Descrição de chapéu The New York Times

Nova Copa Davis tenta criar velha animação em tenistas e torcedores

Fase final do torneio, nas mãos do jogador de futebol Piqué, acontece em Madri

Christopher Clarey
Madri | The New York Times

O nervosismo é parte da Copa Davis desde que a mais antiga competição por equipes do tênis começou, 119 anos atrás.

Mas o desassossego tinha fonte diferente da usual, esta semana em Madri, onde as rodadas finais da Copa Davis foram radicalmente transformadas por uma parceria improvável entre a Federação Internacional de Tênis (ITF) e o astro do futebol espanhol Gerard Piqué.

O suspense, na verdade, parecia ligado menos a quem ficaria com o troféu grande e reluzente e mais a se alguém ligaria a mínima para quem ficaria com o troféu grande e reluzente.

Time espanhol celebra vitória de Rafael Nadal (de costas) em partida da Copa Davis
Time espanhol celebra vitória de Rafael Nadal (de costas) em partida da Copa Davis - Susana Vera/Reuters

Isso criou um clima estranho, e o dia de abertura, a segunda-feira (18), foi, antes de tudo, um momento de avaliação –avaliação da dimensão do público e de seu interesse, e não da eficácia dos backhands e forehands em quadra.

A primeira impressão foi clara: o público foi menos que impressionante, no complexo de tênis Caja Mágica, com os três estádios cobertos longe de cheios durante as três partidas de simples do dia.

Mas nessa era nova e incerta, seria injusto julgar o produto com rapidez excessiva, mesmo se, a esta altura, as únicas partidas com lotação esgotada sejam as duas que envolvem a Espanha e seu popular líder, Rafael Nadal.

No total, havia 18 equipes presentes para a fase final, entre as quais duas nações que chegaram como convidadas: Argentina e Reino Unido, que tem Andy Murray de volta à equipe, dando sequência ao seu retorno às quadras depois de uma grande cirurgia no quadril.

Quer você goste, quer não goste do conceito de países convidados –e eu certamente não gosto, a menos que estejamos falando do país organizador—, as 18 equipes foram divididas em seis grupos.

Os vencedores dos grupos e as duas melhores equipes entre as restantes avançarão para as quartas de final, que começam na quinta-feira. Todas as partidas são melhores de três sets, e cada disputa entre equipes envolve dois jogos de simples e um jogo de duplas.

Parece uma corrida curta, comparada à Copa Davis longa do passado, com jogos em forma de melhor de cinco sets e quatro dias de disputa, envolvendo quatro partidas de simples e uma de duplas. No nível mais elevado do esporte, havia quatro rodadas do torneio ao longo do ano.

Gerad Piqué observa instalações da Caja Magica, palco da Copa Davis em Madri
Gerad Piqué observa instalações da Caja Magica, palco da Copa Davis em Madri - Sergio Perez/Reuters

Mas com os melhores jogadores participando do torneio de modo apenas intermitente, e sua viabilidade e receita em longo prazo gerando preocupações, a FIT, sob o comando de seu presidente, o americano David Haggerty, votou por mudar o formato do torneio a partir deste ano, depois de receber uma oferta lucrativa do Kosmos, o grupo de investimento presidido por Piqué.

“Creio que seja preciso olhar para a disputa como um todo, contemplar o quadro mais amplo”, disse Mardy Fish, que esteve entre os 10 melhores do ranking do tênis no passado e agora é o capitão da equipe americana na Copa Davis. “A sensação é diferente, um pouco diferente, com certeza, mas a base continua lá. Jogar por seu país continua lá, e jogar em equipe continua lá; e é sempre especial desfraldar a bandeira e vestir o paletó. Há algo de muito poderoso na bandeira dos Estados Unidos, e em tê-la em seu peito."

A participação dos astros do esporte era uma das grandes justificativas para mexer com a rica tradição da copa, mas apenas 5 dos 10 líderes atuais do ranking estão em Madri.

Ainda que o número 1, Nadal, e o número 2, Novak Djokovic, estejam presentes, o quarto colocado, Dominic Thiem, e o sexto colocado, Stefanos Tsitsipas, que duelaram no domingo nas finais da ATP, não estavam, porque seus países, Áustria e Grécia, não se classificaram.

O quinto colocado, Daniil Medvedev, desgastado depois de um final de ano bem sucedido, se retirou do torneio e não fez parte da equipe russa que derrotou a Croácia na segunda-feira. E Roger Federer, o desertor da Copa Davis, e Alexander Zverev estavam gerando grande concorrência com uma excursão muito bem paga à América Latina.

