pessoal de Farah, o atleta mais vitorioso do atletismo do Reino Unido, descreveu Salazar como "um gênio", e a revisão da Federação Britânica de Atletismo sobre o relacionamento entre o treinador e Farah não encontrou motivos de preocupação.

Farah foi treinado por Salazar até 2017, antes de decidir retornar ao Reino Unido, o que aconteceu quatro meses depois que Salazar foi secretamente acusado de violações pela agência antidoping dos Estados Unidos.

"Estou aliviado por a Usada ter concluído sua investigação sobre Alberto Salazar, depois de quatro anos", disse Farah na terça-feira. "Deixei o Projeto Nike Oregon em 2017 e, como sempre disse, não tenho tolerância para qualquer pessoa que viole as regras ou cruze a linha do aceitável. Uma decisão foi tomada e estou contente por enfim terem chegado a uma conclusão."

Tradução de Paulo Migliacci

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