Descrição de chapéu The New York Times

Vinho, meditação e podcast: a receita de astro da NBA para relaxar

CJ McCollum, do Portland Blazers, usa esse ritual como válvula de escape

Scott Cacciola
The New York Times

O armador CJ McCollum, do Portland Trail Blazers, estuda seu desempenho nos jogos, em busca de áreas nas quais possa melhorar.

“Eu ouço as pausas desconfortáveis”, diz. “Ouço quando minha respiração está ofegante demais”.

McCollum, 28, está sempre ocupado com gravações –de seu podcast semanal. Ele leva o trabalho a sério. Tem um estúdio em seu “home office” e equipamento portátil que carrega com ele quando o time está jogando fora de casa, a fim de gravar os episódios de “Pull Up With C.J. McCollum”, que ele apresenta em companhia de Jordan Schultz, comentarista da ESPN.

CJ McCollum entra em quadra para a estreia do Portland Trail Blazers na nova temporada da NBA
CJ McCollum entra em quadra para a estreia do Portland Trail Blazers na nova temporada da NBA - Abbie Parr/AFP

McCollum entrevista convidados, analisa as notícias da NBA, fala sobre questões mundiais –embora uma delas agora esteja proibida– e lamenta o sofrimento interminável de seu querido Cleveland Browns no futebol americano. Ele agora vê o podcast como um de seus “hábitos saudáveis”, no início de sua sétima temporada na NBA.

McCollum medita. Faz “hot yoga”. Toma vinhos finos. E apresenta um podcast.

“É uma maneira de escapar”, disse McCollum.

No processo, ele se transformou em uma das pessoas mais bem informadas da NBA: um jogador que revela conhecimentos obtidos por trás das cortinas. McCollum não é o único jogador a apresentar um programa –J.J. Redick, do New Orleans Pelicans, e Danny Green, do Los Angeles Lakers, também têm podcasts, e a atividade se tornou uma espécie de passatempo oficial para atletas profissionais–, mas McCollum é o único deles a ter se formado em jornalismo, pela Universidade Lehigh.

Agora, depois de mais de 80 episódios e de um número próximo a esse de convidados, McCollum continua trabalhando para melhorar suas reportagens. Ouve as gravações de cada episódio, muitas vezes na banheira de água gelada depois da preparação física, e com a mesma disciplina gélida que fez dele um arremessador de elite. O podcast tem milhares de ouvintes dispostos a ajudar em seu desenvolvimento, além disso.

“Algumas pessoas disseram que eu estava usando demais a frase ‘você acertou em cheio’, durante seis episódios consecutivos”, ele disse. “Você acaba descobrindo as palavras que usa para encher linguiça”.

Em sua adolescência, no Ohio, McCollum lia o Canton Repository rapidinho no café da manhã, antes de sair para a escola. Ler o jornal se tornou um ritual matutino, ele disse.

"Acho que quando eu fazia isso como garoto, me fazia sentir mais velho”, diz.

Na Lehigh, McCollum imaginou que estudaria administração de empresas, mas o curso era muito chato (“matemática demais”, ele disse). Sua preferência sempre foi escrever trabalhos e interagir com as pessoas. Depois de mudar de curso, ele começou a escrever para o jornal da universidade, cobrindo um pouco de tudo: futebol americano, tênis, natação. Ele recorda entrevistas que fez com treinadores depois de derrotas pesadas. Lembra dos dias em que ia assistir a partidas de hóquei na grama, carregando seu bloco de anotações. E recorda ter aprendido uma lição importante sobre profissionalismo.

“Preparação é tudo”, disse McCollum. “As pessoas não gostam de ser entrevistadas por pessoas que não pesquisaram como deviam”.

Tendo isso em mente, McCollum lê sobre seus convidados ao podcast, muitos dos quais colegas atletas, antes que eles cheguem para as gravações: suas infâncias, interesses, premiações, hobbies.

“E depois disso a conversa em geral flui tranquilamente”, ele disse. “Gosto de entrar na vida das pessoas. Saber o que fazem nas horas vagas, aprender sobre sua história, sua jornada”.

Um de seus mais recentes convidados foi Kent Bazemore, um atleta que pode jogar como ala e como armador que o Trail Blazers adquiriu em uma troca depois do final da última temporada.

“Era uma oportunidade para contar minha história à audiência dele, falar de algumas das coisas pelas quais passei”, disse Bazemore. “Quando você consegue se abrir para o público, se mostrar vulnerável, as pessoas parecem apreciar”.

Bazemore compreende bem o meio. Na temporada passada, quando jogava pelo Atlanta Hawks, ele apresentou um podcast em parceria com Vince Carter.

Pode parecer uma obviedade, mas McCollum constatou que os jogadores estão dispostos a se abrir com ele porque ele também é jogador. Existe um respeito mútuo. Mas ele também deseja que as conversas sejam autênticas. Seu objetivo, diz, não é fazer um trabalho de relações públicas, e não quer que suas entrevistas pareçam arranjadas.

"Se estou avaliando o jogo de alguém, por exemplo, e a pessoa não consegue arremessar, vou dizer que ela não consegue arremessar”, ele disse. “E a pessoa mesma sabe que não consegue arremessar. Não é que eu esteja zombando dela”.

Ele acrescenta que “tento ser real, cara. Somos todos companheiros”.

McCollum teve seu momento de maior destaque quando recebeu Kevin Durant para uma entrevista em seu podcast, no ano passado. Os dois tiveram uma discussão combativa e divertida quando McCollum criticou Durant, indiretamente, por ter escolhido um time pronto a ganhar um título, quando se transferiu ao Golden State Warriors em 2016.

Mais adiante na entrevista, Durant riu diante da sugestão de McCollum de que Portland estaria na disputa pelo título. Tudo parecia bem ameno –mas a coisa chegou à mídia social, e os dois começaram a trocar ataques no Twitter.

A verdade, disse McCollum, é que ambos estavam exagerando sua suposta briga, em meio ao tédio da parada entre temporadas. Pode não ter sido o jornalismo mais objetivo, mas mesmo assim...

“Somos amigos, e foi divertido”, disse McCollum, “e ajudou muito a audiência. Isso nos valeu um vinho muito bom”.

Perguntei a McCollum se ele estava interessado em causar alguma controvérsia para ajudar este artigo.

“Não”, ele respondeu. “Não posso fazer isso. Não antes de a temporada começar”.

Um tópico que McCollum não planeja comentar nos próximos episódios é a China, e o relacionamento subitamente complicado entre o país e a NBA depois que um executivo do Houston Rockets expressou apoio ao movimento pela democracia em Hong Kong. McCollum tem um contrato de patrocínio com a fabricante chinesa de calçados Li Ning.

“Vou ficar longe disso”, ele disse.

Mas o jogador tem grandes planos para seu podcast, com uma lista de convidados ideais que ele diz que adoraria entrevistar, entre os quais Sue Bird, Michael Jordan, Malcolm Gladwell e Barack Obama.

“Boa parte do trabalho é convencer os ouvintes a se interessarem por nós, a compreender que temos dúvidas, temos dificuldades, temos ansiedades, temos estresses. Que existem momentos em que duvidamos de nós mesmos, mas ainda assim conseguimos superar”, ele disse.

Tradução de Paulo Migliacci

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