Ídolo do Liverpool elogia Brasil, mas só conhece 'europeus' do Fla

Michael Owen diz que a produção de bons jogadores brasileiros é 'quase genética'

Doha

Michael Owen, 40, faz expressão de incredulidade quando perguntado se o futebol brasileiro não produz tantos jogadores de alto nível quanto no passado. Ele parece não acreditar na questão.

“Vocês [brasileiros] são os únicos que acham isso. Se amanhã começasse uma Copa do Mundo, o Brasil seria o maior favorito ou um dos principais favoritos. O Brasil sempre vai produzir grandes jogadores. É algo quase genético”, afirma à Folha.

Convidado pela Fifa para o Mundial de Clubes por fazer parte do programa “Legends” da entidade, ele passou dois dias em Doha, no Qatar, mas teve de voltar à Inglaterra. Sua principal atividade hoje em dia não é mais fazer gols.

Michael Owen comemora gol pelo Liverpool diante do Leeds United, em 2002
Michael Owen comemora gol pelo Liverpool diante do Leeds United, em 2002 - Paul Barker/AFP

Foram 308 de uma carreira que surgiu como uma explosão, mas acabou atrapalhada por um problema crônico na panturrilha. Ele é comentarista da BT Sport, uma das emissoras do Reino Unido que têm os direitos de transmissão da Premier League.

“Menino maravilha” do Liverpool e metade de uma das duplas de ataque mais memoráveis da história da Premier League, ao lado de Robbie Fowler, Owen está até hoje na cabeça do torcedor de futebol como a revelação de 19 anos que, então desconhecida, fez gol contra a Argentina partindo quase do campo de defesa nas oitavas de final da Copa do Mundo de 1998, na França.

Ele não estará em Doha para ver a final do Mundial de Clubes, onde sua ex-equipe enfrentará o Flamengo neste sábado (21), às 14h30 (de Brasília). Competição que luta, no Reino Unido, com a mesma rejeição que a Copa do Mundo um dia teve. A Inglaterra apenas aceitou participar da competição de seleções organizada pela Fifa em 1950. Owen reconhece que o torneio de clubes não tem em seu país a mesma importância dada na América do Sul.

“Uma nação se importa quanto tem mais envolvimento e sucesso. Talvez não capturou a imaginação das pessoas porque os times do país não tiveram tantas vitórias. Se o Liverpool ganhar, isso pode começar a mudar”, admite, lembrando também que quando ganhou a Bola de Ouro, prêmio dado pela revista France Football ao melhor europeu do ano, em 2001, ninguém na Inglaterra deu muita importância.

“Quando fui para o Real Madrid [em 2004], o prêmio da Bola de Ouro era o único assunto que falavam.”

Ao reconhecer não saber muito sobre o Flamengo, já que os jogos do Campeonato Brasileiro dificilmente são transmitidos no Reino Unido, Owen coloca a diferença de visibilidade entre o futebol europeu e o sul-americano. Mesmo no Qatar, a cobertura da Premier League toma horas de programação dos canais esportivos. O Liverpool conta com a maioria do público em Doha.

No elenco rubro-negro, o ex-atacante de três Copas do Mundo conhece Rafinha e Filipe Luís porque tiveram carreiras importantes no Bayern de Munique (ALE) e Atlético de Madrid (ESP), respectivamente.

Mas também está informado dos problemas que Gabriel (“aquele rapaz”, cita, ao esquecer o nome do camisa 9 flamenguista) teve na Europa. Em duas temporadas por Internazionale (ITA) e Benfica (POR) fez dois gols no total. Neste ano, anotou 43 pelo time carioca.

“Não creio que a liga italiana seja a ideal para um atacante jovem como ele era quando foi contratado pela Internazionale [tinha 20 anos]. É um campeonato mais defensivo e tático. Claro que a confiança do jogador sofre um abalo quando acontece algo assim. Se você não está em um time que faz muitos gols, que vive boa fase e se não tem a confiança do técnico, tudo fica muito difícil”.

“Mas ele mostrou que tem muita força mental e qualidade. Porque ninguém sai de um para 43 gols se não for bom. Agora ele está mais maduro e será muito interessante se ele voltar para a Europa para ter sucesso. E eu acho que ele terá”, completa.

Mesmo com poucas informações, ele define a final do Mundial como o confronto do time dominante na Premier League neste ano (o Liverpool tem dez pontos de vantagem na liderança) contra a equipe que controlou o futebol sul-americano em 2019.

O eventual título do Liverpool, motivo de satisfação para o atacante que cresceu no Liverpool (embora tenha sido torcedor do Everton quando criança), não será vingança. Nada vai apagar a maior decepção de sua carreira. Esta foi causada pelo Brasil.

“Antes das quartas de final da Copa de 2002 nós pensamos: se ganharmos este jogo, seremos campeões”, afirma.

Owen bate na saída de Marcos, caído, para abrir o placar a favor dos ingleses no Mundial de 2002
Owen bate na saída de Marcos, caído, para abrir o placar a favor dos ingleses no Mundial de 2002 - Ian Waldie/Reuters

Era a partida contra a seleção de Felipão. Owen fez um gol e a Inglaterra controlava a partida até os acréscimos do primeiro tempo, quando levou o empate. Depois Ronaldinho anotou de falta em que ficou a dúvida se ele chutou ou cruzou. A Inglaterra não conseguiu reagir, mesmo com um jogador a mais em campo. Há duas semanas, os dois se encontraram e o inglês perguntou se o gol de 17 anos atrás foi intencional ou seu querer. O brasileiro apenas riu.

“Eu nunca fiquei tão decepcionado depois de um jogo. Às vezes você não consegue explicar, às vezes o outro time é simplesmente melhor. Aquele jogo, não sei o motivo para jogarmos tão mal no segundo tempo. Não criamos nada. Não conseguimos pegar na bola”, relembra.

Dois anos após a derrota nas quartas de final do Mundial, foi contratado pelo Real Madrid para ser colega de Ronaldo.

“Fomos companheiros quando ele estava no final da carreira e mesmo assim ele era fantástico. Quando ele começou, eu era um garoto em Liverpool e achava que seria jogador de futebol e muito bom. Mas eu via os vídeos do Ronaldo e pensava: se é este o nível que eu tenho de atingir para ser considerado um dos melhores do mundo, será impossível”, finaliza.

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