CPI da Chape quer recuperar mensagens apagadas de grupo de WhatsApp

Existência foi descoberta no celular resgatado de vítima do acidente de 2016

São Paulo

A CPI (Comissão Parlamentar de Inquérito) no Senado que apura o acidente com o voo da Chapecoense pôs em pauta nesta terça-feira (4) o convite para os depoimentos de Rogério Caboclo, presidente da CBF, e Rodrigo Ernesto de Andrade, sócio da Off Side Logística Esportiva.

A Off Side seria a responsável, segundo a comissão, por fazer a intermediação de serviços entre a empresa aérea LaMia e as entidades responsáveis pelo futebol brasileiro (CBF) e sul-americano (Conmebol).

voo 2933 da LaMia, que saiu de Santa Cruz de la Sierra, na Bolívia, caiu nos arredores de Medellín em 28 de novembro de 2016. Levava jogadores da Chapecoense, dirigentes, integrantes da comissão técnica e jornalistas. A equipe jogaria contra o Atlético Nacional (COL) pela final da Copa Sul-Americana. Entre passageiros e tripulantes, 71 pessoas morreram.

De acordo com o relator da CPI, o senador Izalci Lucas (PSDB-DF), é prioridade dos parlamentares saber mais sobre um grupo de WhatsApp que reunia diretores da Chapecoense, da LaMia e da Off Side, descoberto no celular recuperado de uma das vítimas do acidente. Todas as mensagens do grupo haviam sido apagadas.

“O requerimento para eles se apresentarem será colocado em votação. É um convite, teoricamente eles podem não vir, embora não seja a decisão mais correta. A gente tem conhecimento a respeito do grupo do WhatsApp e estamos tentando conseguir cópias dessas mensagens de alguma forma. A nossa ideia é reunir todos esses elementos”, disse o senador à Folha.

O grupo, chamado "Chapecoense x LaMia", tinha nove integrantes. Cinco deles morreram no acidente: o presidente do clube, Sandro Pallaoro, o diretor de futebol, Mauro Stump, o supervisor, Chinho Di Domenico, e o funcionário Décio Filho, além do piloto boliviano Miguel Quiroga.

Os aparelhos celulares deles foram recuperados pela equipe de resgate e entregues às seguradoras, conforme apurou a reportagem. Só depois foram devolvidos aos familiares.

Loredana e Ricardo Albacete (donos da aeronave), Marco Rocha (um dos proprietários da LaMia) e Andrade, da Off Side, também faziam parte do grupo.

Este último diz que a Off Side prestou serviços de tradução para a Chapecoense apenas até o voo anterior ao da final da Copa Sul-Americana, em outubro, quando o time brasileiro eliminou o Junior Barranquila (COL) nas quartas de final. A empresa faz toda a logística de viagens de equipes de futebol, transportes terrestres e hospedagens.

“Eu tenho participação em muitos grupos de WhatsApp, não me recordo de ter participado sobre assuntos referentes ao voo do acidente. Nesse voo trágico, a Chapecoense não precisou da minha empresa para nada”, disse Andrade.

A intenção é que Caboclo, apesar de ainda não ser presidente da CBF à época do acidente, possa esclarecer a atuação da entidade no episódio. A reportagem não obteve resposta da confederação até publicação desta reportagem.

Na primeira reunião da CPI, realizada nesta terça (4), advogados que representam familiares das vítimas e o ex-zagueiro Neto, um dos sobreviventes da tragédia, prestaram depoimento e foram sabatinados pelos senadores.

A maior discussão foi sobre quem teria indicado a LaMia, empresa boliviana sem tradição no mercado, para times de futebol na América do Sul. Os parlamentares acreditam que as conversas apagadas do WhatsApp possam ajudar a esclarecer se foi alguém ligado à Conmebol ou algum dirigente.

Famílias das vítimas ainda brigam na Justiça para receberem o seguro do voo. As ações são contra as resseguradoras Tokio Marine Kiln e Bisa, além da Aon, corretora da apólice.

Para tentar encerrar o assunto, a Tokio Marine Kiln estabeleceu o que chamou de “fundo humanitário”. Cada família que aceitou o acordo recebeu US$ 225 mil (R$ 959 mil em valores atuais) e se comprometeu a não pleitear mais nenhuma indenização.

As empresas alegam que a indenização original passou a ser nula porque a LaMia voou para a Colômbia, país vetado pelo seguro.

Os advogados das vítimas que não concordaram com os termos respondem que as empresas não só tinham conhecimento das viagens feitas pela companhia boliviana como fizeram apólice por valor menor do que o recomendado para voos que levam jogadores de futebol profissional.

Eles estimam que a indenização possa chegar a pelo menos US$ 2 milhões (R$ 8,5 milhões) caso vençam as ações.

Velório dos ocupantes do voo da Chapecoense na arena Condá, em Chapecó - Zanone Fraissat 3.dez.2016/Folhapress

“Aos poucos aparecem alguns elementos novos, não desconhecidos, mas que a CPI começa a dar voz, como essa empresa de logística. A gente vê que as coisas começam a se movimentar para chegar a soluções”, afirma Marcel Camilo, advogado que cuida dos interesses de nove famílias.

As defesas estiveram na Bolívia na semana passada para discutir com as autoridades do país a possibilidade de reabertura do caso, que prescreveu após três anos da tragédia.

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