Descrição de chapéu The New York Times

Futebol do mato faz fãs viajarem 1.600 km em deserto na Austrália

Festival de cultura local acontece anualmente e reúne esporte e música

Jogadores de futebol do mato jogam sob o sol do deserto australiano

Jogadores de futebol do mato jogam sob o sol do deserto australiano Matthew Abbott - 4.ago.2019/NYT

Matthew Abbott
Lajamanu (Austrália) | The New York Times

Na metade de uma jornada de 650 quilômetros por um trecho empoeirado do deserto australiano, o micro-ônibus do time enguiçou.

Os jogadores, australianos da etnia warlpiri, de algumas das cidades mais isoladas do país, estavam a caminho de um carnaval, uma celebração do esporte e cultura que reúne comunidades aborígenes espalhadas por todo o deserto central da Austrália.

Boa parte do percurso até o local do evento, em Yuendumu, é uma viagem em linha reta pela infame e vazia estrada Tanami, uma trilha de terra repleta de obstáculos que se estende por 1.050 quilômetros e passa por Lajamanu, na região norte, a cidade de origem do time.

Mas a viagem era um passeio curto para os jogadores, que já percorreram distâncias de até 1,6 mil quilômetros para jogar seu esporte favorito, conhecido como “bush footy”, algo como “futebol do mato”.

O esporte é uma variante do futebol australiano, um dos esportes mais brutais do planeta. E ele é a grande diversão da cidade, dizem moradores. É uma maneira de distrai-los das dificuldades do dia a dia, em um lugar de clima áspero e oportunidades de emprego escassas.

“Todos os jovens, eles ficam na cidade sem muito o que fazer, e se metem em encrencas”, disse Dionne Kelly, treinador do time. ”Por isso nós os levamos para jogar em outras cidades que praticam o futebol australiano”.

Quase todos os jovens da cidade —além de alguns homens mais velhos e e de diversas mulheres— praticam o esporte, que alguns especialistas argumentam ter sido inspirado por um velho jogo dos indígenas, conhecido localmente como “purlja”. Lajamanu tem apenas 600 moradores, mas conta com cinco times de “bush footy”, com 18 jogadores por equipe. E quando é época de carnaval, a cidade inteira comparece.

Mas a presença do time no carnaval deste ano foi subitamente colocada em dúvida.

Pouco antes de o ônibus chegar à primeira das duas curvas que encontraria ao longo de toda a viagem, apareceu um carro de polícia, com as luzes de alerta acesas.

“Entendo que todo mundo está viajando para o carnaval, mas é minha responsabilidade garantir que todos cheguem em segurança”, disse Gary Willmett, o policial que fez o ônibus parar. “E com isso vocês não vão continuar na estrada a não ser que me mostrem uma licença”.

O único problema é que ninguém que estava no ônibus tinha licença. Além disso, ninguém estava usando o cinto de segurança. O veículo estava superlotado. E provavelmente viajando acima do limite de velocidade.

Encrencas desse tipo com a polícia são comuns em Lajamanu (assim como outros problemas sociais, entre os quais abuso de sustâncias, violência doméstica e suicídio). Os residentes se sentem vítimas de perseguição injusta pelas autoridades, que muita gente vê como discriminatórias e "mão pesada".

“Três dos nossos meninos são alvo de mandados de prisão, entre os quais o motorista do ônibus”, disse Clint Firth, representante da Australian Football League, a federação nacional do esporte, que estava assistindo à cena de outro carro, que viajava em companhia do ônibus da equipe como parte de um comboio. “Eles devem tentar fugir, agora”.

A parada pela polícia envolvia não só a ameaça de prisão como a de pôr fim à oportunidade da cidade para curtir o carnaval. Felizmente, um dos líderes da cidade tinha licença, ainda que estivesse viajando em outro carro, como parte de outro comboio, e se ofereceu para dirigir o ônibus.

Satisfeito com o arranjo, o policial autorizou o prosseguimento da viagem do time, e do pessoal da cidade. A cerca de um quilômetro do local da operação policial, longe dos olhos da polícia, os veículos fizeram uma nova parada para trocar de motorista de novo.

”Ele é um policial novo, acaba de chegar à cidade. Aqui as coisas são diferentes”, disse Firth. “O policial anterior era completamente diferente, percebia que não se pode multar e deter as pessoas por coisas pequenas. Porque desse jeito você terminará prendendo a cidade inteira”.

