Descrição de chapéu The Wall Street Journal

Título da Copa do Mundo de rúgbi será decidido pela força bruta

Ingleses e sul-africanos se enfrentam sábado (2) na final do Mundial

Alastair Gale Joshua Robinson
The Wall Street Journal

Os jogadores do All Blacks perambulavam pelo gramado em choque, sem saber bem contra que muralha haviam colidido. A Nova Zelândia não perdia uma partida de Copa do Mundo de rúgbi havia 12 anos.

Por 12 anos e 18 jogos, ninguém havia causado tamanho abalo à nação mais poderosa do rúgbi no planeta, durante o mais prestigioso torneio do esporte.

Naquele dia, em Yokohama, Japão, o All Blacks estava tentando entender a Inglaterra e de que maneira sua seleção vestida toda de branco pôs fim violentamente ao reinado neozelandês na Copa do Mundo.

Não foi preciso pensar muito. Para quem quer que tenha assistido ao jogo –ou que tenha corrido, sangrado e grunhido em campo–, a resposta era clara: a Inglaterra de alguma forma tinha sido mais neozelandesa do que a Nova Zelândia e avançado para a final da Copa do Mundo.

Ingleses celebram vitória sobre Nova Zelândia nas semifinais do Mundial
Ingleses celebram vitória sobre Nova Zelândia nas semifinais do Mundial - Issei Kato - 26.out.19/Rueters

Quando a Inglaterra precisou mostrar classe, em jogos anteriores, foi o que ela fez, com passes estonteantes que poderiam constar de um vídeo dos melhores momentos do All Blacks. Mas, no último sábado (26), os ingleses se concentraram em exibir o estilo físico feroz que sempre foi a especialidade da Nova Zelândia.

Passadas 24 horas, na segunda semifinal, a África do Sul confirmou que a assinatura duradoura do torneio seria a força, a força bruta. Com uma defesa quase tão sufocante quanto a da Inglaterra, o Springboks derrotou o País de Gales por 19 a 16.

Agora, Inglaterra e África do Sul se enfrentam no sábado (2), em Yokohama, em uma repetição da final da Copa do Mundo de 2007, vencida pelos sul-africanos.

“Eles não jogam de um modo sofisticado”, disse Steve Hansen, o treinador do All Blacks, sobre a Inglaterra. “Conquistar a bola, entregá-la a um sujeito grandalhão e ultrapassar a linha. Esse é o rúgbi em forma simplista, mas também é bonito."

Hansen talvez tenha minimizado um pouco a façanha do adversário. Embora a Inglaterra não tenha desenvolvido uma abordagem altamente complexa, fazer bem as coisas simples exigiu quase dois anos e meio de preparação, de acordo com o treinador inglês Eddie Jones.

Decidir ganhar da Nova Zelândia na força seria o equivalente a tentar ganhar de um cavalo na corrida, para a maioria das pessoas —uma maneira rápida de terminar comendo muita lama.

“Vamos jogar pesado”, disse John Mitchell, o antigo treinador da Nova Zelândia que agora é treinador da defesa da Inglaterra, antes do jogo. “E vamos ser brutais, também”.

A Inglaterra encarou o All Blacks de igual para igual desde a entrada em campo. Enquanto a Nova Zelândia executava o seu “haka” antes do começo do jogo, a Inglaterra se manteve firme, em uma formação em V invertido, com Owen Farrell sorrindo sarcasticamente diante da dança adversária. Quando a partida começou, os ingleses apertaram ainda mais o All Blacks.

Além de forçar 16 entregas de bola pelo adversário, o resultado mais alto do torneio, a Inglaterra conseguiu evitar que os neozelandeses marcassem durante o primeiro tempo. Isso não acontecia com o All Blacks em uma partida de Copa do Mundo desde 1991.

O líder da Inglaterra foi Maro Itoje, que arrancou a bola das mãos de jogadores neozelandeses em pelo menos três ocasiões diferentes, a terceira partida em que ele o fez durante a Copa —nenhum outro jogador conseguiu três roubos de bola em mais de uma partida.

“Uma Copa do Mundo é sempre uma disputa defensiva, e nossa melhor forma de ataque é a defesa”, disse Jones.

Mesmo Hansen ficou atônito com a dedicação inglesa. “Eles estão trabalhando e trabalhando muito, provavelmente mais do que qualquer outra seleção inglesa na história”, disse o neozelandês.

Galês Josh Adams tenta passar entre sul-africanos Makazole Mapimpi e Siya Kolisi
Galês Josh Adams tenta passar entre sul-africanos Makazole Mapimpi e Siya Kolisi - Matthew Childs - 27.out.19/Reuters

Para derrotar o País de Gales, a África do Sul teve de fazer o mesmo. A despeito de ter apenas 39% de posse de bola e de fazer apenas 67 passes ante os 115 dos galeses, a defesa inabalável do Springboks permitiu que eles roubassem uma vitória no contra-ataque.

A vitória poderia ter sido mais confortável se alguns momentos de descuido não tivessem gerado faltas que facilitaram a vida do País de Gales.

Ainda assim, nada ilustrou melhor a capacidade de recuar sem ceder dos sul-africanos do que um trecho de três minutos no final do jogo, no qual o País de Gales realizou mais de 20 fases de jogo na metade sul-africana do campo —o que significa sequências de corridas ou passes, interrompidas por tackles –sem passar pela linha e marcar um try.

“Defender nossa linha por 20 fases, naquele momento, foi excelente, e é algo que podemos levar conosco para a semana que vem”, disse Handre Pollard, atleta da África do Sul. “Qualquer coisa pode acontecer na final se produzirmos aquele nível de esforço de novo."

A África do Sul não foi elogiada pelo estilo em nenhum momento de sua trajetória. E se o Springboks foi criticado em alguns círculos por jogar feio contra o País de Gales, isso não parece ter incomodado o time.

Os jogadores estão preparados para fazer o mesmo uma vez mais na batalha defensiva com a Inglaterra.
Nas palavras do treinador sul-africano Rassie Erasmus, “não estou 100% certo de que uma final de Copa do Mundo possa ser vencida com um plano de jogo muito expansivo e tries vistosos”.

Tradução de Paulo Migliacci

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