Descrição de chapéu The New York Times

Operário, volante francês Kanté corre e marca pela foto da vitória

O papel do jogador do Chelsea é criar uma plataforma na qual outros possam brilhar

Rory Smith
The New York Times

Para Andrea Pirlo, era a satisfação de uma falta, batida com capricho, passando “dois centímetros acima” da cabeça do defensor e além do alcance do goleiro desesperado, até se aninhar no canto do gol. Em sua autobiografia, Pirlo diz que “não existe sensação melhor na vida”.

Dennis Bergkamp sentia a mesma coisa sobre o toque perfeito. Bergkamp diz que ele não recorda seus momentos mais emblemáticos – pela Holanda contra a Argentina na Copa do Mundo de 1998, ou suas obras-primas contra o Leicester City ou Newcastle, defendendo o Arsenal – como gols, mas pelo acontecido um instante antes, quando lançou um feitiço sobre a bola.

O volante N’Golo Kanté (à dir.) durante partida entre Chelsea e Manchester City, pelo Campeonato Inglês
O volante N’Golo Kanté (à dir.) durante partida entre Chelsea e Manchester City, pelo Campeonato Inglês - Andrew Yates - 23.nov.2019/Reuters

O gol era a consequência; o toque, a causa. Na opinião de Bergkamp, era isso que deveria ser celebrado. Era isso que ele guardava na memória.

É o tipo de pergunta que costuma ser feita apenas aos jogadores criativos, aqueles que não só são excelentes no negócio do futebol – marcar gols e vencer jogos – mas dominaram sua técnica, elevando-a a uma forma de arte. O que propicia mais prazer? Um sucesso transitório ou algo mais elevado?

N’Golo Kanté não é o tipo de jogador a quem esse tipo de pergunta seja feita rotineiramente. O trabalho dele, afinal, não é arte: ele é o operário consumado do futebol. Kanté é o que Eric Cantona certa vez desdenhou como “carregador de água”: um jogador que corre, recupera bolas, marca. São coisas que Kanté faz melhor do que qualquer outra pessoa no esporte, mas ainda assim: é só trabalho. A verdadeira magia está na invenção. Os poetas têm direito a um processo criativo; os estenógrafos não.

Mas a resposta dele a esse tipo de pergunta é intrigante. O que propicia mais satisfação no futebol a Kanté, meio-campista do Chelsea, não é, como você talvez pudesse supor, a sensação de ter contribuído, a cálida satisfação de ajudar os companheiros e ver seu altruísmo recompensado. Não é um carrinho com tempo perfeito, ou uma jogada que propicie um contra-ataque inteligente. Não é nem mesmo um daqueles raros momentos em que ele marca um gol.

“Não é um talento especial”, ele disse. “Meu momento favorito é quando erguemos um troféu. Depois, temos a foto que nos mostra erguendo o troféu. E a foto mostra muito trabalho, muita dificuldade e muito sacrifício de todos, unidos. É isso que é preciso para erguer um troféu. De uma foto, você tira muitas lembranças”.

A coisa favorita de N’Golo Kanté sobre o futebol é a parte da vitória.

Há muitas histórias sobre Kanté. Ele já ouviu a maior parte delas.

Algumas são verdade. Seu carro é meio sem graça, pelos padrões dos astros do futebol. Algumas contém o que provavelmente merece ser descrito como um grão de verdade, como a que Olivier Giroud – colega de Kanté na seleção francesa que venceu a Copa do Mundo de 2018 – contou sobre o amigo no ano passado.

N’Golo Kanté durante treino da seleção francesa
N’Golo Kanté durante treino da seleção francesa - Martin Bureau - 8.out.2019/AFP

Segundo Giroud, Kanté é “tímido” demais para pedir para erguer a famosa taça; em lugar disso, enquanto os colegas celebravam em campo, em Moscou, foi Steven Nzonzi, outro dos jogadores da seleção francesa, que pediu que a taça fosse dada a Kanté, para que ele também pudesse guardar o momento para a posteridade.

“Não foi assim”, diz Kanté agora. “Mudaram um pouco a história. Eu estava só curtindo o momento. Estava a alguma distância da frente quando Hugo Lloris, o capitão, começou a erguer a taça. Estava esperando a minha vez. Não é que eu não quisesse erguê-la”.

Já outras histórias –para resumir– simplesmente não são verdade– como  a que Jamie Vardy, antigo colega de Kanté no Leicester City, transformou em folclore: a de que Kanté, 28, não contente com fazer sessões adicionais de corrida depois dos treinos, teria sugerido em dado momento que talvez fosse melhor deixar de ir com seu Mini Cooper para o centro de treinamento, e em lugar disso ir correndo. “Não fui assim tão longe”, disse Kanté.

O motivo para que histórias como essas circulem, verdadeiras ou não, é que elas se enquadram à imagem de Kanté. Ele é universalmente popular –se é que isso existe em um esporte dividido por lealdades tribais–, e é o tipo de jogador que poderia ser mencionado nas investigações do site de denúncias Football Leaks e ainda assim sair com sua reputação beneficiada.

Ele demorou a se desenvolver, e quando tinha 19 ou 20 anos ainda estava inseguro sobre se teria ou não uma carreira como futebolista profissional; Kanté só saboreou o futebol das grandes ligas europeias pela primeira vez ao ser contratado pelo Leicester em 2015.

