Cartola renuncia após federação dos EUA menosprezar suas jogadoras

Entidade disse ser preciso mais responsabilidade para jogar na seleção masculina

Kevin Draper Andrew Das
The New York Times

Carlos Cordeiro, o presidente da federação de futebol dos Estados Unidos (US Soccer), renunciou na noite de quinta-feira (12), poucos dias depois de a organização ter afirmado em documentos judiciais que “ciência indisputável" provava que as jogadoras da seleção feminina de futebol do país, ganhadora da última Copa do Mundo, eram inferiores aos homens.

Diante de protestos das jogadoras da seleção feminina em campo, de críticas de importantes patrocinadores da federação, e da reprovação de membros do conselho de diretores da US Soccer, Cordeiro decidiu que sua posição era insustentável.

“Minha primeira e única missão sempre foi fazer o que é melhor por nossa federação, e se tornou claro para mim que o melhor agora é uma nova direção”, ele escreveu no comunicado em que anunciou sua renúncia.

O anúncio veio 24 horas depois que Cordeiro tentou conter a reação adversa ao pedir desculpas por uma série de petições judiciais, no processo das jogadoras da seleção feminina por discriminação de gênero e igualdade no pagamento.

Nos documentos, os advogados da federação argumentavam que era preciso mais “técnica” e “responsabilidade” para jogar na seleção masculina do que na seleção feminina.

Megan Rapinoe (à dir.) e suas colegas de seleção americana vestidas com a camisa do lado avesso como forma de protesto contra a federação de seu país antes de partida contra o Japão
Megan Rapinoe (à dir.) e suas colegas de seleção americana vestidas com a camisa do lado avesso como forma de protesto contra a federação de seu país antes de partida contra o Japão - Jerome Miron - 11.mar.20/USA Today Sports

Os argumentos, apresentados em um momento de distanciamento cada vez mais incontornável entre as jogadoras e a US Soccer, que se preparam para o julgamento do processo em maio, enfureceu as futebolistas e também pelo menos três dos poderosos membros do conselho da federação.

“Ver misoginia e sexismo gritantes nos argumentos usados contra nós foi realmente decepcionante”, disse a meio-campista Megan Rapinoe depois da vitória da seleção americana sobre o Japão, por 3 a 1, na SheBelieves Cup, organizada pela US Soccer, na quarta-feira (11).

“Sei que estamos envolvidos em uma disputa contenciosa”, disse Rapinoe em conversa com jornalistas em Frisco, Texas, “mas o que eles afirmaram ultrapassou completamente os limites”.

Chris Ahrens, antigo atleta paraolímpico, se declarou “profundamente perturbado, entristecido e zangado com os comentários” e solicitou uma reunião com os líderes da federação e com os integrantes de sua equipe judicial.

Don Garber, comissário da Major League Soccer, a principal liga de futebol masculino dos Estados Unidos, e membro veterano do conselho da US Soccer, anunciou em comunicado que havia expressado a Cordeiro “o quanto considerei inaceitáveis e ofensivas as declarações que constam daquela petição”.

Cindy Cone, vice-presidente da federação e ex-jogadora da seleção feminina de futebol americana, declarou na quinta-feira que estava “ferida e triste pela petição apresentada pela federação”. Ela acrescentou que desautoriza "essas declarações perturbadoras”.

Cone, eleita para a vice-presidência no ano passado, substituirá Cordeiro.

Rapinoe afirmou que as petições, apresentadas por alguns dos advogados que encararão as jogadoras durante as negociações do contrato coletivo de trabalho da seleção feminina, no ano que vem, haviam causado “dano irreparável” ao relacionamento entre a equipe e a US Soccer. Mas também parecem ter prejudicado o importante relacionamento entre a federação e seus patrocinadores.

Coca-Cola, Budweiser, Visa e Deloitte –esta última a principal patrocinadora da SheBelieves Cup– condenaram a US Soccer por ter aprovado os argumentos apresentados na petição.

