Para atletas de alto rendimento, esporte significa dor

Visão de atividade física como sinônimo de saúde não vale para a maioria deles

São Paulo

Leivinha tinha a possibilidade de fazer um último bom contrato na carreira em 1979. O New York Cosmos, equipe em que dois anos antes estava Pelé, queria levá-lo para os EUA por três temporadas. O atacante aceitou a oferta, mas não pôde concretizá-la. Em vez disso, abandonou o futebol aos 29. As dores não o deixavam continuar.

“Fui no consultório do meu médico e falei que estava com muita dor no joelho. Reclamei do incômodo e ele me disse: ‘você tem o joelho de um cara de 80 anos, não o de alguém com 40. Você usou muito as cartilagens e os ligamentos”, afirma Fernando Meligeni, 48, tenista profissional de 1990 a 2003.

Edu Dracena se aposentou como jogador no final do ano passado, quando estava no Palmeiras
Edu Dracena se aposentou como jogador no final do ano passado, quando estava no Palmeiras - Zanone Fraissat-14.nov.19/Folhapress

Edição da Revista de Psicofisiologia afirma que não existe uma definição satisfatória para o que é dor. Uma delas explica ser “uma sensação pessoal íntima do mal”. Há vários esportistas que concordam com isso. Atividade física é saúde para amadores e sedentários. Para quem pratica em alto rendimento, em busca de vitórias, medalhas, glória e dinheiro, esporte significa dor.

Atacante de Portuguesa, Palmeiras, Atlético de Madri (ESP) e São Paulo nos anos 1960 e 1970, Leivinha é um dos ex-atletas que convivem com ela mesmo 40 anos após ter deixado de jogar futebol.

Ele tem prótese nos dois joelhos e nos dois quadris e por isso encontra dificuldade para manter o equilíbrio e andar.

“Os tratamentos, as cirurgias e as injeções para jogar foram me limitando mais e mais. Ainda preciso fazer fisioterapia. Completei 70 anos em setembro [de 2019]. Parei de jogar há quatro décadas e ainda sinto muito as consequências disso”, afirma o ex-jogador, que depois da aposentadoria se tornou comentarista, mas hoje apenas assiste a partidas pela televisão.

“Os atletas passam do limite do que é saudável. Quando a dor é crônica, pode acontecer o excesso de analgésicos. A pessoa tem uma lesão, pode ser grave, mas ela não pode demonstrar isso por medo ou fraqueza. Então exagera nos analgésicos fortes, como corticoides, e não é raro ficarem dependentes”, afirma Marcio Matsumoto, especialista em dor do Hospital Sírio-Libanês, em São Paulo.

Ao lado do skatista Bob Burnquist, ele tem o plano de montar o Instituto de Pesquisa em Neurociência. A ideia é estudar o assunto e tratar ex-esportistas profissionais e pacientes em geral que sofrem de dores crônicas.

Matsumoto considera que a vida do atleta é tão indissociável da dor que isso pode ser um problema. Uma afirmação que vai de encontro ao que pensam esportistas de alto nível em diferentes modalidades.

“Meu linear [limite] de dor é bem alto. Se eu der uma topada com o dedo do pé, não sinto nada”, constata Daniele Hypólito, ginasta profissional desde 2004, integrante da seleção brasileira e com cinco Olimpíadas no currículo.

“Vai passando o tempo e você convive com a dor. Ela faz parte da sua vida”, concorda o zagueiro Edu Dracena, recém-aposentado com a camisa do Palmeiras. “E olha que eu passei por quatro cirurgias no joelho! Eu sei o que é dor.”

 

Os atletas podem saber, mas muitas vezes não demonstram senti-la. Isso em parte por causa da maneira de pensar que adquirem durante anos no esporte. Um dos ensinamentos recorrentes é que, se após o treino não houver dor, há algo errado. Significa que a prática não foi bem-feita.

Há também os chavões que escutam sem parar. Como “dar 100%” ou “vencer contra tudo e contra todos”. Na visão de especialistas, isso incentiva ao atleta se enxergar como um super-herói, alguém que não pode demonstrar fraqueza e jamais se afastar do esporte por sentir dor.

“Estamos diante da presença de um sujeito que sofre e muitas vezes não se autoriza a expressar seu sofrimento por estar identificado à imagem de herói e inserido em um contexto onde a lesão e a dor são naturalizadas e permitidas: é o preço que se paga se quiser ser campeão”, escreve a psicóloga Clarice Medeiros no estudo “Lesão e dor no atleta de alto rendimento: o desafio do trabalho da psicologia em esporte”.

Foi o que aconteceu com o norte-irlandês Norman Whiteside, 54. Apontado como gênio aos 16 anos, o jogador mais jovem ao entrar em campo em uma Copa do Mundo (17 anos e 41 dias, em 1982) e com a perspectiva de se tornar milionário, ele suportou por anos as dores quase incapacitantes nos joelhos e nos quadris.

