Descrição de chapéu The New York Times

Pioneiro entre homens transgêneros no esporte quer abrir caminho

Americano Chris Mosier, 40, disputou seletiva olímpica do país na marcha atlética

Talya Minsberg
The New York Times

Em 2015, Chris Mosier se tornou o primeiro atleta transgênero a conquistar vaga na equipe masculina nacional dos Estados Unidos. Ele foi parte da equipe do país no biatlo e no triatlo seis vezes e é o primeiro atleta transgênero patrocinado pela Nike.

Que momento melhor para tentar um novo esporte do que a meses de distância de uma Olimpíada? Agora, Mosier, 40, compete na marcha atlética.

 Chris Mosier, primeiro atleta a conquistar vaga na equipe masculina nacional dos Estados Unidos
Chris Mosier, primeiro atleta a conquistar vaga na equipe masculina nacional dos Estados Unidos - Alexandra Genova/The New York Times

Em sua primeira competição na modalidade, uma prova de cinco mil metros, em setembro, ele se tornou campeão nacional na categoria masters.

Na segunda, uma corrida de 50 quilômetros em outubro, um dos dois homens cujo ritmo ele estava acompanhando perguntou se era mais difícil assumir que era transgênero ou assumir que competia na marcha atlética, ele recorda, rindo. Mosier se qualificou para a seletiva olímpica naquela prova, ficando em 12º lugar no ranking nacional, depois de começar a treinar em seu novo esporte em maio.

Sua terceira prova aconteceu no sábado (25), na seletiva olímpica, uma corrida de 50 quilômetros realizada em Santee, perto de San Diego, na Califórnia. Ele abandonou a prova cedo, depois de romper o menisco de seu joelho direito, disse Mosier.

Ao participar da prova, ele se tornou o primeiro atleta transgênero a se qualificar para participar de uma seletiva olímpica competindo no gênero com o qual se identifica. Também foi o primeiro homem trans a competir contra outros homens nesse nível do esporte.

É um mundo muito diferente de sua dieta usual de biatlos de velocidade, que consistem de uma etapa de corrida, uma etapa de ciclismo e uma segunda etapa de corrida.

Conversamos com Mosier recentemente, antes de sua participação agridoce na seletiva do sábado.

A entrevista foi encurtada e editada para fins de clareza.

Como é que você descobriu a marcha atlética? Um amigo em Chicago corre a marcha atlética de 50 quilômetros e me perguntou se eu já tinha pensado em concorrer nessa modalidade. Ele disse que achava que eu me daria muito bem nela. Bastou isso –que alguém acreditasse em mim e dissesse que eu seria bom em alguma coisa. Sempre posso melhorar como corredor, mas aquele era um novo tipo de desafio.

No biatlo e no triatlo, você normalmente corre entre três e 10 quilômetros. Como é que decidiu subir para os 50 quilômetros? Alguma coisa me atraía nessa distância. Eu corria biatlo de velocidade, uma modalidade veloz e furiosa. Mas o que adoro mesmo é treinar por muito tempo para as provas mais longas. Há algo de muito terapêutico em treinar.

Eu não tive muito tempo de preparação para a seletiva e cheguei à prova mal preparado. Minha primeira corrida foi de cinco quilômetros, e me tornei campeão nacional da categoria masters, em minha faixa de idade. Minha segunda corrida foi de 50 quilômetros, e foi ela que me trouxe aqui.

Mas subir de cinco para 50 quilômetros? Não recomendo.

Como o esporte o aceitou, como novo atleta na modalidade e como atleta trans? A comunidade foi incrível. Tive uma experiência realmente excelente no biatlo e no triatlo –os esportes que eu pratiquei durante a transição. Esses esportes estavam comigo quando passei pelo processo, pela mudança de nome, de pronomes e categorias, e sempre senti muito apoio.

Não sabia bem o que esperar ao começar em um novo esporte, mas fui recebido de um jeito muito caloroso. Todo mundo me ofereceu dicas, e estavam dispostos a me ajudar sempre que precisei. Eu acredito genuinamente que as pessoas querem meu sucesso.

Você saiu de um modo de competição veloz e furioso para um mais lento e compassado. Como as provas se comparam aos biatlos e triatlos? Correr é algo que consigo fazer sem pensar. No caso da marcha atlética, eu tenho de ficar realmente atento a cada movimento, a cada requisito. Essa é a diferença entre a marcha atlética e corridas, a necessidade de manter um pé no chão o tempo todo. Não é uma forma de movimento que ocorre naturalmente para mim, ou, imagino, para a maioria das pessoas.

E só faz alguns meses. Como você decidiu tentar uma seletiva olímpica? Era um novo tipo de desafio. No biatlo, o campeonato mundial é o mais alto que posso chegar, e quem não desejaria competir em uma olimpíada?

Parte de mim se orienta por objetivos que crio. Ao mesmo tempo, sei que meus sucessos também são os sucessos de minha comunidade. Sempre que ascendo a um novo patamar, será mais fácil para o próximo atleta trans subir de nível.

Não comecei essa jornada acreditando que chegaria a uma olimpíada, no entanto. Meu objetivo era chegar à seletiva. Sou claramente a pessoa menos experiente aqui. Há uma pessoa que se qualificou para nove seletivas olímpicas, e eu vou disputar minha primeira.

A maioria dos atletas prefere a calma nos dias que antecedem uma prova. Seus canais de mídia social andam repletos de atualizações sobre a votação do projeto de lei 1.057 pela assembleia estadual de Dakota do Sul, que responsabilizaria criminalmente as organizações de saúde que prescrevam bloqueadores de puberdade ou injeções de hormônios. Não há oportunidade de me calar agora, porque este é o momento em que preciso falar. Há pelo menos oito estados nos Estados Unidos que estão debatendo projetos de lei que proibiriam os atletas trans de segundo grau de participar de esportes no gênero com o qual se identificam.

O que vem a seguir? O foco voltará ao biatlo e triatlo, além da marcha atlética. Vou tentar vaga na equipe americana para 2021, no segundo trimestre, e o campeonato mundial no final do ano. Eu ainda não entendi bem como a Federação de Atletismo dos Estados Unidos lida com as provas de marcha atlética, e tudo bem se pareço um completo novato.

Para mim, o que importa é abrir um caminho para todos os atletas trans que vierem depois.

 

Tradução de Paulo Migliacci

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