Descrição de chapéu The New York Times

Triatlo dos EUA é pioneiro ao abraçar maconha medicinal no esporte

Federação do país assina contrato com empresa especializada em canabidiol

Matthew Futterman
Nova York | The New York Times

O envolvimento do setor esportivo com os produtos de maconha continua a evoluir, e a USA Triathlon se tornou a primeira federação nacional de esportes nos Estados Unidos a assinar um contrato de patrocínio com uma empresa que vende produtos contendo canabidiol, ou CBD.

O CBD é um composto não intoxicante que, como o THC, o composto intoxicante da maconha, é encontrado em variadas proporções no cânhamo, uma planta de maconha de cultivo legal. Em 2018, a Agência Mundial Antidoping (Wada, na sigla em inglês) removeu o CBD de sua lista de substâncias proibidas.

O THC e dezenas de outros canabinoides continuam na lista de substâncias proibidas, mas, ao remover o CBD, a Wada abriu a porta para que atletas de elite usem e divulguem produtos contendo CBD.

Os benefícios do CBD supostamente incluem prevenção de dores e inflamações, alívio do estresse e ansiedade e até mesmo ajuda à digestão. Os produtos de CBD estão disponíveis em diversas formas, entre as quais óleos e loções.

Os termos financeiros do contrato de quatro anos entre a USA Triathlon e a Pure Spectrum, sediada no Colorado, não foram divulgados. O acordo surgiu menos de um ano depois de o Congresso aprovar um projeto de lei de agricultura que legalizava o cultivo de cânhamo. O cultivo da planta foi proibido pelas leis federais por muitos anos.

Desde que isso aconteceu, as organizações esportivas vêm avançando passo a passo rumo ao CBD e aos negócios crescentes envolvendo a substância. Boa parte da população sabe pouco sobre o CBD. Ainda existe quem o associe aos usos mais ilícitos da maconha, que continua ilegal em nível federal e em diversos estados americanos, ainda que alguns governos estaduais tenham legalizado seu uso.

O contrato exclusivo da USA Triathlon com a Pure Spectrum ajudará a federação, que representa um esporte relativamente pequeno, a apoiar o crescimento da modalidade, mantendo em nível razoável os custos e taxas associados à prática do triatlo.

O número de inscritos na USA Triathlon caiu em 25% de 2013 a 2018. O interesse pelo esporte cresceu significativamente depois que ele se tornou parte da Olimpíada, em 2000, mas diminuiu nos últimos anos por diversos motivos, ainda que os proponentes do triatlo digam que conseguiram reverter algumas dessas tendências.

O britânico Alistair Brownlee é o atual campeão olímpico do triatlo - Damir Sagolj - 18.ago.16/Reuters

A USA Triathlon tem receitas anuais de cerca de US$ 16 milhões (R$ 66,1 milhões). Cerca de US$ 2 milhões (R$ 8,3 milhões), ou entre 12% e 15%, vêm de patrocínios. Atletas de todos os níveis —que em alguns casos estão entre os primeiros a adotar qualquer coisa que faça as pessoas se sentirem melhor— adotaram o CBD.

Rocky Harris, presidente-executivo da USA Triathlon, disse que o movimento de adesão ao CBD entre os triatletas levou a uma campanha de seis meses realizada por sua organização a fim de determinar os riscos e benefícios efetivos do CBD e se a federação poderia ganhar dinheiro de forma responsável por meio de um contrato de patrocínio com uma empresa de CBD.

"Precisávamos poder garantir que, se um atleta usasse um dos produtos deles, não seria apanhado em exames antidoping", disse Harris.

A USA Triathlon não é única organização esportiva a manter um relacionamento com uma empresa do segmento de CBD. A Ultimate Fighting Championship (UFC) e a CrossFit também estão envolvidas em parcerias do tipo.

No entanto, o risco para uma federação envolvida em esporte olímpico é mais alto porque essas organizações precisam respeitar todas as normas da Wada e seus atletas têm de se submeter aos protocolos mais rigorosos de exame antidoping. Federações esportivas privadas, como as ligas dos grandes esportes profissionais dos Estados Unidos, podem optar por criar regras e políticas próprias quanto às drogas.

Harris disse que a USA Triathlon por fim começou a se sentir confortável com a Pure Spectrum porque a companhia controla o processo industrial desde o começo e testa seus produtos cinco vezes durante o processamento, para garantir que não contenham qualquer traço de THC.

A Pure Spectrum oferece CBD em forma de loções, óleos e tinturas. Ela suspendeu a venda de produtos de "vaping" (fumo eletrônico) na semana passada devido a preocupações de saúde crescentes.

Brady Bell, o presidente-executivo da companhia, disse que a Pure Spectrum busca atletas de elite e consumidores com estilos de vida ativos desde que foi fundada, em 2015.

Triatletas percorrem a parte da bicicleta no Ironman, nos Estados Unidos - Donald Miralle - 19.out.19/AFP

"Compreendo o que esses atletas encaram a cada dia, o estresse nos períodos que antecedem um torneio, as dificuldades do treinamento, o desgaste que os corpos deles enfrentam", disse. "Que mercado melhor para provar nossa qualidade do que o dos atletas mais saudáveis e de melhor nível educacional?"

Nos últimos 12 meses, diversas personalidades notáveis estabeleceram relacionamentos com empresas de CBD ou admitiram ter experimentado os produtos. Entre eles está Steve Kerr, treinador do Golden State Warriors, o tenista John Isner, o esquiador Bode Miller e o golfista Bubba Watson.

Usar CBD não deixa de ter riscos. Nem todas as empresas são cuidadosas em garantir que seus produtos não contenham o composto proibido THC, e alguns procedimentos de teste podem não ter a capacidade de determinar se uma substância é CBD ou THC.

"É muito difícil ter 100% de certeza de que os produtos de CBD não contêm THC", disse Danielle Furich, porta-voz da Agência Antidoping dos Estados Unidos (Usada, na sigla em inglês), que encoraja qualquer atleta que pense em usar um produto de CBD a consultar as normas disponíveis no site da organização.

 

O THC continua na lista de substâncias proibidas porque cumpre pelo menos dois dos três critérios para proibição —oferecer o potencial de melhorar excessivamente o desempenho, representar um risco de saúde e violar o espírito do esporte.

Como outros compostos da Cannabis, o THC pode reduzir o estresse e a ansiedade, o que pode ajudar a melhorar o desempenho. Também pode prejudicar a saúde da pessoa e ser considerado uma violação do chamado espírito esportivo, porque a Cannabis é ilegal em muitos lugares.

No entanto, as autoridades antidoping já não testam em busca da presença de Cannabis fora de épocas de competição e elevaram a presença mínima de compostos de Cannabis que caracteriza violação. Além disso, o composto faz parte da lista de drogas recreativas, cujo uso acarreta penalidades menores.

Harris e Bell se disseram seguros de que quem quer que use produtos da Pure Spectrum não será apanhado em testes de THC.

"Centenas de atletas usaram nossos produtos, assim como mil membros das forças armadas", disse Bell. "Compreendemos que estamos lidando com o ganha-pão dessas pessoas."

Harris disse que as pesquisas que realizou antes do acordo permitiram que a federação respondesse a perguntas recebidas de triatletas de todos os níveis sobre os benefícios e riscos do CBD, ante outras formas de medicação.

"Os atletas preferem não usar remédios vendidos sob receita", disse Harris. "Querem produtos orgânicos e saudáveis. Querem encontrar algo mais natural."

Tradução de Paulo Migliacci

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