Coronavírus fecha estádios, isola times e tumultua futebol europeu

Na Itália, onde há 300 casos confirmados, jogos da Série A foram adiados

Tariq Panja John Duerden
The New York Times

Na China, as autoridades que estão lutando para conter a difusão do coronavírus postergaram por meses o início da temporada de futebol, e pelo menos um time de primeira divisão está isolado há semanas no Oriente Médio, impedido de retornar de sua pré-temporada.

Na Coreia do Sul, torcedores que assistiram a jogos este mês foram examinados em busca de febre antes de serem admitidos aos estádios, e as máscaras se tornaram comuns nas arquibancadas japonesas, nas últimas semanas –até que, nesta terça-feira (25), as autoridades anunciaram que os jogos da liga japonesa ficariam suspensos até pelo menos a metade de março.

Mas os efeitos do coronavírus sobre o calendário do futebol mundial também cruzaram fronteiras. A confederação asiática de futebol anunciou três semanas atrás que as partidas de seu principal campeonato interclubes que envolvessem times chineses seriam adiadas por meses, e o Vietnã proibiu a realização de eventos esportivos de qualquer espécie neste mês, o que forçou o adiamento de ainda mais jogos.

Agora, os problemas chegaram à Europa. Na Itália, onde o número de casos confirmados de coronavírus estava chegando aos 300 na terça, pelo menos uma partida –o jogo de volta das oitavas de final da Liga Europa, entre a Inter de Milão e o Ludogorets, da Bulgária– será jogada com portões fechados, nesta quinta-feira (27), já que as autoridades continuam a restringir os eventos públicos na parte norte da Lombardia.

A decisão de jogar a partida sem espectadores, anunciada na terça, surgiu depois que as autoridades italianas adiaram quatro partidas da Série A no final de semana passado, entre elas da Inter de Milão.

A equipe, uma das principais candidatas ao título do Campeonato Italiano, disse que a decisão resultou de diversos dias de negociações com as autoridades de saúde da Lombardia e com a Uefa, a organização que comanda o futebol europeu, sobre como realizar o jogo, que não podia ser cancelado por falta de datas alternativas.

Acredita-se que o jogo contra o Ludogorets seja o primeiro na Europa que terá de ser jogado sem espectadores por conta de uma crise de saúde. Usualmente, condições como essas são impostas aos clubes como punição por violência dos fãs ou episódios racistas.

A Inter, controlada por uma companhia chinesa, já vinha tomando medidas a fim de minimizar os riscos do vírus. Alguns funcionários foram instruídos a trabalhar de casa, e o clube adquiriu estoques de máscaras de proteção e de detergente para mãos para manter em sua sede. ​

Torcida na partida entre Vissel Kobe e Yokohama Marinos na cidade de Kobe, no Japão - Jiji Press - 23.fe.2020/AFP

O time terá um jogo ainda mais importante no domingo, em uma visita à líder do campeonato, Juventus, em seu estádio em Turim, também com portões fechados.

Outros países europeus estão contemplando possibilidades semelhantes. Na terça, o clube francês Olympique Lyonnais anunciou em comunicado que estava informado da decisão das autoridades francesas de permitir que sua partida da Champions League contra a Juventus, nesta quarta, prosseguisse “em sua configuração original”.

Até 3.000 torcedores da Juventus, vindos de Turim, no norte da Itália, são aguardados para o jogo, cujos ingressos estão esgotados.

Perguntado sobre a partida, Olivier Vérain, o ministro da Saúde da França, disse à rádio RTL que as autoridades estavam atentas mas que no momento não existiam “argumentos médicos e científicos” que justificassem o cancelamento de grandes eventos na França.“Devemos suspender a Fashion Week?”, questionou Vérain. “Devemos suspender jogos? Devemos fechar as universidades? A resposta é não."

Ele acrescentou que “não estamos fechando as fronteiras não por não sabermos como, mas porque a esta altura não faria sentido”.

Autoridades de saúde e governos da Ásia, onde os calendários esportivos foram mais afetados depois que o vírus começou a se espalhar, enfrentam uma realidade muito diferente.

Torcedores com máscara na partida entre Roma e Lecce, pelo Campeonato Italiano - Alberto Lingria - 23.fev.2020/Reuters

Quando Afshin Ghotbi, o americano de origem iraniana que treina o clube chinês Shijiazhuang Ever Bright, foi jogado para o alto por seus jogadores, no começo de novembro, para comemorar a promoção do time à Super League da China, ele não fazia ideia de que, quase quatro meses mais tarde, a equipe ainda estaria esperando pelo começo da nova temporada.

O Shijiazhuang Ever Bright, cuja cidade de origem tem 11 milhões de habitantes e fica cerca de 260 quilômetros a sudoeste de Pequim, deveria ter iniciado sua nova campanha no final de semana passado.

Mas em lugar de encarar os superclubes chineses, como o Guangzhou Evergrande e o Shanghai SIPG, diante de 40 mil torcedores, a equipe de Ghotbi está jogando partidas de pré-temporada nos estádios vazios de Abu Dhabi, nos Emirados Árabes Unidos, sua base nas últimas cinco semanas, e não se sabe por quanto tempo mais continuará a fazê-lo.

Dirigentes do clube disseram acreditar que o time não deve jogar partidas oficiais pelo menos até maio e tampouco deve ser autorizado a retornar à China antes da metade de março.

“É um desafio para os jogadores”, disse Ghotbi. “Eles estão longe de suas famílias e se sentem muito desamparados, psicologicamente."

Ghotbi, que foi treinador da seleção do Irã, tem experiência com situações internacionais que prejudicam o calendário esportivo.

Ele treinava o Shimizu S-Pulse, do Japão, em 2011, quando um terremoto e tsunami levaram a um adiamento por seis semanas da liga japonesa.

“Na época, também tentamos usar o time de futebol como fonte de inspiração e esperança”, disse Ghotbi. “Como estamos tentando fazer agora, com faixas nos estádios e por meio da mídia social, embora a situação seja diferente por estarmos fora da China."

Partidas das eliminatórias para a Copa do Mundo de 2022 e para a Olimpíada de 2020 já foram transferidas. Em um exemplo extremo, a seleção feminina de futebol da China ficou de quarentena em um hotel da Austrália, forçada a se exercitar e treinar nos corredores, antes de ser autorizada a disputar uma série de partidas pela eliminatória olímpica.

As implicações da difusão do vírus, no entanto, causam preocupação em todo o mundo, mesmo em lugares nos quais ele ainda não se espalhou.

Em uma conversa telefônica na semana passada com importantes executivos do Manchester United –que conta com parceiros, torcedores e interesses financeiros no lucrativo mercado asiático—, um analista americano perguntou se o vírus teria algum efeito sobre os números do clube, que movimenta US$ 1 bilhão ao ano (R$ 4,44 bilhões).

“A situação é muito fluída”, respondeu Ed Woodward, vice-presidente do conselho e executivo do Manchester United, “e estamos acompanhando atentamente o que acontece”.

Tradução de Paulo Migliacci 

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