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Futebol Internacional

Séries de futebol abrem mão de independência por poucos bastidores

Clubes têm poder de veto sobre imagens indesejadas ou acesso dos produtores

São Paulo

Houve uma época no futebol em que as portas dos vestiários ficavam escancaradas aos profissionais de rádio e TV que desejassem obter uma palavra de algum jogador após as partidas. Em alguns casos, com os atletas recém-saídos do banho, ainda nus.

Esse tipo de acesso foi sendo restringido com o passar dos anos. Hoje em dia, a imprensa assiste a apenas uma pequena parte dos treinos –geralmente, os primeiros 15 minutos, quando assistem. A conversa direta com os personagens do jogo ficam basicamente reservadas às entrevistas coletivas e às zonas mistas, onde há uma disputa ferrenha pelos centímetros que separam seu microfone ou gravador da boca do entrevistado.

O que para jornalistas se tornou uma dificuldade e um desafio ao trabalho diário, para os clubes se transformou em produto, com as TVs oficiais de cada equipe produzindo conteúdo exclusivo da forma que melhor lhes convém.

Recentemente, o ambiente futebolístico ganhou uma outra figura que agora ataca esse mercado. São as produções de futebol para serviços de streaming, que ganham cada mais espaço em plataformas como Netflix e Amazon Prime Video.

Pep Guardiola, em cena da série "Manchester City: All or Nothing", disponível no Amazon Prime Video
Pep Guardiola, em cena da série "Manchester City: All or Nothing", disponível no Amazon Prime Video - Divulgação

O cardápio de títulos à disposição mostra, porém, que a maioria dessas produções, apesar do acesso aos corredores dos clubes, está mais próxima das TVs oficiais, ou seja, de um produto voltado para a imagem (e para os cofres) desses clubes, do que de um trabalho que permita contemplar não só os momentos gloriosos, mas também as crises e, principalmente, as emoções que habitam um vestiário de futebol.

Lançada em dezembro de 2018, a série "Sunderland Até Morrer", da Netflix, virou referência no tema. Pensada como uma produção para promover o retorno do time à primeira divisão inglesa, terminou por mostrar a derrocada que culminou no rebaixamento à terceira divisão do país, com todo o drama que esse tipo de situação implica.

Apesar do mérito de falar com dirigentes, técnicos e jogadores, a série esbarrou na porta do vestiário, cuja entrada foi proibida pelos treinadores que comandaram a equipe na temporada 2016/2017, Simon Grayson e Chris Coleman​. Esbarrou, também, na porta do diretor de futebol do Sunderland, Martin Bain, que apesar das seguidas entrevistas, não permitiu a filmagem de algumas conversas durante a janela de transferências da liga inglesa.

"Quando se trata de conteúdo original, de forma geral, na Netflix nós prezamos muito a liberdade criativa dos artistas com quem a gente trabalha. Não temos nenhum tipo de recomendação ou proibição para os criadores", diz a Netflix, em nota, à Folha, sobre eventuais limites de acesso das suas produções.

Após negociação com a Amazon, o Manchester City recebeu 10 milhões de libras (cerca de R$ 50 milhões) para exibir seus bastidores, mas com uma condição: a diretoria do clube tinha direito a veto sobre quaisquer imagens produzidas ao longo das filmagens na edição final. O resultado pode ser visto na série "All or Nothing: Manchester City", lançada em 2018 no serviço de streaming Amazon Prime Video. 

Além de Sunderland e Manchester City, outros clubes do futebol mundial têm suas produções no streaming, como Juventus, Boca Juniors e River Plate, no Netflix, e o Borussia Dortmund, no Amazon Prime Video. Esses, porém, trazem ainda menos detalhes das turbulências vividas no dia a dia de um clube de futebol.

Recentemente, o Flamengo entrou para a lista de times contemplados no streaming. Os rubro-negros tiveram um documentário lançado pelo Globoplay sobre o título da Copa Libertadores. A participação no Mundial de Clubes também irá render uma produção, desta vez para o Amazon Prime Video.

Para o britânico Angus MacQueen, que dirigiu a série "Maradona no México", lançada em 2019 pela Netflix, a dificuldade de acesso total e sem filtro à intimidade dos times está na complexidade dos contratos dos jogadores, que envolvem direitos de imagem.

