Descrição de chapéu Bola de Chumbo

Disputa por vaga na Copa de 70 terminou em guerra na América Central

El Salvador e Honduras entraram em conflito pouco antes do Mundial de 1970

São Paulo

O relógio marcava quase 5h quando Odir Jacques acordou com o barulho de aviões. Pouco depois, ouviu um estrondo. Algo havia caído próximo a sua casa, na cidade de Santa Ana, a cerca de 53 quilômetros de San Salvador, capital de El Salvador.

No rádio, a confirmação de uma notícia nada boa para o atacante brasileiro, que atuava pelo Alianza Fútbol Club. Naquele 14 de julho de 1969, o país em que vivia entrava em guerra com a vizinha Honduras, num confronto que tiraria a vida de mais de duas mil pessoas e que ficaria conhecido como Guerra do Futebol.

Reprodução da capa de Esportes do jornal El Sol de México, com foto do gol de "Pipo" Rodríguez para dar a vitória a El Salvador contra Honduras no terceiro jogo da repescagem
Reprodução da capa de Esportes do jornal El Sol de México, com foto do gol de "Pipo" Rodríguez para dar a vitória a El Salvador contra Honduras no terceiro jogo da repescagem - Reprodução/El Sol de México

O conflito bélico entre as duas nações da América Central ganhou este nome em decorrência de graves incidentes que marcaram a série de três partidas entre suas seleções por uma vaga na Copa do Mundo de 1970, no México.

A história dos confrontos na bola e no campo de batalha entre salvadorenhos e hondurenhos é tema do quarto episódio do podcast Bola de Chumbo, que a Folha publica nesta sexta-feira (6).

 

“A força aérea hondurenha invadiu o território salvadorenho e soltou duas bombas da Segunda Guerra Mundial. Graças a Deus, para sorte de toda a população da cidade, não houve nenhuma consequência”, conta Odir, 73, à Folha. Os artefatos não explodiram, possivelmente, por serem muito antigos.

Revelado pelo Bangu, ele vive na Costa Rica, onde conquistou títulos como jogador, técnico e dirigente. Odir chegou a comandar a seleção costa-riquenha nas eliminatórias para a Copa do Mundo de 1986, no México.

Na época, El Salvador e Honduras viviam o auge de uma crise diplomática, segundo Maurício Drumond, historiador, professor e pesquisador do Laboratório de História do Esporte da Universidade Federal do Rio de Janeiro.

“A Guerra do Futebol ou Guerra das 100 Horas, como fica conhecida na historiografia local, é causada por atritos e tensões de ordem econômica, política e migratória muito mais do que por questões desportivas. El Salvador e Honduras são oriundos do vice-reino da Nova Espanha, uma colônia espanhola da região que consegue sua independência no século 19, e desde então têm tensões relacionadas à delimitação de fronteiras”, conta Drumond.

De acordo com o historiador, o fato de Honduras ter um território cinco vezes maior que El Salvador (100 mil km²) e ter uma população menor (2,5 milhões contra 3,5 no auge da crise, em 1969) fez com que muitos salvadorenhos iniciassem um movimento migratório para o país vizinho, a partir de 1930, em busca de trabalho e terras.

Na época da guerra, o número aproximado de salvadorenhos em Honduras era de 300 mil, o que representava mais de 10% da população do país.

É no auge dessa questão migratória que a seleção de El Salvador viaja para Tegucigalpa, capital e maior cidade de Honduras, para enfrentar a seleção local, no dia 8 de junho de 1969. Havia apenas uma vaga em disputa para América Central e América do Norte, já que a outra estava garantida pelo México, sede da Copa do Mundo de 1970.

Mas vencer os hondurenhos não seria fácil. As dificuldades começaram já na noite anterior ao jogo. Torcedores rivais fizeram um apitaço, bateram tambores, soltaram fogos e atiraram pedras nas janelas do hotel onde a equipe rival estava hospedada.

No dia seguinte, em campo, os salvadorenhos viram José Cardona, jogador do Atlético de Madrid (ESP), marcar o gol da vitória dos donos da casa por 1 a 0. Durante a partida, vários incidentes aconteceram nas arquibancadas. Torcedores da seleção de El Salvador foram agredidos pelos hondurenhos.

