Descrição de chapéu Financial Times

Como o Golfo Pérsico gasta bilhões de dólares para comprar o esporte

Qatar, Arábia Saudita e Emirados Árabes lideram investimentos em grandes eventos

Andrew England Murad Ahmed
Londres e Diriyah (Arábia Saudita) | Financial Times

Eddie Hearn estava se sentindo emocionado. Flanqueado pelos boxeadores Anthony Joshua (ex-campeão dos pesos pesados) e Andy Ruiz Jr., (mexicano que chocou o planeta ao vencer a luta entre os dois em junho), o empresário britânico projetava uma nova disputa do título em encontro na cidade de Diriyah, um lugar histórico no coração conservador da Arábia Saudita.

Em comparação com as entrevistas coletivas que costumam preceder lutas de boxe, o evento foi polido. Os boxeadores evitaram trocar insultos e elogiaram os anfitriões. A conversa foi realizada depois das orações.

“Às vezes o nosso esporte tem a mente muito estreita”, disse Hearn. “Temos Las Vegas, Nova York, Londres. Mas há todo um mundo lá fora, e agora também temos a Arábia Saudita como sede para eventos de boxe."

Cerimônia antes de partida da Copa do Golfo no estádio Khalifa, no Qatar
Cerimônia antes de partida da Copa do Golfo no estádio Khalifa, no Qatar - Karim Jaafar - 26.nov.2019/AFP

Ele reconheceu que algumas pessoas acham que o país é “um local estranho” para um evento esportivo mundial. Mas previu que a revanche pelo título, apelidada de “Clash on the Dunes” [confronto nas dunas], ficaria na história assim como “Rumble in the Jungle”, a luta entre Muhammad Ali e George Foreman no Zaire, e do “Thrila in Manila”, quando Muhammad Ali enfrentou Joe Frazier na capital filipina.

Riad gastou cerca de US$ 50 milhões (R$ 210 milhões) para garantir o direito de sediar a luta, em 7 de dezembro, e o esporte está se tornando a mais nova plataforma para o príncipe herdeiro, Mohammad bin Salman, mudar as percepções quanto ao pais desértico e sacudir a sociedade conservadora da Arábia Saudita —tudo isso como parte de seu programa de reforma econômica nacional, chamado Visão 2030.

Ao fazê-lo, Riad está seguindo os passos dos vizinhos Qatar e Emirados Árabes Unidos, que investiram bilhões de dólares para deixar sua marca no cenário do esporte internacional.

É uma tendência que afeta todo o mundo do esporte, com as monarquias absolutas da região despejando vastas quantias de petrodólares para atrair astros e grandes eventos esportivos.

O impacto foi mais perceptível no futebol, com a escolha do Qatar como organizador da Copa do Mundo de 2022 e as centenas de milhões de dólares que Abu Dhabi e Doha gastaram para transformar o Manchester City e o Paris Saint-Germain em potências do futebol. Mas as repercussões também estão se fazendo sentir no automobilismo, atletismo, tênis, golfe e agora, é claro, no boxe.

Há quem se queixe de que o poderio financeiro dos Estados do Golfo Pérsico está distorcendo os mercados, e ativistas acusam os regimes autocráticos da região de usar marcas esportivas famosas para desviar a atenção de seus históricos desfavoráveis quanto aos direitos humanos.

A luta entre Joshua e Ruiz surge em um momento no qual a Arábia Saudita está desesperada por reparar sua imagem, maculada no ano passado pelo brutal assassinato do jornalista Jamal Khashoggi.

Simon Chadwick, professor de empreendedorismo na Escola Salford de Administração de Empresas, no Reino Unido, diz que o fenômeno está mudando o setor esportivo mundial, de formas “tanto tangíveis, quanto intangíveis”.

“Existe uma expectativa de que a região seja uma fonte de receita, e isso faz com que cresçam as expectativas quanto aos valores envolvidos em propor a organização de um evento”, diz.

A entrada da Arábia Saudita, com a maior economia do Oriente Médio e a maior população do Golfo Pérsico, no mercado de eventos esportivos pode causar grande impacto na área.

