Queda do Muro de Berlim expôs fraqueza do leste alemão no futebol

Clubes do regime socialista nunca foram protagonistas no país após a unificação

São Paulo

Há uma anedota na Alemanha que conta a história de um repórter que certa vez perguntou a um técnico de um time oriental por que não havia jogadores altos em clubes de futebol do leste. Porque eles são todos remadores, respondeu o treinador.

O exemplo ilustra como o futebol estava em segundo plano na antiga República Democrática Alemã, que preferiu o caminho dos esportes olímpicos como forma de afirmar sua identidade nacional.

Trinta anos após a queda do Muro de Berlim, cujo aniversário é celebrado neste sábado (9), o futebol alemão escancara a disparidade entre os clubes do oeste, grande maioria na Bundesliga, e os clubes do leste, que nessas três décadas apresentam dificuldade de se consolidar na elite nacional.

Hertha Berlin e Union Berlin, clubes da parte ocidental e oriental da capital, respectivamente, se enfrentaram pela primeira vez na Bundesliga no último sábado (2)
Hertha Berlin e Union Berlin, clubes da parte ocidental e oriental da capital, respectivamente, se enfrentaram pela primeira vez na Bundesliga no último sábado (2) - Tobias Schwarz/AFP

Com duas equipes com sede no leste da Alemanha, o Campeonato Alemão repete nesta temporada o que só aconteceu outras cinco vezes desde a queda do muro.

Mas entre Union Berlin e RB Leipzig, apenas o primeiro viveu o socialismo enquanto o segundo carrega consigo a marca de uma das mais bem sucedidas empresas do capitalismo moderno, a Red Bull, companhia austríaca de bebidas energéticas.

“A única coisa que o RB Leipzig tem em comum com o Lokomotive Leipzig ou com o antigo VfB Leipzig é o nome da cidade. A Red Bull não comprou nem o Lokomotive nem o VfB que, por sinal, nem existe mais”, conta o alemão Gerd Wenzel, jornalista dos canais ESPN e do Deutsche Welle.

O clube foi fundado em 2009 e teve ascensão rápida patrocinada pela empresa. Na temporada 2016/2017, sua estreia na elite nacional, chegou a liderar a competição por algumas rodadas e terminou como vice-campeão, atrás apenas do Bayern de Munique.

Já o Union Berlin, fundado em 1966, estreou na primeira divisão este ano. Dos seis clássicos de Berlim locais disputados contra o Hertha na história, são três vitórias para os orientais e dois empates.

“Talvez a maior diferença entre os dois é que, enquanto o Hertha é um clube mais tradicional, o Union faz do engajamento social uma de suas principais marcas”, completa Wenzel.

Desde sua unificação, o Campeonato Alemão mostrou a força do oeste. Após a queda do muro, foi realizada uma última edição da Oberliga, a liga oriental, na qual foi decidido que os dois primeiros colocados entrariam na primeira divisão, os seis seguintes na segunda e o restante iria para ligas regionais.

Nesta edição final do campeonato oriental, participaram clubes como o FC Sachsen Leipzig, que já não existe mais, assim como o Eisenhüttenstädter FC Stahl, dissolvido em 2016. Outra equipe que esteve na última Oberliga da história foi o Magdeburg, atualmente na terceira divisão e único clube do leste a conquistar um título europeu –a Recopa de 1973/1974, vencendo o Milan (ITA) na final.

A disparidade econômica, que perdura até hoje entre as regiões, o colapso do sistema de patrocínio estatal ao esporte e a falta de preparo dos socialistas para o futebol capitalista foram fatais para o leste.

Some-se a isso a quebra de empresas locais e a dificuldade de atrair patrocinadores do oeste (que não queriam ver sua marca associada aos resquícios do antigo regime) e o resultado foi uma crise financeira nos clubes, que viram um êxodo de seus jogadores.

“No futebol, como em outras áreas, a unificação foi mais uma anexação que um acordo igualitário”, explica Alan McDougall, professor de história na Universidade de Guelph, no Canadá, e autor do livro “The People’s Game: football, State and Society in East Germany” (O Jogo do Povo: futebol, Estado e Sociedade na Alemanha Oriental, em inglês).

O Hansa Rostock pode ser considerado o caso de maior sucesso oriental na Bundesliga, com 11 aparições na primeira divisão, sendo 10 seguidas (entre 1995 e 2005) e uma no primeiro ano do torneio unificado. Foi sexto colocado nas temporadas 1995-96 e 1997-98.

Sustentado por patrocinadores locais, a equipe conseguiu manter um bom trabalho nas categorias de base, o que salvou o clube, campeão alemão sub-19 pela última vez em 2010.

O insucesso dos clubes de futebol da antiga Alemanha Oriental, no entanto, não pode se resumir à questão econômica. Para o estado socialista, mais valia investir em esportes olímpicos que no mais popular jogo do planeta.

“Os esportes olímpicos se tornaram, junto com o Muro de Berlim e a Stasi [polícia secreta do país], uma das identidades da Alemanha Oriental”, conta McDougall.

A relação da Stasi com o futebol, inclusive, pode explicar a sequência de dez títulos consecutivos do Berliner FC Dynamo, clube patrocinado pela polícia secreta, da Oberliga.