Em sua obra, que acompanhou o trabalho de Maradona como técnico do Dorados de Sinaloa entre 2018 e 2019, ele diz que o clube mexicano deu à sua equipe total liberdade para transitar nos ambientes privados da equipe, com a anuência do técnico argentino.

"Há colegas meus que estão filmando no Tottenham agora [para o Amazon Prime Video] e estão tendo problemas. No nosso caso, o que eu acho é que os contratos dos jogadores eram mais simples. Minha suspeita é que com o Manchester City houve um controle editorial do produto e os jogadores têm direitos de imagem que são muito difíceis de administrar", diz MacQueen, que pela primeira vez trabalhou com futebol, à Folha.

"Eu assisti a um par de produções de streaming sobre outros clubes. E eu achei os outros filmes chatos. Eles são muito controlados, servem quase como exercício de relações públicas para os clubes. E acredito que o mais incrível que conseguimos foi o acesso ao vestiário com Maradona, a toda hora, antes e depois dos jogos", opina.

Série "Maradona no México" mostra a passagem do técnico argentino pelo Dorados de Sinaloa, do México
Série "Maradona no México" mostra a passagem do técnico argentino pelo Dorados de Sinaloa, do México - Netflix/Divulgação

O controle restrito dos clubes sobre os documentários e séries lançados pelos serviços de streaming também levanta a discussão sobre qual o grau de naturalidade que os envolvidos encaram as filmagens. Chris Coleman, que comandou o Sunderland na campanha do rebaixamento em 2016/2017, admitiu que se sentia muito desconfortável com as câmeras.

Já para o presidente Rogério Caboclo, da CBF, isso não foi um problema. Em outubro, o dirigente gravou um depoimento para uma série que a Amazon lançara em 2020 sobre o título da Copa América deste ano. A fala de Caboclo, contudo, foi dita como se o torneio, que terminou em julho, ainda não tivesse começado.

Angus MacQueen, que trabalhou com Maradona, acredita que a participação do argentino em sua série, com rompantes de fúria e até um xingamento a Luiz Felipe Scolari, foi genuína.

"Eu fiz alguns filmes, estou na estrada há mais de 30 anos. Diego também enfrenta as câmeras há mais de 30 anos. Ele sempre esteve absolutamente ciente de que estávamos filmando, isso é verdade. Se eu penso que ele inventou essa paixão [mostrada na série]? Não acho", diz.

Confortáveis ou não como esse tipo de exposição, jogadores, técnicos e dirigentes terão de se acostumar a essa nova tendência do mercado do futebol.

Quando assumiu o comando do Tottenham, no fim do último mês de novembro, o técnico português José Mourinho já sabia que o clube londrino estava produzindo material para uma série desde antes de sua chegada, ainda com Mauricio Pochettino no cargo.

Questionado em uma entrevista coletiva sobre o que havia dito aos seus jogadores no intervalo do jogo contra o Olympiacos, pela Champions League, em que o Tottenham perdia por 2 a 0 e terminou vencendo por 4 a 2, Mourinho atacou de promoter.

"Se você esperar alguns meses e comprar o filme da Amazon, vai descobrir", disse o português.

Os bastidores do futebol no streaming

  1. Sunderland Até Morrer (Netflix)

    2018, 8 episódios - Mostra o dia a dia do clube inglês na temporada 2016/2017, quando caiu para a terceira divisão

  2. Juventus Prima Squadra (Netflix

    2018, 6 episódios - Acompanha o clube italiano na temporada 2018/2019, a primeira de Cristiano Ronaldo na equipe

  3. Maradona no México (Netflix)

    2019, 7 episódios - Mostra os bastidores do Dorados de Sinaloa sob o comando de Maradona entre 2018 e 2019

  4. Manchester City: All or Nothing (Amazon Prime Video)

    2018, 8 episódios - Série mostra os bastidores da campanha vitoriosa do time na Premier League de 2017/2018

  5. Les Bleus 2018 (Amazon Prime Video)

    2018, 4 episódios Série documental conta a história do título da seleção francesa na Copa do Mundo da Rússia

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