Novo campeão mundial de boxe luta para ter reconhecimento no Brasil

Patrick Teixeira venceu Carlos Adames em Las Vegas, no dia 30 de novembro

Santos

Patrick Teixeira, 29, mal conseguia abrir os olhos ao fim da luta contra o dominicano Carlos Adames, no hotel Cassino Cosmopolitan, em Las Vegas, na noite do dia 30 de novembro.

Irreconhecível pelo inchaço e os cortes aparentes que lhe renderam 18 pontos no rosto após 12 rounds, recebeu no ringue o anúncio da vitória por pontos em decisão unânime.

Foi a 31ª conquista do boxeador em 32 lutas como profissional, mas o embate foi diferente de todos os outros.

Teixeira entrou para um seleto grupo de campeões mundiais. Entre os brasileiros, figura ao lado de Eder Jofre, Miguel de Oliveira, Acelino “Popó” Freitas e Valdemir “Sertão” Pereira, o último a conseguir o feito até então, em 2006.

A confirmação oficial veio cinco dias depois, durante a convenção anual da OMB (Organização Mundial de Boxe), devido a troca de categoria do mexicano Jaime Munguia, então dono do cinturão dos super-meio-médios (69,8 kg).

O novo campeão, porém, ainda é um herói quase desconhecido no país. “Sou introvertido, nem gosto muito de falar. Não sou de [ficar nas] redes sociais, também, por isso pouca gente me conhece. Preciso melhorar isso”, diz o lutador à Folha.

Teixeira nasceu em Sombrio (SC), cidade com pouco mais de 25 mil habitantes, a 240 km de Florianópolis. Iniciou sua trajetória no boxe aos 13 anos de forma curiosa: sonhava em ser como Bruce Lee, ator, diretor e roteirista, dono de um estilo próprio de luta, inspirado no kung fu.

“Meu padrasto só falava dele. Eu via os filmes e passei a gostar, também. Era gordinho e só cheguei a uma academia de boxe porque não tinha outra mesmo para fazer”, afirma.

Dois anos depois, saiu de Santa Catarina e foi para São Paulo, para acompanhar o lutador Claudinei Lacerda. Nunca mais voltou.

Conheceu na cidade o empresário Eduardo Melo Peixoto, o “seu Edu”, considerado um dos principais incentivadores do esporte.

Edu foi mais do que o responsável por apostar em um desconhecido menino magro e introvertido. “Vim bem verde, cru mesmo, mas comecei a crescer. Viram algo bom em mim”, afirma o lutador.

O empresário bancou treinos no exterior, formou uma equipe para que Teixeira pudesse lutar profissionalmente e trabalhou até o fim por contratos melhores para o pupilo. Eles cultivaram relação de pai e filho até sua a morte, em agosto de 2019.

“Fui abençoado por conhecê-lo. Ele me deu tudo quando cheguei a São Paulo, me permitiu viver exclusivamente do boxe, mas faleceu poucos meses antes da luta. Foi uma perda muito difícil”, diz Teixeira. “Ele fez possível um sonho, mas, infelizmente, não pôde vê-lo se realizar.”

Teixeira hoje mora em Santana de Parnaíba (SP) e é treinado há mais de uma década pelo técnico Edson Pedro do Nascimento, o Xuxa, ex-pugilista que encerrou a sua carreira invicto. A realidade, no entanto, ainda é bem distante da desfrutada pelos melhores atletas do boxe mundial.

“O Patrick foi para o topo do mundo treinando em uma academia precária, muitas vezes improvisada, contra um atleta que treinava em uma academia de primeiro mundo, com campeões mundiais”, conta Pepe Altstult, dono do grupo Memorial, um dos patrocinadores do atleta.

“Armaram uma festa para o Carlos Adames, mas o Patrick estragou tudo”, afirma o patrocinador.

Com o título, o atleta garantiu a extensão automática do contrato com a Golden Boy, promotora controlada pelo ex-pugilista norte-americano Oscar de la Hoya. O acordo, que venceria em janeiro, agora valerá até 2025.

“Fiz a preparação no Brasil, mas não tinha um preparador físico, treinei do meu jeito e com a minha experiência. Faltava sparring [pessoa que auxilia o boxeador, simulando ser o adversário] também, mas contei com a ajuda de alguns meninos”, diz Teixeira. 

Apesar do sucesso, ele não pretende continuar seus treinos dessa forma. “Algumas coisas precisam mudar, porque agora todos querem a minha cabeça”, afirma.

Desde 2013, após a sua 20ª luta, Patrick Teixeira já aguardava pela oportunidade de realizar o embate pelo título. Conseguiu somente seis anos depois e quase que por acaso.

“Eu achava que estava preparado, mas talvez não estivesse. Amadureci, sofri uma derrota [em 2016, para o americano Curtis Stevens] e muita coisa mudou desde então”, conta o lutador.

Apesar do título recente, ele não pensa em ir muito longe. Quer lutar somente até completar 33 anos. “Acho que mais quatro ou cinco anos está de bom tamanho. O boxe é um esporte duro e tenho vontade de fazer outras coisas.”

Curiosamente, o lutador era  provavelmente o menos cotado de sua geração para conquistar o cinturão.

Os principais nomes dela são os irmãos Esquiva e Yamaguchi Falcão, além de Robson Conceição —campeão na Olimpíada de 2016. Todos também estão no boxe profissional atualmente.

Teixeira conta que abriu mão de tudo pelo cinturão tão almejado. A luta, agora, é fora dos ringues. Ele busca ser reconhecido.

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