O futebol ainda delimita onde o negro pode entrar

Ainda visto como inclusivo, esporte repete desigualdade racial do Brasil

Marcelo Carvalho
Porto Alegre

‚ÄúEste negro est√° autorizado a entrar aqui?‚ÄĚ

√Č com essa frase que o hoje comentarista de arbitragem M√°rcio Chagas abre suas palestras sobre discrimina√ß√£o racial. Para quem n√£o se recorda, o ex-√°rbitro encontrou bananas em seu carro logo ap√≥s apitar uma partida do Campeonato Ga√ļcho em 2014. Esse, por√©m, n√£o foi o √ļnico caso de racismo que Chagas enfrentou em sua vida. O questionamento que cita na palestra foi ouvido muitas vezes ainda na sua adolesc√™ncia.

O árbitro ocupa uma posição de poder no futebol. Assim como o técnico e o dirigente.

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O ex-árbitro Márcio Chagas sabe o que é o racismo, no futebol e fora dele - Tiago Coelho - 29.mar.19/UOL/Folhapress

O esporte mais popular do país chegou ao Brasil como uma atividade elitista e racista. Com o passar dos anos, negros foram aceitos. Tinham permissão para atuar nas equipes, mas eram, muitas vezes, proibidos de frequentar as demais dependências dos clubes.

A inserção não representou a passagem do racismo para o não racismo.

A imagem de um time de futebol sem jogadores negros em campo é algo inimaginável nos dias de hoje. Mas basta desviar o olhar para o banco de reservas ou para os camarotes onde ficam os dirigentes que o passado não fica assim tão distante.

Se a maioria dos treinadores s√£o ex-atletas, por que os negros n√£o est√£o nessas posi√ß√Ķes? Qual a barreira a ser quebrada? Qual autoriza√ß√£o ainda n√£o foi dada?

A principal argumentação utilizada quando se debate a ausência de negros em cargos de comando é a da falta de qualificação. Dirigentes negam que haja preconceito racial. Mas será mesmo?

Paulo Cesar Tinga trabalhou como gerente de futebol no Cruzeiro. Antes de ter uma chance no clube mineiro, conversou com um dirigente do Internacional sobre seus planos na carreira. Ex-jogador e campe√£o no time ga√ļcho, ouviu que at√© poderia trabalhar l√°, mas antes precisava cortar seus dreadlocks. Tinga perguntou o que interessava mais, seu cabelo ou seu trabalho.

O ex-jogador já questionou o fato de a seleção brasileira não ter nenhum coordenador negro ou mesmo não ter entrevistado nenhum para ocupar o cargo quando ele estava vago. A falta de diversidade não seria uma preocupação da entidade, assim como não é dos clubes.

No dia 12 de outubro, a rodada do Brasileiro teve um jogo com dois t√©cnicos negros: Roger Machado, do Bahia, e Marc√£o, do Fluminense. Foi a oportunidade para o treinador da equipe baiana dar uma entrevista √©pica sobre desigualdade racial no pa√≠s. Comparou a situa√ß√£o que vive como gestor no futebol com a que enfrentou quando cursou uma faculdade.

‚ÄúS√≥ tinha eu de negro. Isso √© a prova para mim [de que o racismo existe]. Mas, mesmo assim, rapidamente, quando a gente fala isso, ainda tentam dizer: ‚ÄėN√£o h√° racismo, est√° vendo? Voc√™s est√° aqui‚Äô. N√£o, eu sou a prova de que h√° racismo porque eu estou aqui‚ÄĚ, afirmou Roger.

A opini√£o √© compartilhada por Roque J√ļnior, ex-zagueiro campe√£o do mundo em 2002, que √© diretor de futebol da Ferrovi√°ria. Para ele, sua exce√ß√£o confirma a regra.

No ponto que se refere √† falta de qualifica√ß√£o, argumento utilizado por quem tenta inviabilizar o debate, √© preciso lembrar que no universo acad√™mico negros s√£o minorias. No universo acad√™mico do futebol, o quadro √© o mesmo e com o agravante de que para obter um diploma para trabalhar na principal divis√£o √© preciso desembolsar algo em torno de R$ 19 mil.

O futebol sempre foi visto como um esporte popular e inclusivo. Na realidade, o que se percebe √© que h√° delimita√ß√Ķes nele. Falta aos clubes interesse em promover a√ß√Ķes inclusivas.

A resposta mais ouvida √© que o futebol √© um espelho da sociedade, o que √© uma desculpa para a falta de a√ß√Ķes. Basta pensar o quanto pode ser ben√©fico ao clube promover a diversidade em seus quadros de comando e assim dialogar de forma mais pr√≥xima com seus torcedores.

Temos uma desigualdade racial muito forte no Brasil, acentuada pela falta de projetos que promovam mais acesso à educação e ao mercado de trabalho. Isso contribuiu decisivamente para o cenário de perpetuação da pobreza e do racismo. Faz com que muitas pessoas ainda associem os negros a pessoas preguiçosas, desinteressadas em estudar e com pouca ambição de chegar a postos de comando.

O futebol poderia de fato se tornar inclusivo, investir em bolsas de estudos, interc√Ęmbios e projetos de carreira para que cada vez que um negro alcance uma posi√ß√£o de destaque ele n√£o tenha que responder ‚Äúo que ele est√° fazendo ali‚ÄĚ.

Criador do Observatório da Discriminação Racial no Futebol

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