Descrição de chapéu Copa do Mundo 2022

História e crescimento do futebol no Qatar passam por brasileiros

Imediatismo de xeques mudou com investimentos na base e Copa de 2022

Doha

Pepe era técnico do Al-Ahli, do Qatar, em 2003. Após uma partida, ele foi chamado para conversar com o presidente, dono do clube e futuro emir do país, o xeque Ahmed bin Hamad Al Thani.

O chefe queria fazer uma pergunta para o treinador, mas o brasileiro não entendeu nada por não falar inglês. Pepe, então, chamou seu filho e auxiliar, Pepinho, para ajudá-lo. “Pai, ele disse que pode contratar o Guardiola e quer saber se você aceita”, traduziu.

Dezessete anos depois, a história ainda diverte Pepe, 84. “Como eu não iria aceitar a contratação do Guardiola?”, ele questiona, para em seguida cair na gargalhada.

Por quase dois anos, o então veterano volante espanhol atuou no Qatar. O Al-Ahli foi seu penúltimo clube antes de começar a carreira de treinador e se tornar um dos mais badalados da história.

Guardiola foi a contratação do futebol do Qatar com a cabeça no passado. De um tempo em que xeques e bilionários donos de equipes estavam mais preocupados com o próximo resultado do que com o futuro do esporte do país.

“Houve um jogo em que os xeques donos de dois clubes apostaram US$ 1 milhão em qual time venceria. O meu ganhou e eu fiz um gol”, disse o atacante Serginho, ex-Corinthians, à Folha em 2003. Ele atuava pelo Al Sadd, que disputou o último Mundial de Clubes no país.

Foi naquele ano que Romário também assinou com o Al Sadd. Atuou apenas três vezes, não fez nenhum gol e voltou para o Brasil com US$ 1,5 milhão (R$ 6 milhões em valores atuais) do contrato.

Depois, outros atacantes badalados passaram por lá, mas já na curva descendente da carreira. O argentino Gabriel Batistuta confessou ter aceitado oferta do Al-Arabi, apesar das constantes dores no joelho, por causa dinheiro irrecusável.

“Os brasileiros no Qatar brincavam que eles [os dirigentes] plantavam uma roseira no quintal e saia petróleo", relembra Pepe. Era competição entre eles, não apenas no futebol. Então, contratavam quem queriam. Às vezes consultavam o treinador, às vezes não."

Sebastião Lazaroni orienta jogadores da seleção do Qatar durante amistoso em Doha
Sebastião Lazaroni orienta jogadores da seleção do Qatar durante amistoso em Doha - Fadi Al-Assaad-24.nov.12/Reuters

A influência sul-americana na formação do gosto do qatari pelo futebol está nos técnicos da seleção do país. Houve 37 até hoje, e 10 foram brasileiros.

“Quando eu cheguei ao Qatar pela primeira vez, em 2007, os jogadores tinham outros empregos, era um esporte semi profissional. Com o passar dos anos, eles foram investindo mais em formação e criando uma visão de longo prazo”, diz Sebastião Lazaroni, técnico da seleção brasileira na Copa de 1990 e responsável pela equipe qatari de 2011 a 2012.

“Eles sempre gostaram muito do nosso futebol e dos brasileiros. A família real do país adora futebol”, concorda Evaristo de Macedo, que dirigiu a seleção três vezes nos anos 1980 e 1990.

A visão deles é de que o Qatar abandonou a fórmula imediata de resultados e apostas de xeques a partir de 2010, quando foi escolhido como sede do Mundial de 2022. Mas o trabalho a longo prazo é anterior a isso.

“Houve um momento no meio da década passada em que eles começaram a criar centros de excelência para que começassem a formar mais jogadores e serem mais profissionais”, conta Lazaroni.

O maior símbolo disso foi a inauguração, em 2005, da academia Aspire, um centro de desenvolvimento de atletas e educação em Doha. As crianças mais promissoras no futebol identificadas em campos e escolas de todo o país, a partir dos 8 anos, são preparadas para entrar na Aspire aos 12.

O complexo da academia fica ao lado do Khalifa Stadium, palco que sediou a final do Mundial de Clubes entre Liverpool e Flamengo.

Romário durante a apresentação como reforço do Al Sadd, em Doha
Romário durante a apresentação como reforço do Al Sadd, em Doha - Karim Jaafar-2.mar.03/AFP

A seleção do país conquistou pela primeira vez a Copa Asiática de Nações, disputada nos Emirados Árabes, no ano passado. Sua posição no ranking da Fifa passou de 112º, em 2010, para 55º.

Graças ao patrocínio da Qatar Airways (que pertence à família real) à Conmebol, o país foi convidado para participar da Copa América de 2019, no Brasil. Empatou com o Paraguai e perdeu para Argentina e Colômbia, mas sem ser goleado.

Nos últimos tempos, o foco dos dirigentes do futebol local mudou do Brasil para a Espanha. O técnico Félix Sánchez Bas, formado na base do Barcelona, chegou à Aspire em 2006 para coordenar o desenvolvimento do esporte no país. Passou pelas seleções sub-19 e sub-23 antes de chegar à principal, em 2017.

Xavi, meia histórico do Barcelona, também faz parte do projeto. Contratado em 2015 pelo Al Sadd, ele chegou ao clube com o projeto de se tornar o técnico e peça no crescimento no futebol nacional. Isso aconteceu em maio do ano passado.

“Se existe essa visão de amadorismo no futebol do Qatar, pode esquecer, isso está no passado”, afirma Lazaroni. “O plano deles pode dar certo e, se isso acontecer, os brasileiros poderão dizer que contribuíram para isso”, diz Pepe.

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