Encantado com Jesus, Brasil tem três técnicos campeões portugueses

Caminho de Otto Glória, Yustrich e Carlos Alberto Silva foi inverso ao do 'Mister'

Marcos Guedes
São Paulo

Com a vantagem de oito pontos do Flamengo na liderança do Campeonato Brasileiro, o técnico Jorge Jesus tem boas chances de se tornar o primeiro português a dirigir um time na conquista do torneio.

Aclamado pelo trabalho realizado no Flamengo desde junho, o "Mister", como é chamado, faz um caminho novo e inverso ao trilhado pelos brasileiros que cruzaram o oceano Atlântico para triunfar em Portugal.

O mais notório deles é Otto Glória (1917-1986), carioca tratado como um dos grandes nomes da história do futebol lusitano. Campeão português seis vezes entre os anos 1950 e 1960, ele abriu caminho para o mato-grossense Yustrich (1928-1990), vencedor em 1956, e o mineiro Carlos Alberto Silva (1939-2017), bi na década de 90.

São nove, portanto, as edições do Campeonato Português cujo caminho rumo ao troféu foi liderado por um brasileiro, conta que não inclui a Taça de Portugal. Cada uma das três principais equipes do país teve ao menos uma conquista guiada por um representante da ex-colônia.

No Benfica, as glórias são de Otto, que chegou ao clube aos 37 anos, após alguns trabalhos no Rio de Janeiro. Logo na primeira temporada (1954/55), conquistou o Português e a Taça de Portugal, início de uma trajetória que lhe renderia a medalha de prata da Ordem do Infante Dom Henrique, honraria valiosa para a nação rubro-verde.

Ele desembarcou em Lisboa com a responsabilidade de dar uma cara mais profissional ao time da Luz, mas o fez sem abrir mão do paternalismo. Se implantou o regime de concentração e criou regras mais rígidas para os jogadores, passou a protegê-los de críticas e exposições. O vestiário passou a ser tratado como lugar sagrado, no qual era proibida até a presença do presidente do clube.

O brasileiro levou ainda de sua terra o esquema 4-2-4, que se mostrou instantaneamente efetivo. Ao fim do primeiro semestre de seu trabalho na equipe vermelha, a diretoria já comemorava o resultado do investimento feito para contratá-lo.

“Apesar do pesado encargo [...], não hesitamos um minuto. A razão da nossa atitude parece bem justificada pela obra que o reputado técnico conseguiu fazer em menos de seis meses de permanência entre nós. Não será preciso dizer mais nada...”, afirmava o relatório da gerência do clube apresentado ao fim de 1954.

Após o sucesso em 1954/55, Otaviano Martins Glória ainda levaria o Benfica ao título português outras três vezes, em 1957, 1968 e 1969. Entre esses triunfos –e um total de seis na Taça de Portugal na carreira–, comandou os títulos do rival Sporting em 1962 e 1966, dirigiu também Porto e Belenenses e esteve à frente da melhor campanha de Portugal em todas as Copas.

Otto Glória, como técnico de Portugal, ajudou a eliminar o bicampeão Brasil em 1966 - Acervo/Folhapress

No Mundial de 1966, na Inglaterra, era Otto o técnico da seleção que fez 3 a 1 no Brasil, castigou Pelé e tirou os bicampeões da disputa na primeira fase. Eusébio, que já era bem conhecido do treinador brasileiro, contribuiu para que o time português chegasse ao inédito e jamais repetido terceiro lugar.

Sempre lembrado pela frase que lhe é atribuída –sobre a tênue diferença entre o treinador “bestial” e “uma besta”–, Glória chegou a conviver em Portugal com Yustrich.

Na temporada 1955/56, a segunda de Otto na direção técnica do Benfica, o vencedor do campeonato foi o Porto de Yustrich –que acabara de chegar ao país, também aos 37 anos, na esteira do sucesso do compatriota.

