Descrição de chapéu The Wall Street Journal

Em 2019, mulheres lutaram por pagamento justo nos esportes

Simone Biles e a seleção de futebol dos EUA exigiram contratos melhores

Rachel Bachman
Nova York | The Wall Street Journal

Antes de 2019, a cena teria sido difícil de imaginar: torcedores em um grande torneio esportivo, muitos dos quais haviam desembolsado centenas de dólares por seus ingressos, gritando em protesto contra a baixa remuneração das atletas.

Isso, no entanto, aconteceu na final da Copa do Mundo de futebol feminino, em Lyon, França. A torcida da vitoriosa seleção dos Estados Unidos repetiu o grito de guerra “salário igual!” Era uma mensagem à federação de futebol americana, no sentido de que a torcida apoiava o processo aberto pelas jogadoras por discriminação de gênero, uma acusação que a federação nega.

Naquele dia, os torcedores decidiram seguir o exemplo das jogadoras e treinadoras que, em 2019, deixaram de lado a diplomacia do esperar para ver, exerceram sua influência e insistiram naquilo que julgavam merecer.

Simone Biles durante o Mundial de Ginástica Artística em Stuttgart, Alemanha - Ricardo Bufolin - 8.out.2019/Panamerica Press/CBG

Muffet McGraw, treinadora da equipe feminina de basquete da Universidade Notre Dame, concedeu uma entrevista que ganhou circulação viral durante as semifinais do torneio da NCAA, a associação de esporte universitário dos Estados Unidos, atacando a desigualdade de gênero e explicando por que só contratava mulheres para sua comissão técnica. “Quando você observa o basquete masculino, vê que 99% dos empregos são destinados aos homens; assim, por que 100% ou 99% dos empregos nas comissões técnicas do basquete feminino não deveriam ir para as mulheres?”, questionou.

A atacante Megan Rapinoe, com seus cabelos cor-de-rosa, se tornou a jogadora símbolo da seleção dos Estados Unidos, tanto em campo, onde ela ganhou os dois principais prêmios da Copa do Mundo feminina, quanto fora dele, quando ela e suas colegas de time exigiram pagamento e tratamento iguais à equipe feminina, quatro vezes campeã mundial. A Copa do Mundo feminina atraiu mais de um bilhão de espectadores em todo o mundo, e a camisa da seleção americana bateu um recorde histórico de vendas no site da Nike durante a temporada, entre os uniformes femininos e masculinos igualmente.

Em maio, mais de 200 jogadoras anunciaram que ficariam de fora da temporada 2019-2020 da National Women’s Hockey League (NWHL), em busca de melhores salários e benefícios. O grupo de atletas grevistas saiu em excursão e obteve patrocínios da Dunkin’, da fabricante de material esportivo Bauer e da Budweiser, além de assistência financeira da lenda do tênis Billie Jean King. Depois disso, os salários da NWHL foram reajustados, e as jogadoras agora recebem 50% do dinheiro que a liga ganha com patrocínios, informou um porta-voz da NWHL.

A ginasta campeã mundial Simone Biles disse que lançaria uma turnê nacional depois da Olimpíada de Tóquio em 2020, na companhia de outros grandes nomes do esporte, entre os quais Katelyn Ohashi, estrela da ginástica universitária. Ao fazê-lo, Biles rompeu o controle da federação USA Gymnastics sobre a tour dos campeões, um torneio lucrativo que a federação nacional costumava organizar com os atletas medalhistas depois de Olimpíadas passadas.

Oito estrelas do basquete feminino decidiram que a diária de US$ 150 ao dia (R$ 607,50), paga às atletas pela USA Basketball quando da conquista da oitava medalha de ouro olímpica pela seleção feminina de basquete dos Estados Unidos, na Olimpíada do Rio de Janeiro em 2016, era insuficiente. As jogadoras conseguiram um contrato que pagará cerca de US$ 100 mil (R$ 405 mil) a cada integrante da seleção que participar do treinamento para a Olimpíada do ano que vem.

