Descrição de chapéu Tóquio 2020

Megaoperação olímpica do Brasil exige cuidados com cavalos e barcos

Animais são acomodados de acordo com comportamento e não podem deitar no avião

São Paulo

Antes de embarcar em um avião, frascos grandes e objetos cortantes devem ser descartados. Para levar seu animal de estimação no voo, é necessário uma série de cuidados especiais. Como fazer, então, para atravessar o mundo carregando rifles, cavalos e barcos à vela?

Transporte de materiais é um dos desafios enfrentados na preparação logística dos países que irão aos Jogos Olímpicos de Tóquio, evento que começa em 24 de julho deste ano e termina no dia 9 de agosto. A o Paraolimpíada vai de 25 de agosto a 6 de setembro.

Até agora, o Brasil tem 170 atletas com vagas confirmadas na Olimpíada, dos quais 7 são representantes da seleção brasileira de hipismo. Por isso, o COB (Comitê Olímpico do Brasil) e a confederação da modalidade (CBH) já se mobilizam para definir os detalhes da viagem dos cavalos.

O comitê organizador dos Jogos disponibiliza uma empresa para fazer o traslado a partir de dois lugares, Bélgica e Estados Unidos, saindo em duas datas diferentes. Cabe aos países cuidar para que os animais cheguem até um desses dois pontos.

Antes de embarcar ao Japão, os cavalos, devidamente vacinados, ficarão sob uma quarentena de sete dias. Segundo o veterinário da seleção brasileira de salto desde 2010, Rogério Saito, a fase final da preparação para Tóquio será feita na Europa, mas o local da quarentena ainda não foi definido.

Os animais brasileiros embarcarão no voo que sairá da belga Liége. A aeronave viaja com cerca de 28 animais, separados em contêineres especiais, cada um com três cavalos.

“Temos garanhões, castrados, éguas no cio, cavalos bravos. Nós, veterinários, escolhemos o melhor esquema de colocar cada cavalo nesses contêineres. A gente tem o histórico de todos e os distribui. Os maiores problemas são garanhões bravos querendo morder éguas ou os que dão muitos coices”, explica Saito.

Um dos três profissionais que costumam acompanhar os animais no avião, ele conta que os ambientes são especialmente preparados, às vezes com colchões, para tentar evitar que o bicho se machuque.

Cada animal vai com roupagem específica. Alguns preferem usar capa, outros não. Eventualmente, é dada uma leve sedação, mas que não faça o animal dormir. A temperatura é mantida de 17°C a 19°C, para evitar gripes.

Um dos momentos mais perigosos é a entrada no contêiner. Os mais experientes entram de primeira, sem problemas. Os mais novos podem estranhar, se debater, relinchar ou tentar dar coices ou mordidas, com risco de se machucar ou ferir alguém da equipe.

“O cavalo também não pode deitar. Se deitar, vai ficar encurralado e não consegue levantar sozinho. Outro perigo é ter uma cólica", diz o veterinário, acrescentando que é normal para o animal, que dorme em torno de duas horas por dia, passar longos períodos em pé.

Ele afirma ainda que, após a viagem, os dois maiores problemas são a adaptação ao fuso —como humanos, eles sentem a mudança nos horários de alimentação, por exemplo— e o risco de ficarem prostrados após muito tempo em clausura.

“Eu ofereço muita água e feno, para eles ficarem distraídos. Fico com eles grande parte do voo, lá embaixo [no bagageiro da aeronave], distraindo os cavalos. Tento dar cenoura, trocar o feno, trocar a água, para eles ficarem a vontade”, completa.

Em Tóquio, a maior preocupação não será com nenhuma doença específica, como foi com o mormo na Rio-2016, mas sim com as temperaturas do verão japonês, que inclusive fizeram as provas do hipismo mudarem do dia para a noite.

Marlon Zanotelli, cavaleiro brasileiro, durante a final por equipes do salto do Pan de Lima, na qual o Brasil conquistou o ouro
Marlon Zanotelli, cavaleiro brasileiro, durante a final por equipes do salto do Pan de Lima, na qual o Brasil conquistou o ouro - Alexandre Loureiro - 7.ago.2019/COB

Na vela, a preparação começou há dois anos, já que alguns barcos que serão usados pelos velejadores chegaram ao Japão em 2018 e 2019. Eles estão estacionados em um galpão alugado pelo COB no país ou deslocados para competições preparatórias na região.

Para os Jogos de Tóquio, mais algumas embarcações ainda devem chegar ao país-sede, saindo de Barcelona e do Rio, onde ficam bases da Confederação Brasileira de Vela.

As viagens duram, respectivamente, cerca de 60 e 70 dias, e são feitas de navio. Para cada transporte, os barcos precisam ser totalmente desmontados e bem amarrados dentro de um contêiner.

“Após desembarcar e remontar os barcos, os velejadores precisam regular os mesmos, fazer algumas medidas e ajustes nas partes móveis e testar bastante na água. Isso pode levar de uma a duas semanas, dependendo da classe”, afirma Walter Böddener, gerente técnico da confederação.

O transporte de armas, que também tem sua complexidade, não deverá ser um problema para o Brasil, uma vez que o país ainda não classificou nenhum atleta de tiro esportivo para os Jogos e tem chances remotas de fazê-lo.

Para evitar problemas com as legislações de cada país, o comitê organizador dos Jogos cria um portal para que sejam cadastradas as armas de cada um dos atletas. Com os dados, é o comitê quem cuida dos trâmites legais para que o armamento tenha autorização para viajar.

Nesse portal, são detalhadas as especificações do objeto, assim como detalhes do avião em que o item, transportado em um embalagem especial, será despachado, conforme explicação de João Gabriel Pinheiro, da área de jogos e operações internacionais do COB.

"Quando o atleta chega à imigração, já sabem que ele tem armamento, fazem a inspeção, conferem o documento. Só que esse armamento vai direto para o local de competição, eles não ficam com armamento na vila ou no país", diz Pinheiro.

O COB, que deve levar 750 pessoas no total ao evento (dos quais cerca de 250 serão atletas), começou a preparação logística em 2017. Os brasileiros começarão a chegar ao país no dia 10 de julho. Ao desembarcar, passarão primeiro pela base de Ota, onde receberão seus uniformes e serão direcionados para base específica.

No total, o Brasil terá nove centros, além da Vila Olímpica, da vila de Sapporo e da vila de Izu (essas administradas pelo Comitê Olímpico Internacional).

O surfe, por exemplo, ficará num hotel em Chiba, próximo à praia de Tsurigasaki, onde acontecerão as provas do esporte estreante nos Jogos. O futebol, modalidade que mais viajará, descansará em Sagamihara, junto com o vôlei feminino e a natação.

A alimentação foi uma das principais preocupações, já que a culinária japonesa difere bastante do que os atletas do Brasil estão acostumados. Assim, todas as bases contarão com refeições próprias oferecidas pelo COB, que treinou cozinheiros locais para auxiliar no preparo.

Segundo Sebastian Pereira, gerente executivo de alto rendimento do comitê, o Brasil deverá importar arroz da Tailândia, mais solto que o tradicional japonês. Já o feijão será comprado no próprio país-sede.

"Mesmo na vila, com acesso à comida internacional, teremos em frente, na base de Chuo, um restaurante em que vamos montar uma cozinha brasileira para os atletas e oficiais que quiserem matar a saudade", conta Sebastian.

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