Insistente, Italo vai do surfe na tampa de isopor ao título mundial

Potiguar conquista WSL ao derrotar Gabriel Medina em confronto direto na final

São Paulo

Em seu quinto ano na elite da Liga Mundial de Surfe (WSL), o potiguar Italo Ferreira, 25, tornou-se o terceiro brasileiro campeão do mundo na modalidade.

O título foi confirmado nesta quinta-feira (19), em uma disputa direta e acirrada contra o compatriota Gabriel Medina na final da etapa de Pipeline, no Havaí, que fecha a lista dos 11 eventos da temporada. Antes, cada um deles havia vencido três baterias no dia.

Na decisão, Italo mostrou força logo nas duas primeiras ondas que pegou, com notas 7,83 e 6,17. Depois, ainda recebeu uma nota 7,73, que o colocou com soma de 15,66. Medina chegou perto, com um total de 12,94 nas duas melhores ondas, mas não conseguiu tirar a vantagem construída pelo campeão.

"Esse era o meu sonho, e dediquei minha vida toda para ganhar esse troféu. Isso é para a minha vó, que morreu há três semanas. Ainda não posso acreditar. Gabriel é um competidor muito duro, mas esse é o meu momento", disse em prantos para a transmissão oficial da WSL.

Após os títulos dos paulistas Medina (2014 e 2018) e Adriano de Souza (2015), Italo é o primeiro representante do Nordeste brasileiro a chegar ao topo do esporte.

Natural de Baía Formosa (RN), cidade com cerca de 9.000 habitantes, ele começou a surfar aos 8 anos de idade. Como não tinha prancha na época, pegava emprestada do seu pai, vendedor de peixe, a tampa quadrada de isopor que ele usava para tampar as mercadorias.

Na água, o garoto precisava tomar cuidado para não quebrá-la e inviabilizar o trabalho da família.

"Parece até mentira, porque isso não dá estabilidade nenhuma no mar, mas eu conseguia pegar onda. E meu pai mostrava eu surfando para todo mundo", o atleta afirmou à Folha em 2016, quando se preparava para o seu segundo ano na WSL após uma estreia promissora.

Em 2015, na condição de calouro, ele surpreendeu ao vencer baterias contra Medina, Kelly Slater (11 vezes campeão) e John John Florence (bicampeão). A explosão que se esperava não veio nos dois anos seguintes, quando terminou a temporada em 15º e 22º, neste caso atrapalhado por lesão que o tirou de três etapas.

Italo começou a confirmar as expectativas e entrou no grupo dos postulantes ao título no ano passado, após vencer três eventos, mas não foi constante nos outros oito e terminou a temporada na quarta posição.

Campeão de 2019, ele finalmente alcança o patamar em que sempre sonhou estar. Para isso, conta que foram necessárias muitas horas de dedicação, tanto no mar quanto na parte física, e também se tornar mais forte mentalmente.

“No ano passado, venci três eventos e entrei na briga, e neste ano consegui ser um pouco mais constante. Um fato bem interessante foi que conseguir alinhar minha vida pessoal, então me isso deixou mais leve e feliz”, disse ele antes do início da competição em Pipeline.

Alinhar a vida pessoal significa principalmente ter iniciado o namoro com a cantora e atriz Mari Azevedo, que costumar o acompanhar nas competições.

Outro momento que o fortaleceu foi a inusitada participação nos Jogos Mundiais de Surfe, em setembro, no Japão, evento cuja participação era pré-requisito para poder estar na Olimpíada de Tóquio-2020 ---ele e Medina serão os representantes brasileiros na estreia olímpica do esporte.

Quatro dias antes de o campeonato começar, o passaporte de Italo havia sido furtado nos EUA. Os trâmites para conseguir um novo documento e um tufão que adiaram seu voo ao país asiático tornaram sua participação um acontecimento de contornos épicos.

Italo Ferreira antes de bateria em Pipeline, última etapa da WSL
Italo Ferreira antes de bateria em Pipeline, última etapa da WSL - Ed Sloane/WSL

Quando o atleta finalmente chegou à cidade-sede da competição, precisou largar as malas e correr para a praia. Pegou a prancha emprestada de Filipe Toledo, vestiu a lycra e se lançou ao mar com a bermuda jeans que estava vestindo, a oito minutos do fim da bateria. O potiguar não só venceu aquela disputa como dias depois sagrou-se campeão do evento.

“Sem dúvidas o Mundial da ISA [Associação Internacional de Surfe, entidade paralela à WSL] me deixou mais forte mentalmente. Depois de todo o acontecido, eu coloquei na minha mente que teria que vencer acima de qualquer coisa e mostrar o poder da minha fé e de acreditar até o fim”, afirmou.

Com mais um título mundial no ano, este último o mais cobiçado por todos os surfistas, Italo põe Baía Formosa definitivamente no mapa do esporte. Os moradores acostumados a fazer modestas e empolgadas carreatas para comemorar suas vitórias podem mais do que nunca se orgulhar do menino que pegava onda com a tampa de isopor.

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