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Tóquio 2020 Coronavírus

Adiamento põe fim à tradição da Olimpíada, e negócios prevalecem

Decisão aponta que movimento olímpico, de fato, não está isolado da sociedade

Katia Rubio
São Paulo

Uma das imagens que mais admiro para definir a necessidade de resolver grandes problemas em curto tempo é a manobra de um transatlântico.

O profissional que conduz a manobra, chamado prático, é o senhor da embarcação nos momentos da chegada e da saída do porto. É maravilhoso uma embarcação com 18 andares atracando suavemente, mesmo depois de ter vencido mares revoltos.

Algumas instituições na atualidade nascem pequenas e despretensiosas, com propostas humanistas e cheias de boas intenções, e com o passar dos anos absorvem do momento histórico tudo aquilo que a sociedade é.

O movimento olímpico é assim. Nasceu para ser uma alternativa para a paz, uma linguagem de entendimento universal por meio do esporte. Aristocrático, ao longo do último século o Comitê Olímpico Internacional (COI) buscou ficar à margem das tensões políticas e econômicas internacionais para se firmar como uma instituição única no planeta.

Sobreviveu e se fortaleceu ao longo do século passado, chegando na atualidade a ser considerado uma das instituições mais sólidas do planeta, a ponto de determinar regras e limites para os países que desejam sediar a competição olímpica, interferindo até na soberania de alguns.

Tradição é a palavra que, até aqui, melhor definia tudo aquilo que circunda o patrimônio olímpico. Eric Hobsbawm afirma que as tradições foram inventadas pelos seres humanos para reforçar determinados pontos de vista, obviamente, quase sempre de quem detém o poder.

Pelo termo “tradição inventada” entende-se um conjunto de práticas, normalmente reguladas por regras tácitas ou abertamente aceitas. Tais práticas, de natureza ritual ou simbólica, visam inculcar certos valores e normas de comportamento por meio da repetição, o que implica, automaticamente, uma continuidade em relação ao passado.

Digo isso para que não se caia na tentação de comparar as competições atuais com aquelas que aconteciam na Grécia Helênica.

Em Olímpia, acontecia um dos Jogos Pan-Helênicos, os Jogos Olímpicos, um ritual religioso e atlético que celebrava Zeus, aquele que derrotou os titãs e superou o pai, Cronos.

Era um momento de confraternização entre as cidades-estados da Grécia, próximo da confluência dos rios Alfeus e Cladeos, no bosque sagrado Áltis. O calendário quadrienal fixo afirmou uma tradição que no presente foi resgatada como Olimpíada da Era Moderna, ou seja, o período de quatro anos que separa uma competição de outra. Mais do que a criação de uma tradição, criou-se assim um ritual.

Os Jogos Olímpicos atuais, criados por Pierre de Coubertin, tiveram como inspiração esse rico arsenal mítico. Importante destacar que a sociedade europeia do século 19 não guardava nenhuma relação com a sociedade helênica.

Em poucas décadas, uma simples competição esportiva tornou-se um dos negócios mais rentáveis do mundo. Daí a importância de citar o sociólogo francês Jean Marie Brohm, que afirma serem fenômenos distintos. Guardam a mesma forma, porém não o mesmo conteúdo.

Nas últimas semanas, assistimos a um embate que colocava em risco uma tradição olímpica: o adiamento dos Jogos de 2020 para 2021 em função da pandemia da Covid-19.

Em nenhum momento anterior da história isso havia acontecido. Só mesmo as duas Grandes Guerras Mundiais foram capazes de provocar a suspensão dos Jogos, muito embora as Olimpíadas tenham sido contadas.

Contagem para os Jogos Olímpicos de Tóquio é interrompida a 122 dias do evento
Contagem para os Jogos Olímpicos de Tóquio é interrompida a 122 dias do evento - Issei Kato/Reuters

O anúncio do adiamento dos Jogos Olímpicos do Japão para 2021 aponta que o movimento olímpico, de fato, não é uma instância isolada da sociedade. Enfrenta os mesmos problemas que afetam a todas as instituições: a fragilidade dos corpos, as disputas por poder, a corrupção e a finitude.

Os Jogos Olímpicos do passado podiam ser uma celebração aos deuses, mas sem a presença humana não há manifestação possível. Mais de 20 séculos depois, essa afirmação permanece atual. Os Jogos foram suspensos, apesar de todo o prejuízo material, porque a vida dos seres humanos, atletas e público, estaria em risco.

Com isso, quebra-se um rito. O calendário olímpico divino será celebrado em um ano ímpar, preservando a competição, os negócios, a satisfação dos atletas e do público. Ganham todos os que vivem a paixão pela competição. Perde o símbolo afirmado pela tradição, esvaziando-se assim da pregnância mítica construída séculos antes de Cristo.

Os Jogos de Tóquio 2020 a serem realizados em 2021 entrarão para a história como o cumprimento de um calendário ditado pela força do mercado e do capital. Perde-se um ciclo olímpico, ou seja, uma Olimpíada, e ganha-se apenas mais um evento esportivo de caráter global com os cinco anéis.

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