O Tennis Channel dos Estados Unidos vai transmitir uma das partidas de exibição entre eles no domingo, depois de não chegar a acordo financeiro com o Kosmos quanto aos diretos de transmissão da Copa Davis. Em lugar disso, a Fox Sports 2 transmitirá as partidas da equipe americana e a disputa do título, nos Estados Unidos.

“As pessoas vão ao Tennis Channel para assistir a tênis, e veem jogos de exibição lá, em vez de jogos reais”, disse Fish. “É decepcionante, e sei que o pessoal fica desapontado”.

Eric Abner, porta-voz do Tennis Channel, disse que “também estamos decepcionados. Queríamos exibir a Copa Davis. Mas é tudo questão de recursos."

Opções menos extremas foram consideradas quanto ao formato da Copa Davis: torná-la um evento bienal, em lugar de anual, ou realizar as semifinais e final em um local neutro, com as duas rodadas anteriores disputadas no formato tradicional de jogos de ida e volta.

Torcedores argentinos apoiam tenistas do país na Copa Davis
Torcedores argentinos apoiam tenistas do país na Copa Davis - Gabriel Bouys/AFP

E se você ouvir os mais céticos, opções menos extremas podem ser reconsideradas no futuro. “Aposto qualquer coisa que dentro de no máximo dois anos eles mudarão o formato de novo”, disse Ion Tiriac, antigo astro da Romênia na Copa Davis, em uma entrevista recente.

Tiriac é treinador e agente de tenistas há muito tempo, e também organizador de um torneio anual realizado em Madri na Caja Mágica, todo mês de maio. Para Tiriac, 80, a transformação da Copa Davis é um absurdo. “E uma piada e uma desgraça”, ele disse. “Eles arruinaram a joia do tênis."

Piqué, em entrevista alguns meses atrás, minimizou as críticas de Tiriac. “Ele é muito antiquado em seu modo de ver essas coisas, e ao mesmo tempo, o fato de que estamos ambos em Madri ao mesmo tempo é algo que não ajuda”, disse Piqué. “Se em vez de Madri tivéssemos escolhido jogar os dois primeiros anos do novo formato na França, ele talvez tivesse opinião diferente."

Para Piqué, mais acostumado a lidar com atacantes adversários do que com as figuras influentes do tênis atual, a jornada da Copa Davis foi um processo complicado de aprendizado.

Ele abordou os líderes da ITF e da associação de tenistas profissionais com o conceito do Kosmos para um torneio em formato semelhante ao da Copa do Mundo de futebol. Mas mesmo depois de a ITF ter se tornado parceira do Kosmos, as negociações com a ATP não deram certo.

Apesar de partes terem chegado perto de um acordo, as conversações fracassaram em 2018. A ATP criou um torneio por equipes, a ATP Cup, que será realizada no começo de janeiro na Austrália com 24 equipes e, por enquanto, adesão de 9 dos 10 primeiros colocados no ranking masculino.

Isso vai criar duas competições muito parecidas a sete semanas de distância, o que naturalmente está longe de ser ideal. Mas Piqué continuou a expressar confiança em que uma fusão ou um acordo para futura união poderá ser obtido.

“Estou muito confiante em que poderemos fazê-lo, no futuro”, ele disse. “Posso afirmar que tentamos, e continuaremos tentando, porque acreditamos que esse é o caminho a seguir, mas ao mesmo tempo precisamos encarar a realidade."

Por enquanto, a realidade é que as finais da Copa Davis serão realizadas em novembro, uma data menos que ideal, em Madri, neste ano e no ano seguinte. Mas o Kosmos e a ITF poderão escolher datas e local diferentes no futuro.

“Minha visão quanto a isso é de longo prazo”, disse Piqué. “O acordo tem prazo de 25 anos."

A visão em longo prazo certamente parecia ser a mais agradável quando da cerimônia de abertura na tarde de segunda-feira, em um estádio penas meio cheio.

Mas então chegou a noite, e Shapovalov, 20, conseguiu derrotar Berrettini, 23, e gritou de alegria, celebrando abertamente com seus colegas de equipe e com um pequeno grupo de torcedores canadenses vestidos de vermelho.

Sinais contraditórios? Pode se acostumar a eles.

Tradução de Paulo Migliacci

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