Alto e forte, Philadelphia 76ers volta ao passado na NBA

Os Sixers tentam quebrar o paradigma de times rápidos e ágeis

sopan deb
Filadélfia

De vez em quando surge um time da NBA que decide ignorar o que a sabedoria do momento dita.

Temos o caso do Boston Celtics, que em 2002 chegou inesperadamente à decisão da conferência leste disparando uma torrente de arremessos de três pontos, em um momento no qual o basquete era dominado por pivôs altos que patrulhavam os garrafões. Depois veio o Golden State Warriors da temporada 2014-2015, que permitiu que Stephen Curry —um mago franzino do basquete— comandasse a revolução do “small ball” (um time formado por jogadores mais baixos).

Não é o tamanho que garante títulos, nos dizem agora —e sim velocidade e precisão nos arremessos.

Joel Embiid, dos Sixers, durante a partida contra o Atlanta Hawks, na NBA
Joel Embiid, dos Sixers, durante a partida contra o Atlanta Hawks, na NBA - Kevin C. Cox - 28.out.2019/AFP

Mas veja o Philadelphia 76ers, um time construído com a altura como prioridade e a precisão nos arremessos como consideração secundária. Eles querem vencer derrotando os adversários pela força e, literalmente, pelo alcance —nada de “jumpers” ou de preocupação com o espaçamento em quadra.

Para um time contemporâneo da NBA, isso é visto como um experimento ousado. E vem funcionando, até agora. Os Sixers começaram a temporada com cinco vitórias consecutivas, a mais por 129 a 128 sobre o Portland Trail Blazers, fora de casa, no sábado (2).

Eles parecem candidatos sérios ao título e têm entre seus titulares quatro jogadores com pelo menos 2,03 metros de altura. O melhor do time —o gigantesco Joel Embiid— é a pedra fundamental da franquia e ganha a vida intimidando os adversários sob a cesta. Seu principal companheiro, Ben Simmons (2,08 m) raramente arremessa se não estiver perto da cesta, a ponto de, quando ele acertou um arremesso de três pontos na pré-temporada, ter parecido o equivalente esportivo de avistar um abominável homem das neves.

Al Horford, um ala de força versátil, de 2,06 metros, é um sujeito parrudo e costumava atormentar Embiid quando o enfrentava pelo Celtics; agora, divide o garrafão com ele. Tobias Harris, que renovou seu contrato nesta temporada, é o ala arremessador. Com 2,03 metros ele provavelmente jogaria como ala de força na maioria dos demais times da NBA.

Como apontou Brett Brown, treinador dos Sixers, antes da vitória da última quarta-feira (30) contra o Minnesota Timberwolves (117 a 95), os jogadores altos facilitam a vida do time na defesa, uma parte do jogo na qual o Philadelphia domina.

“Defensivamente, essa ideia merece uma nota muito boa”, destacou Brown sobre a abordagem de manter uma equipe com jogadores altos. “É o ponto em que vejo o mundo com mais clareza. É uma reflexão de como queremos conduzir o crescimento deste time. É algo que espelha o espírito da cidade, sem drama demais. Mas acredito que a nossa cidade é uma cidade dura”.

Essa identidade é algo sobre o que as pessoas relacionadas ao time falam com frequência. Mike Scott, 2,01 metros, um jogador muito querido da torcida que costuma vir do banco de reservas, em uma entrevista definiu o time como maior, mais forte e mais físico. Ele disse que os Sixers jogam um basquete que intimida —“a cara de Philly”, como se as duas coisas estivessem intrinsecamente conectadas.

Mas os arremessos vêm sendo problema, como se esperava. A equipe está abaixo da média da liga em eficiência ofensiva, mesmo que com apenas alguns jogos como amostra. Jimmy Butler e J.J. Redick, dois dos melhores arremessadores da NBA na temporada passada, deixaram o time este ano.

“Vai demorar um pouco para que o ataque se equipare à defesa, por motivos que eu esperava”, tranquilizou Brown. Ele acrescentou que “dizer que as duas coisas estão muito longe seria severo demais. Mas não estão perto, no momento. Minha nota quanto a isso é C”.

Um lance na vitória sobre o Timberwolves é revelador sobre o time. No início da partida, surgiu um microcosmo dos Sixers no ataque: Embiid tinha a bola e estava sendo marcado por Karl Anthony Towns no garrafão, e o forçou facilmente a recuar (altura!). Ele perdeu um arremesso diagonal, mas Horford subiu mais que o defensor e ficou com o rebote ofensivo (altura!). Horford passou a bola a Harris, que não conseguiu converter um arremesso de três pontos (espaçamento!).

No segundo tempo daquele mesmo jogo, Embiid não teve dificuldade para forçar a entrada no garrafão contra a marcação de Towns, para alegria da torcida de Filadélfia, e acertou um arremesso em gancho. Depois, flexionou o bíceps para provocar o jogador adversário.

Mas isso nem se compara à troca de empurrões entre os dois adversários depois que os Sixers forçaram o jogador do Timberwolves a entregar uma bola. Os dois se agarraram pelo pescoço e Towns socou o adversário, antes de os dois caírem. O incidente terminou com duas expulsões, mas Embiid mesmo assim parecia feliz, dando socos no ar para animar a torcida.

“É nisso que sou bom, gosto de entrar na cabeça das pessoas”, disse o atleta do Philadelphia mais tarde. A NBA suspendeu os dois jogadores por dois jogos.

Towns é um pesadelo para seus marcadores, desde que começou a jogar, e é bem possível que se torne candidato ao prêmio de MVP, o melhor jogador da temporada. Mas diante dos Sixers, sua frustração era perceptível.

Ele não conseguiu marcar Embiid, que fez 19 pontos em 14 arremessos, nos 20 minutos que passou em quadra (só um desses arremessos foi de três pontos). Ele também encontrou dificuldades para receber a bola porque os Sixers bloqueavam as linhas de passe para ele. E não se saiu melhor quando foi marcado por outros jogadores que não Embiid: Horford, Simmons e Harris, em diferentes momentos da partida, todos foram capazes de acompanha-lo por causa da altura. Diante de outros times, Towns consegue superar os marcadores na força. Não é o caso contra os Sixers.

Pode ser que o time da Filadélfia tenha descoberto alguma coisa, ao voltar o relógio e optar por jogadores altos. Mas, como disse Scott, isso não significa um time lento. A despeito de ter Embiid, Horford e Harris— três jogadores que não são conhecidos pela agilidade— na quadra ao mesmo tempo, os Sixers estão entre os 10 melhores times da liga em termos de ritmo de jogo. Isso acontece em parte por causa de Simmons, que carrega a bola vigorosamente quadra acima em explosões de velocidade. Scott o descreve como “um dos caras mais rápidos da liga”.

O grande experimento ainda está no começo. Mas até agora, os Sixers vem usando a força para se manter como um dos poucos times invictos da NBA. Isso faz de sua abordagem uma escolha única, em uma liga que joga fino, e tornou o time muitos querido de sua cidade igualmente única.

“Fui feito para esta cidade”, disse Embiid. E pode ser que a mesma coisa se aplique aos demais jogadores.

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