Segundo McDougall, historiadores nunca encontraram uma evidência concreta da participação da Stasi, mas ele diz que a equipe criou uma imagem antipática com os torcedores de outros times por suposto favorecimento dos árbitros.

“A reclamação mais comum era a de que o Berliner Dynamo corrompia os árbitros, que favoreciam o clube. Eu argumento no livro que a campanha anti-Berliner Dynamo foi o maior ‘movimento de protesto’ na Alemanha Oriental na década de 1980, maior que o contra a Igreja e que o ativismo ambiental”, analisa.

Socialismo e capitalismo chegaram a se enfrentar dentro de campo em uma Copa do Mundo. Foi em 1974, quando o torneio aconteceu justamente no país. A partida aconteceu no Volksparkstadion, em Hamburgo.

O favoritismo estava do lado ocidental do muro, mas quem venceu foi o lado oriental, por 1 a 0, gol do meia Jürgen Sparwasser. O triunfo rendeu aos socialistas o primeiro lugar do Grupo 1, ultrapassando os adversários.

Contudo, na fase seguinte, a Alemanha Oriental acabou eliminada em um grupo que tinha Brasil, Argentina e a Holanda de Cruyff, que fez a final justamente contra a Alemanha Ocidental.

“[Os alemães socialistas] ficaram felizes que a Oriental venceu [a partida], mas ficaram igualmente felizes que a Ocidental venceu a final contra a Holanda. A partida do ‘nós contra nós’ [como ficou apelidado o duelo] mostra algumas das complexidades da identidade nacional da Alemanha”, conta Alan McDougall.

Sparwasser chuta para marcar o gol da vitória dos alemães orientais sobre a Alemanha Ocidental no Mundial de 1974
Sparwasser chuta para marcar o gol da vitória dos alemães orientais sobre a Alemanha Ocidental no Mundial de 1974 - Reprodução

A soberania do oeste sobre o leste pós-queda do Muro de Berlim fica clara também quando olhamos para a seleção alemã atual.

O time campeão do mundo no Maracanã em 2014 tinha apenas um jogador nascido na parte oriental do país. Foi Toni Kroos, meia do Real Madrid (ESP), também único representante da região nas últimas três Copas.

Esse número já foi maior. No Mundial de 2006, que aconteceu na Alemanha, foram quatro, inclusive o capitão Michael Ballack. Na de 2002, foram sete.

“A população da região leste é de aproximadamente 13 milhões de habitantes e representa 15% de toda população alemã. Se for aplicado esse critério percentual ao elenco de 23 jogadores da seleção, chega-se facilmente à conclusão de que o lado oriental está sub representado”, pontua Wenzel.

O jornalista diz ser difícil explicar o desaparecimento recente de bons jogadores vindos da região então socialista. Ele cita Berti Vogts, técnico campeão do mundo em 1974 e que disse em uma ocasião não ter “a mínima ideia de por que não surgem jogadores selecionáveis nessa parte [do país]”.

Mesmo o RB Leipzig, criado na parte da Alemanha Oriental, tem apenas 2 dos 32 atletas de seu elenco nascidos na parte leste.

“Talvez a ascensão do Union Berlin na Bundesliga possa ajudar a mudar um pouco essa história, mas os polos principais do futebol alemão seguirão no oeste”, finaliza McDougall.

Potência olímpica, Alemanha Oriental escondeu doping

A República Democrática Alemã disputou cinco Olimpíadas entre 1968 e 1988. Nesse período, só não participou dos Jogos de Los Angeles, em 1984, pois se juntou ao boicote do bloco comunista, uma resposta de boicote anterior liderado pelos Estados Unidos à edição de 1980, em Moscou.

Com grande investimento nas diversas modalidades, os alemães do leste conseguiram resultados expressivos. Na Olimpíada de Montreal, em 1976, foram 90 medalhas no total, terminando o evento na segunda colocação. Pelo critério de classificação olímpica, cujo ordenamento é definido pelas medalhas de ouro conquistas, ficou à frente dos Estados Unidos (40 ouros contra 34), e atrás apenas da então União Soviética (que somou 49 ouros).

Em Moscou, sem a potência norte-americana, faturou 126 medalhas, também terminando no segundo lugar. Somando todas as participações do país, a Alemanha Oriental subiu ao pódio 384 vezes.

O período ficou marcado por casos de doping que seriam revelados após a queda do Muro de Berlim, em 1989, com atletas relatando a ingestão de substâncias que, no futuro, lhes causariam problemas.

O caso mais emblemático é o de Andreas Krieger, que disputou os Jogos Olímpicos como atleta do arremesso de peso. Na época, antes da cirurgia da troca de sexo, ele se chamava Heidi, e consumia diariamente pílulas azuis fornecidas pela estatal que controlava a indústria farmacêutica, a Jenapharm, achando que se tratavam de vitaminas. Eram, na verdade, esteróides anabólicos, utilizados para aumentar força e potência dos músculos.

Em 1997, numa entrevista à Folha, Krieger disse que precisava fazer a barba três vezes por dia como consequência dos vários anos ingerindo a substância.

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