Crise de gestão na elite do vôlei brasileiro gera calotes de clubes

Presidente do Maringá, Ricardinho volta às quadras aos 44 após debandada do elenco

Carlina Canossa
São Paulo

Um ano e meio após decidir parar de jogar vôlei profissionalmente, o levantador Ricardinho, 44, está de volta às quadras. Dada a qualidade técnica do jogador, campeão olímpico e bicampeão mundial pela seleção brasileira, o retorno poderia ser uma ótima notícia. Na verdade, é a face mais evidente da imensa crise que aflige clubes do país.

Ricardinho só decidiu retomar a carreira de atleta temporariamente porque o time do qual é presidente, o Maringá Vôlei (PR), há quatro meses não recebe repasses de seu patrocinador exclusivo, a empresa de treinamentos e consultoria Denk Academy.

Procurada, a empresa diz que irá regularizar os pagamentos a partir de março.

Ricardinho, 44, voltou a treinar para entrar em quadra pelo Maringá na Superliga 
Ricardinho, 44, voltou a treinar para entrar em quadra pelo Maringá na Superliga  - Thaís Pismel - 4.fev.20/Resenha Comunicação

Sem caixa até para despesas básicas, como segurança e iluminação dos jogos em casa, a equipe foi obrigada a encerrar um projeto social que atendia a 400 crianças e sofreu uma debandada de parte do elenco, obrigando o dirigente a exercer mais uma função.

“Estou tirando cartas da manga”, afirma à Folha Ricardinho, que passou os últimos dias buscando um aporte financeiro mínimo para o time, atualmente em zona de classificação para os playoffs, não ser obrigado a abandonar a competição. “Estou atrás de empresários locais e, inclusive, arrecadando de amigos e parentes que possuem negócios. Também aceitei a ajuda de uma vaquinha virtual feita pelos torcedores.”

O caso de Maringá não é o único no país mais dominante no vôlei masculino de seleções nos últimos anos.

Somente na atual Superliga, a última antes da Olimpíada de Tóquio, vieram à tona problemas financeiros de outras quatro equipes: o atual campeão, EMS Taubaté Funvic (SP), que abriga parte do elenco da seleção, incluindo o técnico Renan Dal Zotto, Botafogo (RJ), América Montes Claros (MG) e Ponta Grossa (PR).

Estes dois últimos times só puderam entrar na temporada porque se aproveitaram de uma brecha no regulamento que lhes permitiu levar débitos ainda não quitados para a esfera judicial e, assim, driblar um fair play financeiro implementado pela CBV (Confederação Brasileira de Vôlei).

Há quem tenha tomado calote de mais de uma equipe nos últimos meses. É o caso do oposto Fabrício Dias, mais conhecido como Lorena. Antes de chegar à equipe de Lavras (MG), da Superliga B, ele ficou sem receber no Botafogo e no Maringá.

“Dá dor de estômago falar de vôlei no Brasil. Enquanto não chegar alguém forte e falar para mudar, vai ser isso aí: cada um olhando para o seu umbigo. Ninguém se une para mudar essa bagunça”, diz.

Para ele, medidas impostas pela CBV na competição, como a posse dos direitos de imagens dos jogadores, concessão de apenas parte das placas de publicidades dos ginásios aos clubes e transmissão exclusiva dos jogos para TV sem repasse aos times estão na raiz do problema, já que impedem as equipes de terem outras fontes de renda.

“A CBV deveria cuidar das seleções e ponto, enquanto os clubes deveriam ter uma liga independente”, afirma Lorena, ressaltando que os times também possuem parcela de culpa. “Tem muitas pessoas envolvidas no voleibol que não sabem nada de alto rendimento, não estudaram, não jogaram e nem sabem fazer nada.”

O superintendente de competições de quadra da CBV, Renato D’Ávila, afirma que a entidade não tem controle nem poder fiscalizador sobre a saúde financeira dos clubes.

Em geral, os times masculinos sofrem mais que os femininos pois têm projetos menos consolidados e mais caros.

Entre as medidas da CBV estão o pagamento de passagens aéreas para todas as partidas fora de casa, ajuda de custo para alimentação e hospedagem e o custeio de gastos com arbitragem, bolas, pisos oficiais, além da cessão de cinco placas publicitárias por partida. 

“O que tem que crescer é o fortalecimento dos próprios clubes para terem várias fontes de receita e não estarem dependentes totalmente de apenas um patrocínio”, afirma o dirigente da confederação.

Sobre a brecha no regulamento que fez com que a CBV não pudesse cumprir o fair play financeiro nesta temporada, D’Ávila diz que a questão foi resolvida e não se repetirá.

André Heller (à esq.) e Ricardinho em jogo pela seleção brasileira em 2003
André Heller (à esq.) e Ricardinho em jogo pela seleção brasileira em 2003 - Alexandre Arruda - 09.jul.03/CBV

Sediado em Campinas (SP), o projeto do Vôlei Renata não tem o mesmo poder de fogo das principais equipes brasileiras, mas sempre pagou em dia e há dez anos incomoda os grandes clubes em quadra, tendo conquistado o vice da última edição do Campeonato Paulista e da Superliga 2015/2016.

Segundo o campeão olímpico André Heller, supervisor técnico da equipe, o fundamental é ter uma gestão profissional e pensar em novas formas de retorno para os patrocinadores, como entregas via projetos sociais.

Heller renunciou à presidência da comissão dos atletas da CBV após a suspensão do fair play financeiro. Apesar disso, diz ter uma relação saudável com a entidade e que as mudanças precisam partir dos times e atletas: “É leviano dizer que a CBV não ajuda em nada, pois os patrocinadores deles trazem muitos benefícios para os clubes, que precisam se reinventar. Quanto mais profissionais os clubes se tornarem, mais terão condições de questionar e demandar da CBV."

Com passagens pela seleção, o central Riad também aponta que os dirigentes poderiam se organizar para criar uma espécie de “poupança” a ser revertida em prol dos jogadores em caso de calote dos clubes.

“Na Liga Italiana, os times que se inscrevem na competição precisam depositar 300 mil euros porque, se der algum problema, há uma grana para dividir. Aqui também deveria ser assim”, declara o jogador, que antes de chegar a Taubaté viveu atrasos no extinto RJX, Corinthians e Botafogo.

A vontade de desistir acaba atingindo até nomes experientes, como o próprio Ricardinho, que conta estar vivendo como um zumbi por conta das preocupações trazidas pelas dívidas do projeto que administra há seis anos.

“Hoje eu estou bem baqueado, mas não tenho tempo para chorar. A ficha só vai cair quando acabar. Estou no meio do furacão e acreditando que conseguiremos chegar até o fim da Superliga sabendo que fiz o que podia. Mas será difícil eu permanecer como dirigente, pois realmente foi uma pancada”, encerra.

Sua volta às quadras deverá acontecer na próxima quarta (12), contra o Sesc, no Rio de Janeiro.

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