A Volkswagen declarou na quinta-feira sua “repulsa” à posição assumida pela federação. “É simplesmente inaceitável” a companhia afirmou em comunicado, acrescentando que “mantemos nosso apoio à seleção feminina dos Estados Unidos e aos ideais que ela representa para o mundo”.

A Nike, que pagou US$ 22 milhões à federação no ano passado e é seu maior patrocinador, ainda não se pronunciou a respeito do caso.

Megan Rapinoe durante aquecimento antes de jogo na Copa do Mundo de 2019
Megan Rapinoe durante aquecimento antes de jogo na Copa do Mundo de 2019 - Franck Fife/AFP

Não é a primeira vez que a luta pela igualdade no pagamento vê os patrocinadores se alinharem com as jogadoras e em oposição à federação que bancam. A Procter & Gamble instou a US Soccer a se colocar “do lado certo da história”, na disputa, e doou mais de US$ 500 mil à associação das jogadoras da seleção feminina. Na época, Nike e Visa também expressaram apoio às jogadoras.

As jogadoras também se manifestaram na quarta-feira. Antes da partida contra o Japão, elas entraram em campo para o reconhecimento do gramado usando seus agasalhos de aquecimento do avesso –obscurecendo o brasão da US Soccer e o logotipo da Nike, e deixando visíveis apenas as quatro estrelas que representam os quatro títulos de Copa do Mundo conquistados pela equipe.

“Creio que isso tenha servido como uma mensagem poderosa sem que precisássemos enviar uma mensagem”, disse a atacante Carli Lloyd, depois da vitória, respondendo a perguntas diante de um pano de fundo que portava os logotipos da Coca-Cola, Budweiser, Visa, Nike e outros patrocinadores.

Ela acrescentou que “não queremos estar nessa posição, mas é onde estamos, e as coisas simplesmente precisam melhorar”.

Antes do final da noite, o símbolo com as quatro estrelas mas sem o brasão da federação já estava presente nos avatares de torcedores na mídia social e em camisetas licenciadas pela união das jogadoras.

A petição, apresentada na noite de segunda-feira, buscava refutar uma petição da seleção feminina por um julgamento parcial sumário quanto à questão da igualdade na remuneração. No documento, a US Soccer argumentava que “o trabalho dos jogadores da seleção masculina representa maior responsabilidade, dentro da US Soccer, do que o trabalho das jogadoras da seleção feminina”, em referência às reivindicações das mulheres sob a lei da igualdade de pagamento.

Os advogados argumentaram também que o trabalho de um jogador da seleção masculina “requer nível mais alto de talento, baseado em força e velocidade”.

Julie Foudy, comentarista da ESPN e antiga jogadora da seleção feminina, criticou a federação na televisão, no intervalo da partida, e citou especificamente Cordeiro.

“O que alguém lá não percebeu –e se essa pessoa foi Carlos Cordeiro, temos problemas mais graves a encarar– é o dano que a petição causaria”, disse Foudy. “E não só às jogadoras, mas aos patrocinadores, ao sentimento do público, aos torcedores, a todos os envolvidos no esporte, quando eles basicamente afirmam que ‘vocês não são tão boas quanto eles, e agora dissemos isso abertamente; vocês são menos merecedoras’”.

Depois de dois dias de ataques por jogadoras, patrocinadores e torcedores, a US Soccer parece ter percebido que afirmações que seus advogados acreditavam serem argumentos legais vencedores não serão necessariamente bem recebidas em um caso de grande destaque no qual cada petição é dissecada em público imediatamente.

Antes de sua renúncia, Cordeiro disse que a federação havia contratado um escritório de advocacia –que curiosamente havia sido parte de uma disputa anterior com as jogadoras sobre igualdade no pagamento– para fazer parte da equipe de defesa da federação no caso de discriminação por gênero, “e para orientar nossa estratégia judicial daqui por diante”.

Tradução de Paulo Migliacci

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