Votação no COB tem vitória de atletas e racha entre dirigentes

Proposta de mudanças no estatuto antecipa até debate sobre eleição no comitê

São Paulo

Uma assembleia geral extraordinária do Comitê Olímpico do Brasil (COB), realizada nesta quinta-feira (28) com o objetivo de alterar cerca de 50 pontos do estatuto da entidade, terminou com vitória da comissão de atletas, que conseguiu barrar a principal proposta que a afetaria.

O novo documento previa que os atletas perdessem 1 dos 2 assentos que possuem no conselho de administração do COB, mas essa possibilidade foi barrada na votação desta quinta. O objetivo alcançado pelo comitê foi o de cortar o número total de participantes do conselho, antes formado por 17 membros e que passará a ter 13.

Com os dois lugares mantidos, os atletas viram sua representatividade crescer proporcionalmente.

No fim de 2017, os atletas tiveram sua participação ampliada de 1 para 12 membros votantes no colégio eleitoral do COB. No ano que vem, esse número passará para 19, respeitando a determinação de um terço no universo de integrantes com direito a voto na entidade (56, se considerados os 35 presidentes de confederações e os dois representantes brasileiros do Comitê Olímpico Internacional).

Paulo Wanderley, presidente do COB, disse não ver derrota política do comitê na assembleia
Paulo Wanderley, presidente do COB, disse não ver derrota política do comitê na assembleia - Ana Patrícia - 13.abr.19/Exemplus/COB

A ex-saltadora Fabiana Murer, presente na assembleia, afirmou que o clima no início do encontro foi tenso, pelo pouco tempo de análise das propostas.

O documento com as mudanças havia sido aprovado pelo conselho de administração na quarta. O COB admite que o prazo foi apertado, mas nega que tenha havido falta de transparência na comunicação da data da reunião.

Inicialmente, houve quem quisesse adiar o encontro para outra data, mas acabou-se decidindo por debater ponto a ponto antes de cada votação, o que, na opinião de Murer, funcionou.

“Hoje em dia, os atletas têm condições de participar, a gente quer participar e podemos contribuir bastante”, afirmou. Ela cobra que os atletas ocupem os espaços criados para eles. “Também nos preocupamos em colocar suplentes, para quando estivermos em competição."

Para Ana Moser, membro da diretoria da ONG Atletas pelo Brasil, os esportistas, enquanto grupo, saem fortalecidos dessa assembleia. “[O embate] é do jogo. Eu acho que é uma medição de forças. Colocam-se na mesa as forças de um lado e do outro, mas não creio que haja nenhum tipo de ruptura”, disse, comemorando o "barulho" feito nas redes sociais ao longo do dia.

Outros pontos propostos pelo COB e que enfraqueceriam o conselho de ética da entidade, criado em 2018 após o abalo de imagem causado pelas denúncias relativas à gestão de Carlos Arthur Nuzman, também foram rejeitados.

Pela vontade da diretoria, seriam retirados da alçada desse conselho o comitê de conformidade e a figura do gerente de compliance, responsável por apurar denúncias e processos relativos ao funcionamento do COB.

"Os órgãos e atribuições permaneceriam. Por questões de afinidade, pensamos que essas questões deveriam estar ligadas ao conselho de administração, mas o conselho de ética continuaria cumprindo seu papel de zelar pela integridade dos processos", afirmou Paulo Wanderley, presidente do COB, que negou ver o resultado da assembleia como uma derrota política.

"De jeito nenhum. Estou aqui para acatar o que a assembleia decide. Ela é o poder maior do COB. Não foi derrota, foi o exercício da democracia", disse.

Antes da votação, o presidente do conselho de ética, o advogado Alberto Murray Neto, criticou as propostas de Wanderley. 

"Se esse estatuto do COB for aprovado, as consequências nacionais e internacionais da imagem do Movimento Olímpico serão nefastas. Não passei dez anos da minha vida brigando contra o sistema para ver isso agora. Confiamos nas novas confederações e nos atletas", afirmou, sugerindo que poderia levar o assunto para apreciação do Comitê Olímpico Internacional.

Em resposta, Wanderley questionou o papel do presidente do conselho: "Ele tem independência para falar o o que quiser, não deve obediência a mim ou a ninguém, só não sei se é ético o pronunciamento dele. Como seria o meu julgamento nesse conselho de ética, por exemplo, seria exercendo a isenção?".

Procurado para comentar esse ponto, Murray disse que não bateria boca com ninguém e que a assembleia geral deu a sua resposta.

Durante o encontro, Wanderley, que era vice-presidente na gestão Nuzman e assumiu o comando do COB após a prisão do ex-dirigente, em outubro de 2017, acusado de compra de votos para a escolha do Rio como sede dos Jogos de 2016, convocou a próxima eleição à presidência do comitê para 25 de novembro de 2020.

Ele não quis antecipar se concorrerá à reeleição, mas disse estar "aberto à concorrência".

Sami Arap Sobrinho, ex-presidente da Confederação Brasileira de Rugby e membro do conselho de ética, manifestou seu desejo de concorrer como "candidato independente, nem de situação nem de oposição".

"Não farei campanha, posto ser desnecessário numa entidade privada como o COB. Se e quando necessário, falarei com os membros do colégio eleitoral", ele afirmou nesta sexta.

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