Entre rompantes e protesto, Italo quer levar Nordeste ao topo do surfe

Atleta de Baía Formosa (RN) chega à última etapa na liderança da Liga Mundial

São Paulo

Após ter vencido a etapa portuguesa da Liga Mundial de Surfe (WSL), em outubro, o potiguar Italo Ferreira disse que prestaria uma homenagem aos nordestinos na cerimônia de premiação. Ele amarrou à sua prancha uma faixa preta, em protesto contra o vazamento de óleo que atingiu o litoral da região nos últimos meses.

“Fiquei muito abalado com o tamanho disso para a vida marinha. A natureza sofreu, pessoas foram afetadas, o turismo caiu… Eu tive que me posicionar de alguma maneira e achei ideal aquele momento em que o mundo estava me olhando”, afirmou à Folha o surfista de 25 anos.

A vitória em Peniche o levou à liderança do ranking e o fez chegar à etapa do Havaí, com início neste domingo (8), dependendo apenas do próprio resultado para conquistar o título da WSL pela primeira vez.

Ele pode se tornar o terceiro brasileiro a alcançar esse feito, depois de Gabriel Medina (2014 e 2018) e Adriano de Souza (2015), o Mineirinho. Seus concorrentes em Pipeline serão os compatriotas Medina e Filipe Toledo, além do sul-africano Jordy Smith e do americano Kolohe Andino.

Perto de fazer história, Italo sabe que possui voz ativa no meio esportivo, mas considera difícil se manifestar sobre questões políticas e sociais do país. “Na maioria das vezes, eu me sinto no abismo por não poder me posicionar, por medo do que vão achar, criticar, ou até dizer que estou do lado de fulano. As pessoas julgam por tão pouco. Estou ali nas mídias sociais só tentando de alguma maneira ajudar”, disse.

No caso do óleo, o tema era sensível e pessoal demais para que ele se calasse. Filho de um vendedor de peixe que emprestava ao filho uma tampa de isopor para pegar onda quando criança, o potiguar até hoje se mostra muito identificado com suas raízes na pequena Baía Formosa (RN).

“Sem dúvidas eu me orgulho demais. Não sou o primeiro da minha região, mas acredito que já fiz bastante pela minha terra. Estou em constante evolução e devo colocar o nosso povo nordestino no topo em breve”, declarou.

A cidade de cerca de 9.000 habitantes, localizada a pouco menos de 100 km de Natal, é considerada um celeiro para o surgimento de surfistas, tanto pelas suas praias com diferentes níveis de ondas quanto por não oferecer uma vida noturna agitada, que tire o foco do que acontece no mar.

Cinco anos mais velho que Italo, Alan Jhones, ex-integrante do circuito mundial de surfe e hoje vereador em Baía Formosa, era quem ficava responsável por administrar o dinheiro nas viagens que a dupla fazia durante a juventude para participar de eventos regionais. A rápida ascensão do amigo não o surpreendeu.

Italo Ferreira caminha na praia de Pipeline, onde será disputada a última etapa do Mundial
Italo Ferreira caminha em Pipeline, onde será disputada a última etapa do Mundial - Brian Bielmann - 27.nov.19/AFP

“Ele sempre treinou muito e não estava na pegada de acompanhar os amigos em balada. Mesmo quando não tinha onda, estava na praia de skimboard [prancha menor e sem quilha para praticar uma mistura entre skate e surfe] fazendo manobra e inventando outras coisas”, conta Jhones.

Italo mudou-se ainda adolescente para o litoral de São Paulo e hoje passa a maior parte do tempo viajando, mas sempre volta para Baía Formosa após as etapas da WSL. Seu amor pela cidade onde recarrega as energias e come a moqueca feita pela mãe foi tatuado no braço na forma de um mapa.

O atleta tem várias tatuagens espalhadas pelo corpo. A primeira, feita quando já havia saído de casa, leva os nomes dos pais. Segundo sua irmã, Polly, uma maneira de amenizar o desgosto da mãe pelos desenhos. “Escolheu essa para agradar e diminuir o impacto. Ele nem contou diretamente, mandou um primo nosso avisar que tinha feito”, relembra.

Italo e a família são evangélicos, e o surfista costuma mencionar Deus ao falar sobre suas conquistas e dificuldades no esporte. Nos últimos anos, as primeiras têm prevalecido.

Após uma chegada explosiva à elite, em 2015, quando foi eleito o calouro do ano e terminou na sétima posição, ficou em 15º e 22º lugares nos anos seguintes. Em 2017, perdeu três etapas por lesão. Já o ano passado foi de guinada para o brasileiro, que venceu três etapas e brigou pelo título, terminando a temporada na quarta colocação.

Após sua primeira conquista, em Bells Beach, na Austrália, uma cena chamou a atenção dos presentes. Italo entrou em um banheiro químico instalado na praia e começou a bater nas paredes. Quem estava do lado de fora podia ouvir o misto de gritos, risadas e choro que vinha lá de dentro: “Eu consegui, eu consegui! Obrigado, senhor!”.

Ao sair, diante do espanto dos demais, explicou: “estava conversando comigo mesmo”.

Segundo Polly e Alan, o surfista costuma ser fechado em seus pensamentos e por isso surpreende quando se solta. “A vida dele é acompanhada por muita gente, então ele tem que se resguardar de muita coisa. Aí às vezes extravasa, bota a cabeça no vaso e dá uns gritos”, relata o amigo entre risos.

Nesses rompantes, não é raro ver Italo soltar palavrões direcionados aos juízes ou a esmo. Ele é sincero ao admitir que existe muita rivalidade no circuito, mesmo entre os brasileiros, e que dentro da água o clima é de “um querendo comer a cabeça do outro”, como contou no programa Conversa com Bial.

Neste ano, antes de assumir a liderança da WSL, Italo passou por uma situação peculiar. Em setembro, durante a disputa dos Jogos Mundiais de Surfe, no Japão, cuja participação era requisito para estar na Olimpíada de Tóquio-2020, o brasileiro chegou à praia de Kisakihama quando a sua bateria de estreia já havia começado.

Quatro dias antes, o passaporte dele havia sido furtado nos EUA. O atraso foi causado pelos trâmites para conseguir um novo documento e também pelo tufão que adiou seu voo ao país asiático. Quando finalmente chegou à cidade-sede da competição, que felizmente atrasou em uma hora, o atleta precisou largar as malas e correr para a praia.

Pegou a prancha emprestada de Filipe Toledo, vestiu a lycra e se lançou ao mar com a bermuda jeans que estava vestindo, a oito minutos do fim da bateria. O potiguar não só venceu aquela disputa como dias depois sagrou-se campeão do evento.

Como o inusitado não o abandona, durante a última semana, na preparação para a etapa do Havaí, ele viu a própria prancha acertar seu rosto durante uma manobra, causando um ferimento na boca.

“Kook of the session” (“prego da sessão", usando uma gíria para surfistas pouco capacitados), escreveu nas redes sociais aquele que nos próximos dias pode ser campeão mundial.

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