As jogadoras da WNBA, a liga de basquete feminino profissional dos Estados Unidos, passaram o ano negociando, depois de optarem por encerrar seu contrato coletivo de trabalho com a organização no final de 2018, em busca de um acordo melhor. Embora a liga conte com os maiores talentos do basquete feminino mundial, as melhores jogadoras podem ganhar até dez vezes mais que o salário básico da WNBA para 2019, US$ 117,5 mil anuais (R$ 475 mil), caso optem por jogar na Rússia ou na China.

As jogadoras da WNBA, que na quinta-feira anunciaram em comunicado conjunto com a liga que estão perto de fechar um novo contrato coletivo, querem basicamente o mesmo investimento que ligas masculinas em estágio inicial costumam oferecer. A WNBA e outras ligas femininas enfrentavam um desafio: mulheres que buscam aumentos ou promoções costumam ser descritas como intimidadoras ou agressivas, comparadas a mulheres que não negociam e a homens que o fazem, de acordo com um estudo conduzido pela LeanIn.org e pela consultoria McKinsey.

A despeito dos riscos, as vozes das atletas se fizeram ouvir neste ano. As corredoras Alysia Montaño e Kara Goucher falaram sobre a ameaça de uma redução dos pagamentos que recebiam da Nike depois que engravidaram, e a companhia anunciou que alteraria seus contratos de forma a proteger a remuneração das atletas. O depoimento de Goucher e outras atletas resultou em uma suspensão de quatro anos do famoso treinador de atletismo Alberto Salazar por promoção de doping e no fechamento do prestigioso Programa Oregon de Atletismo da Nike. Salazar está recorrendo da punição.

Biles, a única atleta que se identificou como vítima de abuso sexual por Larry Nassar, antigo médico da equipe de ginástica dos Estados Unidos e que continua a competir na elite do esporte, usou sua posição para criticar a USA Gymnastics e o Comitê Olímpico e Paraolímpico dos Estados Unidos por não terem protegido as atletas.

“A sensação, definitivamente, é de que houve avanço e que isso está ganhando força e estamos vendo mais e mais atletas e treinadoras se pronunciando sobre inúmeras questões”, disse Sarah Axelson, diretora sênior de campanhas da Fundação para o Esporte Feminino.

O esporte feminino continua muito atrás do masculino em quase todos os indicadores —da estatura e receita de suas ligas profissionais, muito mais recentes, aos salários e patrocínios, passando pela cobertura recebida da mídia. Uma tendência de longo prazo curiosa é que, enquanto a participação no esporte feminino aumentou ao longo do tempo, o número de mulheres em posições de liderança no esporte escolar e universitário caiu. Um relatório inédito da Fundação para o Esporte Feminino sobre a igualdade de gênero no esporte define a tendência como “um paradoxo duradouro”.

Nas competições, houve alguns sinais de progresso em 2019. A esquiadora alpina Mikaela Shiffrin teve o maior faturamento em seu esporte pelo terceiro ano consecutivo, e Des Linden concordou em ser a peça central da presença americana na Maratona de Boston em 2020.

O ímpeto das mulheres no esporte parece destinado a ser mantido em 2020. A rede de TV americana NBC planeja dedicar mais da metade de seu tempo de cobertura da equipe olímpica americana às mulheres, disse um executivo da rede em dezembro. Os destaques, caso se qualifiquem, devem ser Biles, a nadadora Kate Ledecky e estrelas do atletismo como Allyson Felix.

A presidente do Comitê Olímpico e Paraolímpico dos Estados Unidos, Sarah Hirshland, e a vice-presidente de produção da NBC encarregada da cobertura dos jogos, Molly Solomon, são ambas mulheres. Isso jamais havia acontecido até 2019.

Tradução de Paulo Migliacci

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