“A iniciativa Visão 2030 dispõe que sediemos as melhores competições, que promovamos a Arábia Saudita em termos de turismo, e que usemos o esporte, cultura e entretenimento como recurso para isso”, diz o príncipe Abdulaziz bin Turki al-Faisal, presidente da Autoridade Geral do Esporte saudita.

Dias depois que Joshua e Ruiz trocarem socos em um estádio aberto de 20 mil lugares, com os ingressos para assentos de primeira fila à venda por US$ 13 mil (R$ 55 mil), Diriyah sediará um torneio de tênis que pagará US$ 3 milhões (R$ 13 mi) em prêmios e promete contar com “oito dos melhores tenistas do ranking masculino do planeta”. Em janeiro, a Arábia Saudita sediará pela primeira vez o Rali Dakar, um importante evento automobilístico anual.

No mesmo mês, os quatro maiores times de futebol da Espanha, entre os quais Barcelona e Real Madrid, disputarão a Supercopa Espanhola, em Jeddah. Também persistiam os rumores de que o príncipe Mohammed quer comprar o Manchester United.

O reino além disso vai sediar corridas da Fórmula E, a Supercopa da Itália e uma rodada do circuito europeu de golfe, tudo isso pelo segundo ano, além da primeira edição de uma etapa do circuito de ciclismo. Em fevereiro será disputada a primeira Saudi Cup de turfe, que, com premiação de US$ 20 milhões (R$ 85 milhões), será a prova mais rica do planeta.

A autoridades dos países do Golfo Pérsico dizem que esses investimentos são parte de um esforço mais amplo para diversificar suas economias dependentes do petróleo e ajudar a fomentar o turismo, a reputação de seus países e os padrões de serviço no setor de hospitalidade.

O Qatar vai gastar mais de US$ 200 bilhões (R$ 850 milhões) em infraestrutura para a Copa do Mundo. A pista de Fórmula 1 de Abu Dhabi é a peça central de um grande projeto imobiliário de US$ 40 bilhões (R$ 170 bi) na ilha Yas.

O desenvolvimento do setor esportivo também é visto como importante para criar mais opções de entretenimento para as populações jovens e para estimular a prática de esportes, em parte para combater níveis de obesidade que estão entre os mais elevados do planeta. Mais de dois terços da população da Arábia Saudita têm idade inferior a 24 anos.

Mas especialistas dizem que existem outras motivações em ação, da projeção de poder brando ao que ativistas descreveram como uma tentativa de “lavagem esportiva” do péssimo histórico de direitos humanos do país. Queixas semelhantes foram feitas contra os Emirados Árabes Unidos e Bahrein, que sediam grandes prêmios de F-1.

Para alguns dos Estados do Golfo Pérsico, o envolvimento com o esporte trouxe mais escrutínio do que eles teriam preferido. O Qatar vem sendo atormentado por acusações, que o governo nega, de ter recorrido à corrupção para conquistar o direito de sediar a Copa. Também atraiu críticas por seu tratamento a trabalhadores estrangeiros e por sua posição quanto aos direitos dos LGBT.

Os estádios vazios do Campeonato Mundial de Atletismo de Doha também expõe os desafios para a organização de eventos bem-sucedidos na região.

O Manchester City e o Paris Saint-Germain trouxeram sucesso em forma de troféus. Mas gora ambos estão sob investigação pela Uefa, a organização que comanda o futebol europeu, por supostas violações das regras de fair play financeiro, projetadas para impedir gastos insustentáveis com jogadores.

As autoridades de Abu Dhabi sempre insistiram em que a aquisição do Manchester City pelo xeque Mansour bin Zayed al-Nahyan, um importante membro da família real, em 2008, foi um investimento privado.

No entanto, as percepções quanto ao clube agora estão inextricavelmente ligadas ao emirado. Khaldoon Al Mubarak, uma das autoridades mais poderosas de Abu Dhabi, é o presidente do conselho do Manchester City, e a companhia local de aviação Etihad é a principal patrocinadora do time.

