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Tóquio 2020

Por razões opostas, sanção antidoping desagrada a russos e americanos

Exclusão da Rússia, mas não de seus atletas, provoca forte reação dos EUA

São Paulo

A suspensão de quatro anos imposta à Rússia pela Wada (Agência Mundial Antidoping) por manipulação de dados e amostras referentes aos seus atletas foi tratada no discurso oficial da entidade como uma medida dura, porém necessária para manter os princípios do jogo limpo no esporte.

Não foi assim que entenderam os dois principais países interessados na decisão. Os russos, como era de se esperar, a consideraram um novo episódio da perseguição que supostamente sofrem pelos organismos esportivos internacionais. Segundo o primeiro-ministro Dmitri Medvedev, trata-se da continuidade da "histeria antirussa".

Desde as revelações sobre o esquema estatal e maciço de violações antidoping que operou durante os Jogos Olímpicos de Inverno de Sochi-2014, o país nunca mais saiu da mira da Wada.

 

Na Olimpíada do Rio-2016, conseguiu escapar de uma exclusão total, já que o Comitê Olímpico Internacional (COI) permitiu que cada federação esportiva decidisse sobre a participação ou não dos atletas russos em suas modalidades.

Mais de uma centena deles acabaram excluídos individualmente do evento, porém apenas o atletismo e o levantamento de peso optaram pelo banimento da nação como um todo. Já na Paraolimpíada carioca, o país teve sua participação totalmente vetada.

Nos Jogos de Inverno de Pyeongchang, seus representantes puderam competir na condição de "atletas olímpicos da Rússia", tanto em modalidades individuais quanto coletivas. Nas 18 vezes em que subiram ao pódio, o fizeram sem o hasteamento da bandeira azul, vermelha e branca ou a execução do hino nacional.

Uma das medalhas, no curling, foi retirada após um casal de atletas que competiu nas duplas mistas ser pego no doping com a substância proibida meldonium.

Caso a decisão da Wada seja mantida após um provável recurso ao Tribunal Arbitral do Esporte, que só será julgado no ano que vem, o mesmo cenário deverá ser visto nos Jogos Olímpicos e Paraolímpicos de Tóquio, com dezenas de medalhas arrebatadas não pela Rússia oficialmente, mas pelos "atletas olímpicos da Rússia".

Eles deverão provar que estão limpos a partir de testes feitos em laboratórios internacionais e também que não foram beneficiados pelo esquema de fraude.

Essa possibilidade incomoda desde já os EUA, maior potência esportiva mundial. Com a manipulação de informações orquestrada pela agência russa (Rusada) em ao menos 145 exames, as reais condições desses atletas provavelmente nunca serão conhecidas.

“Permitir que a Rússia escape de uma proibição completa é mais um golpe devastador para atletas limpos, a integridade do esporte e o estado de direito", escreveu Travis Tygart, CEO da Usada (agência americana de controle de dopagem).

Travis Tygart, CEO da Usada (agência antidoping dos EUA)
Travis Tygart, CEO da Usada (agência antidoping dos EUA) - John Thys - 17.mai.13/AFP

Para ele, "não há dúvida de que a Rússia cometeu o nível de corrupção mais intencional, profundo e amplo em todo o mundo do esporte", e "agora atletas limpos, fãs de esportes e patrocinadores estão sofrendo com outro horrendo Dia da Marmota, de corrupção e dominação russa".

Enquanto a Rússia tentará reverter a sua exclusão dos grandes eventos esportivos na corte máxima do esporte, os americanos esperam que ela no mínimo não afrouxe as medidas já determinadas pela Wada.

Há quem defenda que uma sanção mais firme contra os russos venha na definição dos detalhes da suspensão, por exemplo ao impedir qualquer menção ao país na identificação dos seus atletas.

Algumas federações devem se sobressair no rigor, como a de atletismo, que desde 2015 proíbe o envio de delegações sob a bandeira russa para as suas competições.

Já a posição da Fifa, que no ano passado sediou sua Copa do Mundo de futebol masculino na Rússia, ainda é desconhecida. Em tese, a punição se aplicará também ao Mundial do Qatar, em 2022.

O COI apoiou a decisão da Wada, mas semanas antes o seu presidente, o alemão Thomas Bach, já havia deixado claro que seria contra uma punição que atingisse todos os atletas russos.

Em meio à corda bamba da guerra fria esportiva, as entidades terão trabalho para equilibrar todos esses interesses.

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