Descrição de chapéu Campeonato Brasileiro

Postura, críticas e desempenho derrubaram Carille no Corinthians

Técnico foi demitido no domingo (3), após completar oito jogos sem vitórias

Luciano Trindade
São Paulo

Oito jogos sem vitórias causaram a demissão de Fábio Carille, 46, do Corinthians, anunciada domingo (4), após a derrota para o Flamengo, por 4 a 1. O processo de desgaste do técnico no clube, porém, começou um pouco antes desta sequência. Foi em 18 de setembro, quando o time foi eliminado da Copa Sul-Americana pelo modesto Independiente Del Valle (EQU).

Depois da derrota em Itaquera no jogo de ida da semifinal, por 2 a 0, o técnico justificou o resultado questionando a experiência de alguns jogadores. Chegou a dizer que havia "muitos meninos em campo." O elenco não absorveu bem a crítica. O meia Pedrinho, 21, disse publicamente que ficou chateado.

Em campo, o elenco também acusou o golpe. Nos 12 jogos seguintes, a equipe teve aproveitamento de 38%. O número representa queda de 20 pontos percentuais tendo como recorte a mesma quantidade de partidas antes da derrota para o Del Valle. O rendimento era de 58%.

Fábio Carille durante jogo do Corinthians contra o Internacional
Fábio Carille durante jogo do Corinthians contra o Internacional - 11.ago.19 - Diego Vara/Reuters

A postura de Carille também agravava a crise. Em várias entrevistas após os jogos, usou tom irônico, agressivo e até debochado para falar das críticas que recebia, dos protestos da torcida, da qualidade do elenco corintiano e dos reforços que a diretoria do clube tentou, mas não conseguiu contratar.

Carille deixou o Corinthians nesta segunda passagem pelo clube após 69 jogos, com 27 vitórias, 25 empates e 17 derrotas, além da conquista do título paulista nesta temporada. Somando a primeira experiência dele à frente do time alvinegro, são 183 partidas, 86 triunfos, 56 empates e 41 derrotas. Ele foi tricampeão paulista (2017, 2018 e 2019) e campeão brasileiro (2017).

RAZÕES PARA A QUEDA DE CARILLE ​

Time de meninos

"É um grupo novo, tinha muitos meninos em campo. Era um jogo que só tinha ‘nego’ malandro, jogador vivido. Hoje esses jogadores precisam se acostumar com esse tipo de jogo" - 18.set

Depois da partida em que o Corinthians foi dominado pelo Independiente Del Valle-EQU em casa, sem esboçar qualquer reação, Fábio Carille responsabilizou os jogadores pelo resultado. O fato de ter questionado a experiência de alguns atletas em campo foi mal recebido pelo elenco, sobretudo pelos mais jovens.

O curioso é que a média de idade da equipe equatoriana era menor do que os atletas alvinegros, 26 anos contra 30. Em campo, o time paulista só teve três atletas abaixo de 25 anos: Pedrinho, 21, Mateus Vital, 21 e Clayson, 24.

Saudade de ex-jogadores e cobiça de rivais

"Nos falta profundidade, jogadores que se posicionam para buscar a bola na frente e dar bola no pé. Tem equipes mais equilibradas em questão de elenco. Estou sentindo alguns jogadores importantes com confiança baixa" -  13.out

Em meio à sequência de oito jogos do Corinthians sem vencer, Fábio Carille passou a criticar a qualidade do elenco que ele mesmo ajudou a formar.

Em janeiro, pouco depois de acertar seu retorno ao clube, ele disse à Folha que ficou surpreso com as contratações que o Corinthians fez para este ano. "A diretoria passou que iria fortalecer, mas já está acima do que eu esperava", disse à época.

Na mesma entrevista, contou que participou das negociações pelas vindas de Ramiro, Sornoza e Boselli. Ao avaliar o elenco, ele chegou a dizer que era mais equilibrado do que a equipe que ele dirigiu em 2017. "É uma equipe mais pronta", afirmou.

Dez meses depois, além de questionar o equilíbrio do plantel corintiano, ele lamentou o fato de o clube não ter conseguido concretizar as tentativas de contratar o ex-corintiano Rodriguinho, atualmente no Cruzeiro, Gabriel, atualmente no Flamengo, e Róger Guedes, ex-Palmeiras, atualmente no Shandong Luneng (CHN).

"Infelizmente não conseguimos e é isso que falta para nós hoje", disse após a derrota do Corinthians para o São Paulo, por 1 a 0, no último dia 13 de outubro.

Sistema deixou de funcionar

"Vergonhoso [o futebol do Corinthians]. Parece que não é um time treinado, [parece] que se junta no vestiário e vai para o jogo. Você passa informações e daqui a pouco não está sendo feito" - 1.nov

O discurso sincero, considerado excessivamente resignado diante da má fase da equipe, irritou alguns jogadores e parte da diretoria. Carille disse, também, que o time precisava ser mais ofensivo para buscar resultados melhores, mas assumiu sua incapacidade de fazer os atletas renderem mais.

"A gente precisa crescer na parte ofensiva, e estou tendo dificuldade de fazer isso", disse.

O limitado repertório ofensivo do Corinthians, aliás, era o principal ponto criticado no trabalho do técnico. O time alvinegro é o 3º que menos finaliza no Campeonato Brasileiro, à frente somente de Botafogo e CSA.

Pressionado por números como este, Carille chegou a tentar uma mudança drástica entre as partidas contra São Paulo e Goiás. Depois de perder o clássico, ele mudou sete nomes na formação da equipe, mas novamente viu seu time acabar derrotado.

Nesta segunda passagem pelo clube, ele insistiu em usar os esquemas táticos com os quais se saiu bem em 2017, principalmente o 4-1-4-1 e o 4-4-2, mas com jogadores de características diferentes, esteve longe de obter o mesmo sucesso.

Relação com o presidente do clube

"Foram situações que me fizeram tomar essa decisão [de sair do clube, em 2018, quando foi para o futebol da Arábia Saudita]. Nossa relação é muito boa, [Andrés é] sempre muito próximo, nos deixa trabalhar, passa confiança, então não é por isso minha saída" - 20.dez.18

Assim que voltou ao clube, Fábio Carille deu uma entrevista ao presidente corintiano Andrés Sanchez, no programa que o cartola mantém no canal do Corinthians no Youtube. Na ocasião, os dois negaram que a relação deles não era amistosa e que o mandatário não teria feito esforço para mantê-lo quando a oferta dos árabes chegou.

Aquela, no entanto, foi uma exceção. Foram raras as vezes em que os dois estiveram juntos em entrevistas coletivas. 

Na quarta-feira, 30 de outubro, logo após a derrota do Corinthians para o CSA, por 2 a 1, Carille não apareceu para dar entrevista como costumava fazer após as partidas. O cartola foi quem conversou com os jornalistas. Questionado sobre a ausência do técnico naquele momento, Sanchez disse: "Não sei, pergunta para ele [por que ele não quis dar entrevista]."

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