“Acordar e sair da cama a cada manhã era um suplício. Em alguns dias, a dor era insuportável”, relata ele.
Algo semelhante à descrição dada sobre Garrincha pela cantora Elza Soares, que foi mulher do jogador, na biografia “Estrela Solitária – um brasileiro chamado Garrincha”, escrita pelo colunista da Folha Ruy Castro.

Whiteside parou aos 26 anos, em 1991, quando o médico o alertou que uma falta recebida em campo, mesmo que não fosse violenta mas que acertasse no lugar errado, poderia deixá-lo paralisado.

Ele se formou em fisioterapia e hoje trata de pacientes que sofrem de dores crônicas. As mesmas que ainda o perturbam. Assim como acontece com Tite, técnico da seleção brasileira. Por causa de seguidas lesões no joelho, ele ainda precisa fazer fisioterapia. Se não fizer, as dores aumentam.

“O problema do Tite é que ele tinha uma limitação no joelho e continuava jogando”, avalia o ortopedista Joaquim Grava, médico do Corinthians.

Com 40 anos de experiência na medicina esportiva, Grava acredita que os problemas eram mais sérios no passado e que a evolução da medicina reduziu os riscos de problemas permanentes para os atletas.

“Quando comecei, há 42 anos, era bem diferente. Antigamente, no futebol, o atleta conseguia jogar mesmo com muita dor. Hoje, é impossível. Várias vezes ele tinha uma lesão no tornozelo esquerdo, por exemplo, e eu dizia para ele evitar chutar com a perna lesionada. Isso era possível na época. Hoje, não”, completa. 

Edu Dracena, 38, jogador profissional de futebol entre 1999 e 2019

Edu Dracena na Academia de Futebol do Palmeiras antes da aposentadoria
Edu Dracena na Academia de Futebol do Palmeiras antes da aposentadoria - Zanone Fraissat-14.nov.19/Folhapress

 Eu não tenho isso de treinar, treinar até sentir dor. Às vezes você chega para treinar sentindo um pouco e precisa tratar, fazer fortalecimento. Acontece.

Futebol é assim. Contato toda hora, as lesões aparecem. Estou há 20 anos no futebol e vejo que mudou muita coisa. Antes você fazia uma artroscopia e ficava fora dois meses. Hoje volta em 15 dias.

Não sei qual o preço que vou pagar por causa das lesões no futebol e das dores. Precisava viver o momento.


Daniele Hypólito, 35, ginasta profissional desde 1994

 Daniele Hypólito durante apresentação na Olimpíada do Rio, em 2016
Daniele Hypólito durante apresentação na Olimpíada do Rio, em 2016 - Dylan Martinez-9.ago.16/Reuters

Esporte de alto rendimento é dor, mas toda a profissão tem seu preço. A dor por treinar há tanto tempo se tornou tão comum que nem percebo mais.

A gente está programado para isso. Se você tem algo importante para fazer, mas está com dor, tem de ir mesmo assim.

Eu tenho mais experiência, então procuro orientar as mais novas: está com dor forte? É insuportável? Vai falar com o treinador.

Aprendi a conviver, mas sei do limite. Até mesmo para competir. Se está me incomodando, eu converso com o médico.
 

Fernando Meligeni, tenista profissional entre 1990 e 2003

Fernando Meligeni vibra em partida contra o francês Cedric Pioline pela Copa Davis de 2000
Fernando Meligeni vibra em partida contra o francês Cedric Pioline pela Copa Davis de 2000 - Otavio Dias de Oliveira-4.fev.2000/Folhapress

Há atletas e atletas. Cada um convive com a dor de um jeito. O Nadal, por exemplo, conviveu com dor a vida inteira. O Federer, muito menos. É a particularidade do biotipo da pessoa.

Mas esporte é exercício de repetição. O tenista repete a mesma bola mil vezes no treino. Repetição traz desconforto, lesão e sobrecarga. 

Não tem jeito.

Eu gostava de sentir dor. Achava que se sentia cansaço, fadiga muscular e dor, o treino tinha sido bom. E a gente aprende a aguentar muito mais a dor do que uma pessoa normal, o que é um perigo. Tem um ponto em que ir além da dor é besteira, e o atleta se arrepende. Nadal é o grande exemplo. De achar que tem de jogar com dor, com lesão e ficar achando que é super-herói.

Leivinha, jogador profissional de futebol entre 1966 e 1979

Leivinha cabeceia a bola antes de partida do Palmeiras em 1972
Leivinha cabeceia a bola antes de partida do Palmeiras em 1972 - Folhapress

Eu me profissionalizei com 15 anos. Parei com 29. Talvez com as técnicas modernas da medicina minha carreira seria diferente. Eu demorei muito para ficar bom do joelho e sempre queria jogar, sempre queria superar a dor. Nem que tivesse de tomar injeções.

Hoje convivo com próteses nos joelhos e nos quadris e tenho muitas dificuldades no dia a dia, em andar e manter o equilíbrio. As cirurgias foram se sucedendo e foram me limitando cada vez mais.

Ainda preciso fazer fisioterapia. Parei de jogar há quatro décadas e ainda sinto as consequências disso.

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