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Futebol Internacional

Com punição ao City, Uefa tenta mostrar que fair play não é faz de conta

Sanção imposta pela entidade europeia é a mais dura aplicada em 35 anos

São Paulo

Desde a elaboração das regras do fair play financeiro, em 2009 –em vigor desde 2011–, a Uefa vive com o estigma de que a sua legislação de controle é um faz de conta, válida apenas para os clubes pobres e ignorada pelos ricos.

O banimento do Manchester City por duas temporadas de qualquer competição europeia (e a multa de R$ 140 milhões) é a punição mais pesada imposta pela entidade desde que os times ingleses foram suspensos por cinco anos em 1985, após a tragédia de Heysel –o clube afirma que irá recorrer ao CAS (Corte Arbitral do Esporte), instância máxima do direito esportivo.

Naquela ocasião, torcedores do Liverpool provocaram a morte de 39 torcedores na Bélgica antes da final da então Copa da Europa (hoje Champions League) contra a Juventus. A maioria das vítimas era de nacionalidade italiana.

O fair play financeiro determina que os clubes podem investir apenas o dinheiro que conseguem gerar,, sem gastar mais do que recebem.

Parte da percepção de impunidade existe por causa de clubes como Manchester City e Paris Saint-Germain, agremiações que antes eram de porte médio (no caso do City, nem isso), mas foram compradas por magnatas árabes e transformadas em forças continentais da noite para o dia graças a contratações milionárias.

O técnico Pep Guardiola (ao centro) e o xeque Mansour bin Zayed (de marrom), proprietário do City Football Group
O técnico Pep Guardiola (ao centro) e o xeque Mansour bin Zayed (de marrom), proprietário do City Football Group - Divulgação

Na última década, nenhum time da Europa gastou tanto dinheiro em novos jogadores quanto o City. Foram R$ 8,5 bilhões ao todo. A equipe foi comprada em 2008 pelo xeque Mansour bin Zayed Al Nahyan, integrante da família real dos Emirados Árabes.

A percepção de não ser uma legislação para valer ficou mais forte em 2018, quando vazaram emails de Gianni Infantino, secretário-geral da Uefa na época das mensagens e hoje presidente da Fifa, para Khaldoo Al Mubarak, mandatário do City, o tranquilizando sobre a investigação da entidade e explicando como ele poderia escapar do fair play financeiro.

De acordo com os documentos do Football Leaks, ele também teve reuniões com dirigentes do clube inglês e do PSG em que forneceu material confidencial que os ajudariam a escapar da fiscalização.

Infantino nega ter oferecido qualquer vantagem às equipes ou ter interferido nas investigações.

A punição ao City, que teria mascarado dinheiro pago pela família real dos Emirados Árabes como patrocínio da companhia aérea Etihad, é o último movimento de punições a clubes por não respeitarem o fair play financeiro. Algo que atingiu o Milan (sete vezes campeão da Champions League) no ano passado.

Por irregularidade nas contas, o gigante italiano fechou um acordo com a Uefa para não disputar a Liga Europa nesta temporada.

Em 2018, o Panathinaikos, clube grego mais antigo e tradicional, foi banido de qualquer competição continental por três anos por não conseguir pagar seus débitos. O Sion, da Suíça, recebeu a mesma punição, mas por dois anos por não ter pago R$ 4,5 milhões ao Sochaux (FRA) pela compra de Ishmaer Yartey, o que também viola o fair play financeiro.

A maior punição dos últimos anos aplicada pela Uefa não teve relação com o fair play financeiro. Foi dada ao Skenderbeu, principal clube da Albânia, banido por dez anos por participar de um esquema de acerto de resultados.

A não ser por Manchester City e Milan, os outros suspensos não podem ser considerados grandes no continente, mas a Uefa quer endurecer também pelo fator político.

Os cartolas da entidade sentem que cada vez mais clubes controlados pelo dinheiro do petróleo, como o atual campeão inglês e o PSG, tentam cooptar outros grandes do continente para a criação de uma Superliga europeia, deixando de lado a Champions League. Um dos principais articuladores dessa proposta é Ferran Soriano, CEO do City. 

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