Nascido Dorival Knippel, em Corumbá (antes de o Mato Grosso do Sul se separar do Mato Grosso), Yustrich ganhou o apelido nos tempos de goleiro, pela semelhança física com o arqueiro argentino cujo nome o acompanhou até o fim da vida. Na função de treinador, vestiu orgulhosamente o personagem ultradisciplinador.

Na base do “eu ganho, nós empatamos, vocês perdem”, ele colecionou desafetos. No Brasil, por exemplo, chegou a ser perseguido por um armado João Saldanha. Em Portugal, trocou socos com o atacante Hernâni da Silva, o que acabou causando sua saída do Porto.

Antes da confusão, o brasileiro marcou seu nome na trajetória do time azul e branco, com o título português de 1956, após 15 anos de jejum. Naquela mesma temporada, o Porto levou pela primeira vez a Taça de Portugal, mas nem isso fez o técnico permanecer, por desentendimentos com dirigentes do clube.

Yustrich ergue a taça que ganhou em Portugal, um dos lugares em que colecionou desafetos - Divulgação/FC Porto

Com a troca no comando da diretoria, Yustrich logo retornou ao Porto para uma passagem ainda mais breve. Não houve títulos em 1957/58, e o trabalho foi interrompido pelo entrevero com Hernâni, que, segundo os jornais da época, recusou-se a cumprir a ordem de cumprimentar os torcedores após uma vitória.

“Foi Yustrich que agrediu o jogador, aplicando-lhe uma 'gravata' e atirando-o contra a parede, onde o esmurrou”, relatou O Comercio do Porto, descrição reproduzida na Folha da Manhã de 1º de fevereiro de 1958.

Yustrich regressou, então, ao Brasil. Otto Glória ficou na Europa, enfileirou troféus e abriu ainda mais espaço para os treinadores do país em solo português.

Otto Bumbel e Marinho Peres também conquistaram a Taça de Portugal. Nomes como Abel Braga e Paulo Autuori, que hoje trabalham no Brasil, foram outros que passaram pelo futebol português. Luiz Felipe Scolari foi o treinador da seleção lusitana entre 2003 e 2008, conseguindo um vice-campeonato europeu e um quarto lugar em uma Copa do Mundo.

Depois do último Português vencido por Glória, em 1969, só um brasileiro repetiu o feito. Carlos Alberto Silva teve duas temporadas vitoriosas à frente do Porto, conquistando o Nacional em 1992 e 1993. Quando morreu, em 2017, aos 77 anos, o mineiro de Bom Jardim de Minas recebeu homenagens do clube pelos serviços prestados.

O técnico Carlos Alberto Silva passou duas vitoriosas temporadas no Porto - Lalo de Almeida - 28.out.95/Folhapress

“Ele ganhou por mérito próprio um lugar na história do Porto. Tinha aquele jeito introvertido, mas era um excelente conversador e, enquanto foi nosso treinador, mostrou ser um trabalhador incansável, com os bons resultados que conhecemos”, afirmou o presidente Jorge Nuno Pinto da Costa.

Jorge Jesus conhece essas vitórias e já declarou ter particular admiração por Otto Glória. Perto do título do Campeonato Brasileiro e também na final da Copa Libertadores com o Flamengo, o português de 65 anos se vê com a chance de fazer o caminho contrário e triunfar em terras brasileiras.

Os títulos do Português que tiveram treinadores brasileiros

Otto Glória, Yustrich e Carlos Alberto Silva ergueram a taça em solo lusitano

  1. 1954/55 - Benfica

    Otto Glória

  2. 1955/56 - Porto

    Yustrich

  3. 1956/57 - Benfica

    Otto Glória

  4. 1961/62 - Sporting

    Otto Glória

  5. 1965/1966 - Sporting

    Otto Glória

  6. 1967/68 - Benfica

    Otto Glória

  7. 1968/69 - Benfica

    Otto Glória

  8. 1991/92 - Porto

    Carlos Alberto Silva

  9. 1992/93 - Porto

    Carlos Alberto Silva

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