Esse retrospecto cria uma sensação positiva sobre sua ascensão, um conto de fadas sobre um menino que era considerado baixinho demais para o sucesso e provou que todo mundo estava errado.

O trabalho que ele faz – altruísta, na sombra, e sem espaço para exibicionismo – e a maneira pela qual ele o faz, com esforço incansável e um sorriso no rosto, facilitam a criação de mitos.

O papel de Kanté é fazer com que os outros pareçam melhores, criar uma plataforma na qual outros possam brilhar. E isso torna fácil acreditar que ele é o oposto de um superastro –exatamente a percepção do público a seu respeito.

Observando-o durante um evento promocional algumas semanas atrás, percebi claramente que essa não é uma imagem falsa. Acompanhado por Michy Batshuayi e Kepa Arrizabalaga, seus colegas de Chelsea, e também por Moise Kean, do Everton, e por Ian Wright, ex-atacante do Arsenal, ele foi convidado pela Adidas, a patrocinadora de suas chuteiras, a visitar um hangar em Nine Elms, um bairro emergente de Londres, para o lançamento da Uniforia, a bola que a companhia criou para a Eurocopa do ano que vem.

Esse não é um lado de seu trabalho que Kanté aprecie. “É algo que aprendi a fazer”, ele disse. Mas ele sabe que isso é parte do negócio. “De vez em quando precisamos fazer essas coisas”.

Batshuayi, Kean e Arrizabalaga pareciam confortáveis sob os holofotes, posando alegremente para os fotógrafos e influenciadores de Instagram reunidos. Kanté, o mais famoso entre os jogadores presentes, não parecia tão confortável.

Por ser o personagem central na apresentação, ele recebeu a tarefa de erguer a bola. Ele tinha no rosto o sorriso largo e imóvel de alguém que sabe que está sendo fotografado. Segurava a bola com os braços estendidos. Kanté estava imóvel, com cara de alguém que está determinado a fazer bem um trabalho simples.

A melhor descrição sobre Kanté talvez venha de Steve Walsh, o veterano olheiro e treinador responsável por levá-lo do Caen, um time francês, para o Leicester City. Aquele time, brincou Walsh, que conquistou o título mais extraordinário na história da Premier League, tinha três homens no meio de campo|: Danny Drinkwater como volante de contenção e Kanté jogando dos dois lados.

Essa é a sensação, ao vê-lo jogar. Outra brincadeira feita a seu respeito em sua primeira temporada na Inglaterra foi a de que 70% do planeta está coberto de água, e os 30% restantes estão cobertos por Kanté.

Kanté (à esq.) durante partida do Chelsea pelo Campeonato Inglês
Kanté (à esq.) durante partida do Chelsea pelo Campeonato Inglês - Tony O'Brien 9.nov.2019/Reuters

Em muitos momentos, ele parece um meio de campo de um homem só, correndo pela direita e pela esquerda, mais à frente e mais recuado, para evitar ameaças à sua defesa, e mostra muito mais força do que sua estatura de 1,68 metro sugeriria, roubando bolas, marcando, pressionando.

Esse é o trabalho –não a arte– do futebol; ou ao menos é assim que Kanté encara. “Não sou um superastro ou um ego”, ele disse. “Sou o que sempre fui: um cara que joga futebol”.

Isso não significa dizer que ele não curte o sucesso, e Kanté se apressa a dizer que sua timidez não deve ser entendida como falta de autoconfiança. “Sempre fui discreto, a vida toda”, ele disse.

“Mas isso nunca foi problema, em campo. No começo, eu jogava diante de 10 pessoas em um parque, depois mil, e depois 10 mil, e 80 mil, e aparecia na televisão. Fiz tudo isso passo a passo, e não foi problema. Não existe falta de confiança, para mim, quando estou em campo diante de muita, muita gente”.

Ele encontra grande “satisfação em roubar a bola, em proteger meu time contra o ataque de um adversário”. Kanté gosta da sensação de esforço coletivo; ele gosta de ser parte de um time.

Mas acima de tudo, ele gosta de vencer. Kanté talvez seja um sujeito modesto. Ele talvez mereça a reputação de ser um dos bons sujeitos do esporte. Ele pode estar disposto a e sacrificar pelo time. Pode fazer todo o trabalho humilde, e batalhar sem muita visibilidade para que os outros possam brilhar.

Mas não o faz por bondade. Isso pode não transparecer imediatamente em seu sorriso, e pode não se enquadrar à imagem construída sobre ele, mas o que torna Kanté uma força da natureza, o que propele o maior operário do futebol, é uma competitividade implacável.

Ele é tão mestre de sua arte quanto Pirlo ou Bergkamp, mas sua arte toma forma diferente. A inspiração dele não é a procura da beleza ou alguma busca quixotesca de perfeição. O que ele busca é colecionar memórias: dois títulos da Premier League, uma Liga Europa, uma Copa do Mundo. São as fotos dessas vitórias que o lembram de que toda a batalha e esforço, toda a marcação e correria, valeram a pena. “A maior satisfação de todas é vencer”, ele disse.

The New York Times, tradução de Paulo Migliacci

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