Por todo o centro da Austrália, jogadores aborígenes e suas famílias veem o “bush footy” como oportunidade de se conectarem com os vizinhos, com os parentes em cidades distantes e com sua cultura.

“Igual ao Brasil”, disse Cyril Tasman, um dos anciões da cidade de Lajamanu e torcedor do time. “Eles têm o futebol deles, nós temos o nosso. É como uma religião aqui”.

Enquanto o time prosseguia em sua jornada, o ônibus passava por carcaças de carros queimados, por alguns turistas excêntricos e pelos famosos trens rodoviários do Outback —caminhões puxando três ou quatro carretas ao mesmo tempo. Os imensos veículos podem superar os 60 metros de comprimento, e deixam quilômetros de poeira em sua esteira.

Pouco depois do crepúsculo, o time parou em um abrigo de ônibus para uma refeição, pão e carne enlatada. A área perto da mina de ouro de Granites é um dos poucos pontos do deserto entre Lajamanu e Yuendumu que conta com serviço de telefonia móvel, e os jogadores correram para verificar suas mensagens.

A mina, estabelecida em 1993 por uma empresa americana, remunera os donos tradicionais da terra em Lajamanu e Yuendumu. Os royalties pagos ajudam a custear os carnavais ao gerar dinheiro para comida, transporte e programas operados pela Australian Football League.

Pouco depois das 23h, com a luz do combustível indicando que o tanque estava na reserva, o ônibus fez sua segunda parada da viagem, chegando a Yuendumu. O time se dispersou, com cada jogador saindo em busca de um quarto ou de um espaço para dormir na varanda da casa de algum parente.

Este ano, 17 equipes masculinas e oito femininas se inscreveram para jogar no carnaval. Foi apenas a segunda vez em mais de 50 anos em que uma competição feminina foi realizada. Outros esportes também costumam ser jogados no carnaval, tipicamente, entre os quais basquete e “softball”, e o festival oferece outros aspectos da cultura local, como arte e dança.

Alguns dos visitantes do carnaval têm outros propósitos em mente, além disso. Como explicou Tasman, o ancião de Lajamanu, “como você sabe, essa garotada toda se conecta pela mídia social, agora, Os garotos e meninas conversam online e os carnavais são uma chance de se encontrarem em pessoa”.

Mas o futebol é a grande atração.

O “bush footy” é jogado de maneira significativamente diferente do futebol australiano jogado nas cidades. Para começar, ou campo (ou "oval"), é muitas vezes de terra e não de grama. Enquanto o futebol australiano profissional se tornou cada vez mais técnico e estratégico, o “bush footy” não tem muita estrutura.

“É como as pessoas costumavam jogar 500 anos atrás”, disse Firth, o representante da liga. “O futebol do mato é único. É muito mais flexível e, para ser honesto, muito mais divertido”.

O primeiro dia da competição começou com planos de estender as partidas noite afora. Mas de repente, no meio de um jogo, a partida parou. Os jogadores deixaram o campo e as luzes que iluminavam o oval foram apagadas sem explicação.

Gradualmente uma mensagem se espalhou aos sussurros, entre os torcedores. Havia acontecido uma morte na comunidade e, para demonstrar respeito, todo mundo devia deixar o campo imediatamente. A multidão se dispersou pela noite. A cidade ficou silenciosa, de um jeito meio tétrico, exceto pelos soluços discretos dos parentes que lamentavam a morte do menino.

Começou a circular um boato de que o carnaval seria cancelado. Pela tarde do dia seguinte, porém, a família do menino deu permissão à cidade para continuar o carnaval. Os times entraram no oval e a torcida os seguiu, se posicionando nas laterais para aplaudir.

O time de Lajamanu chegou às quartas de final, quando enfrentou seu maior rival, o time da cidade sede, Yuendumu.

Lajamanu estava vencendo até o minuto final de jogo, quando um jogador de Yuendumu correu com a bola por todo o campo e marcou um gol no estouro do relógio.

As esperanças de Lajamanu foram destruídas em um instante. Mas não havia muito tempo para sofrer. Eles tinham de voltar ao ônibus. Eram esperados em Katherine, a 1,13 mil quilômetros de Yuendumu.

Um nova partida de “bush footy” os aguardava.

Tradução de Paulo Migliacci

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