O projeto se expandiu internacionalmente, com o City Football Group, estabelecido em 2013, adquirindo outros clubes em Nova York e Melbourne e participações acionárias minoritárias em clubes no Japão, Espanha, Uruguai e China.

Na quarta-feira (27), o grupo de investimento Silver Lake Partners, do Vale do Silício, anunciou um investimento para adquirir uma participação de 10% no City Football Group, fazendo a empresa passar a ser avaliada em US$ 4,8 bilhões (R$ 20 bilhões) —valor superior ao de qualquer outra organização futebolística do planeta.

O Paris Saint-Germain pagou 222 milhões de euros (R$ 824 milhões à época), um recorde mundial, pela contratação do astro brasileiro Neymar, dois anos atrás, em uma transação que causou choque no futebol. Nasser al-Khelaifi, antigo tenista que é presidente do Paris Saint-Germain, também é presidente do conselho da Qatar Sports Investment, a companhia controladora do clube parisiense, e da beIN, a rede de TV via satélite do Qatar, e vem comandando o desenvolvimento do clube.

Ele foi colocado sob investigação formal na França por suposto suborno envolvendo a candidatura de Doha a sediar o Mundial de atletismo. Ele nega as acusações.

A despeito das controvérsias, Nicholas McGeehan, ativista dos direitos humanos e um dos fundadores da Fair/Square, uma organização de pesquisa, disse que a estratégia do poder brando vem em larga medida obtendo sucesso. “Para cada liberal indignado no Ocidente que desaprova o envolvimento [do emirado no futebol], existem cerca de mil garotos que correm por aí com camisas de futebol genuínas ou piratas que trazem o nome do Qatar no peito."

Alguns analistas sugerem que a contratação de Neymar, na metade de 2017, tinha por objetivo em parte enviar uma mensagem da parte de Doha, no sentido de que o Qatar não estava se deixando abalar pelo embargo imposto ao país por Arábia Saudita, Emirados Árabes Unidos, Egito e Bahrein. Os qatarianos imputam a seus rivais a culpa por fomentarem publicamente as acusações de corrupção contra o país.

A batalha chegou aos direitos de transmissão esportiva no Oriente Médio. O canal esportivo beIN, do Qatar, que de acordo com estimativas teria gastado mais de US$ 15 bilhões (R$ 63,7 bi) na aquisição de direitos de transmissão de eventos esportivos, acusa a Arábia Saudita de prejudicar seu produto por meio de uma rede pirata chamada beoutQ, que transmite os mesmos eventos.

Riad nega qualquer envolvimento com a rede pirata, mas a beIN acusa a Arábia Saudita de “roubo industrial nacional em escala gigantesca”. O reino era o maior mercado da beIN no Oriente Médio. Agora Riad vai competir pelos direitos de transmissão, o que deve agravar a disputa regional.

A beIN recorreu a um painel de arbitragem internacional contra a Arábia Saudita e pede mais de US$ 1 bilhão em indenização (R$ 14,25 bilhões). O processo está em curso. McGeehan diz que a disputa com a beIN é prova de como “um esforço de sabotagem mútua” cria obstáculo ao sucesso. “O que você está vendo é uma batalha de prepostos, uma guerra travada no campo do esporte”, ele disse.

Outros dizem que quanto maior se tornar a rivalidade esportiva, mais dinheiro deve ser gasto. “Há uma disputa muito competitiva, quase uma briga de família, entre essas nações, para determinar quem pode gastar mais, comprar mais, fazer melhor”, disse Chadwick. “Se o Qatar investir 1 bilhão, a Arábia Saudita terá de investir 2."

A Arábia Saudita está apenas começando. Perguntado se Riad disputaria a organização de uma Olimpíada ou Copa do Mundo no futuro, o príncipe Abdulaziz respondeu: “Por que não?”.

“Sempre haverá uma percepção sobre a Arábia Saudita, não importa o que façamos, de que esses caras estão sentados em uma pilha de dinheiro e gastando sem parar”, disse o príncipe Abdulaziz. ”Mas sabemos o que é melhor para nós, sabemos o que queremos, e é isso que vamos fazer."

Tradução de Paulo Migliacci

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