Descrição de chapéu São Paulo

Cilinho usou bolas de tênis e espelho para inovar no futebol

Técnico mentor dos Menudos do Morumbi morreu nesta quinta (28)

Santos e São Paulo

"Corre, corre que essa jogada vai dar um Mercedes-Benz na garagem".

Os gritos de Otacílio Pires de Camargo com um jovem e promissor Muller no início da década de 80, no Morumbi, refletem um pouco da faceta mais conhecida de Cilinho, que morreu nesta quinta-feira (28), aos 80 anos, em sua residência na cidade de Campinas.

“O Muller era um sono só, precisava disso”, conta à Folha o ex-zagueiro Oscar Bernardi.

Estudioso taticamente e responsável por montar times inesquecíveis, Cilinho também era considerado um inovador, dono de técnicas e soluções peculiares que marcaram época no futebol.

“Quando zagueiro queria sair jogando ele gritava: ‘chuta para o cemitério que o convênio é são-paulino”, lembra Oscar.

Cilinho trabalhou em mais de 10 clube, entre eles São Paulo, Corinthians, Santos, Portuguesa, Guarani e Ponte Preta. No último, acumulou nove passagens e muitas histórias.

No Moisés Lucarelli, na década de 70, cansado de ver seguidos passes errados dos jogadores, resolveu parar uma das atividades mais cedo. Não falou uma só palavra. No dia seguinte, levou uma bola oval, de futebol americano, para treinarem.

Disse aos atletas que eles treinariam com ela e que não sentiriam diferença alguma.

“Trabalhamos juntos desde o amador da Ponte. Nunca vi um estrategista como ele, os treinamentos eram fabulosos. Ele fazia questão de fazer cada jogador mostrar na prancheta se havia compreendido o posicionamento”, lembra Oscar.

Ainda na Ponte, Cilinho utilizou a imprensa para confundir o rival. Ele suspeitava que o Guarani enviava espiões para copiar os treinos físicos da equipe, considerados inovadores. Contava, as gargalhadas, que diversos jogadores do rival se machucaram.

Mas foi no São Paulo que viveu o auge da carreira. Duas vezes campeão paulista, em 1985 e 1987, e comandante da geração apelidada de “Menudos do Morumbi”, consagrada pelo quinteto Silas, Muller, Pita, Careca e Sidney. No período, o técnico gostava de treinar uma jogada que iniciava com o lateral direito Fonseca. A bola deveria chegar aos pés do meia Sidnei.

Após seguidas tentativas frustradas, já irritado, aconteceu o pior: Fonseca acertou uma bolada na cabeça do treinador. No dia seguinte, Cilinho apareceu para treinar de capacete.

Na segunda passagem pelo Morumbi, protagonizou outra cena curiosa entre Raí, hoje diretor de futebol, e Gilmar Rinaldi. O goleiro deveria fazer a reposição direta para meia. A jogada não funcionava.

Cilinho chamou os dois e pediu desculpas em tom de ironia. "Falei: 'Esqueci de apresentá-los. Raí, esse é o Gilmar. Gilmar, esse é o Raí', contou Cilinho, em entrevista no ano de 2011.

Cilinho durante apresentação como diretor técnico do futebol amador do Corinthians em novembro de 2007
Cilinho durante apresentação como diretor técnico do futebol amador do Corinthians em novembro de 2007 - Fernando Santos - 6.nov.07/Folhapress

Em outro momento, pressionado pela má fase de Careca, que enfrentava um longo período sem marcar gols, decidiu reunir o grupo para anunciar que o São Paulo, de fato, contrataria outro atacante. A notícia causou frisson.

No dia seguinte, levou um espelho embrulhado e pediu para Careca abrir. “Virei para ele e perguntei: 'Está vendo? O centroavante que estou contratando e que quero é esse que está na sua frente'”, contou Cilinho.
O técnico não fazia distinção na hora de cobrar seus jogadores. Quem experimentou o lado disciplinador do técnico foi Paulo Roberto Falcão, contratado com pompa pelo então presidente são-paulino Carlos Miguel Aidar para a temporada de 1985.

Falcão chegou ao Morumbi depois de passagem vitoriosa pela Roma (ITA), onde virou ídolo, além de fazer parte da seleção brasileira que disputou a Copa do Mundo de 1982, na Espanha. Para Cilinho, contudo, o meio-campista deveria brigar por uma vaga no time titular como qualquer outro.

Cilinho era fã de truques, mas também adepto a pequenos detalhes. Levava bolas de tênis e de borracha para aprimorar a habilidade técnica de seus jogadores. Depois dos jogos, costumava presentear o melhor jogador da partida com um livro para ler.

“Isso era para melhorar o controle de bola, pois os campos eram muito ruins. Ele colocava os jogadores longe um do outro para ter concentração com as bolinhas pequenas. Só reaproximava a gente quando era hora de domínio com bola de campo", lembra Silas.

É célebre uma imagem da Revista Placar com Cilinho explicando aos Menudos, em uma mesa de futebol de botão colocada no gramado do Morumbi, a disposição tática do São Paulo.

Em 2011, após mais de uma década afastado, Cilinho tentou voltar ao futebol para liderar o Rio Branco, de Americana, convencido por um projeto de trabalho integrado entre categorias de base e o time profissional.

“Nunca comi filé mignon”, disse à Revista Placar à época.

Por motivos de saúde, se afastou menos de um ano depois. O ex-técnico sofreu um AVC (acidente vascular cerebral) em abril de 2018 e, desde então, fazia acompanhamento médico.

Cilinho começou a carreira de técnico na Ferroviária, de Araraquara, com apenas 27 anos. Deixou pupilos e histórias espalhadas pelos clubes em que passou.

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