O jogo da volta estava marcado para uma semana depois, no dia 15 de junho de 1969. Os acontecimentos em torno da primeira partida foram usados pelos dois governos e pela imprensa dos dois países para acirrar ainda mais os ânimos.

A seleção de Honduras foi recebida com muita hostilidade pelos salvadorenhos em San Salvador. Fogos, pedras e até ratos mortos foram atirados nas janelas do hotel, em represália aos acontecimentos anteriores.

O clima estava tão ruim, com brigas entre salvadorenhos e hondurenhos em algumas áreas da cidade, que os jogadores da seleção de Honduras tiveram que ser levados ao estádio em carros blindados do Exército de El Salvador.

Em campo, em meio ao cenário bélico, El Salvador venceu os visitantes por 3 a 0. A vitória abriu a necessidade de uma terceira e última partida entre as duas seleções. Nas ruas, o saldo foi de dois mortos, dezenas de feridos e muitos carros destruídos. 

No mesmo dia, após os ataques, a fronteira entre as duas nações foi fechada. Não havia mais clima para as seleções jogarem em qualquer um dos dois países.

Com relações diplomáticas entre El Salvador e Honduras rompidas e o risco de mais violência e mortes, a terceira partida foi marcada para o Estádio Azteca, no México, no dia 27 de junho de 1969, após sugestão da Federação Mexicana de Futebol e aval da Concacaf.

No campo, os salvadorenhos levaram a melhor sobre Honduras, como conta à Folha Salvador Mariona, ex-zagueiro e capitão daquela seleção de El Salvador.

“No Azteca ganhamos deles por 3 a 2. Foi um jogo que, como podemos ver em fotos, há jogadores hondurenhos no chão, chorando. Sem dúvidas isso teria passado conosco se tivéssemos perdido. Mas nós tivemos a sorte de ganhar essa partida.”

Livro "A guerra do Futebol", do jornalista e escritor polonês Ryszard Kapuscinski
Livro "A guerra do Futebol", do jornalista e escritor polonês Ryszard Kapuscinski - Reprodução

A classificação acabou ficando em segundo plano, já que semanas depois explodiu a guerra entre os dois países.

O conflito bélico chegou ao fim quatro dias depois de seu início, após interferência da Organização dos Estados Americanos, quando uma trégua foi decretada. Mas o tratado de paz entre as duas nações ainda levou uma década para ser assinado.

Com a vitória em campo, El Salvador se classificou, venceu depois o Haiti, que havia derrotado os EUA na outra chave da repescagem, e garantiu vaga na Copa de 1970. Pela primeira vez, o menor país da América Central disputaria o Mundial.

“Essa guerra faz nós pensarmos um pouco no papel desempenhado pelo futebol na exacerbação das relações entre esses dois países, apesar de ele não ter sido o elemento causador. Podemos entender, sim, a Guerra do Futebol como uma demonstração da força simbólica que esse esporte tem, a força de representação nacional”, completa Maurício Drumond.

A história dos confrontos entre hondurenhos e salvadorenhos dá nome, inclusive, a um livro do jornalista e escritor polonês Ryszard Kapuscinski, "The Football War" (A guerra do futebol, em inglês).

Porém, o relato de Kapuscinski, considerado um dos grandes correspondentes de guerra da história do jornalismo, apresenta uma série de imprecisões e fios soltos. Como o do suposto suicídio de uma menina salvadorenha chamada Amelia Bolaños, que teria se matado com um tiro no coração após a derrota de El Salvador no primeiro jogo.

O fato, descrito por Kapuscinski como um catalisador da animosidade já existente entre os povos, também teria sido noticiado pelo jornal "El Nacional", cuja existência nunca foi comprovada.

"Uma vez me perguntaram se era verdade que uma pessoa havia falecido. E que depois nós fomos ao enterro. Mentira! Nunca fomos a um enterro. É totalmente falso. Os políticos superdimensionaram [esses jogos] e os uniram ao futebol. Eu era o capitão e asseguro que foi assim", completa Salvador Mariona.

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