Coronavírus pressiona Olimpíada e esquenta debate sobre sua realização

Reunião da Organização Mundial de Saúde discutiu eventos sem público

Matthew Futterman Tariq Panja Andrew Keh
The New York Times

É uma escolha sobre a qual ninguém no movimento olímpico deseja falar, mas está cada vez mais presente: uma Olimpíada de Tóquio disputada sem torcedores, com apenas 10 mil atletas competindo diante de mares de assentos vazios.

Com a difusão continuada do coronavírus, e um total de mais de três mil mortes e mais de 90 mil casos da doença documentados em todo o mundo, eventos esportivos sem a presença de torcedores estão a caminho de se tornar a nova norma.

Os torcedores não puderam assistir a uma etapa da Copa do Mundo da União Internacional de Biatlo, na República Tcheca, iniciada na quinta-feira (5). Na Itália, a principal liga de futebol do país teve neste final de semana jogos disputados em estádios vazios, sem torcida.

Nesta segunda (9), o governo italiano decretou a suspensão das atividades esportivas no país. Como medida de segurança diante da epidemia do novo coronavírus, o primeiro-ministro Giuseppe Conte paralisou as competições “em todos os níveis” ao menos até o dia 3 de abril.

Na Inglaterra, onde os clubes da Premier League foram instruídos a evitar as trocas de apertos de mão que costumam acontecer antes dos jogos, também surgiram instruções para que eles se preparassem para disputar partidas sem torcedores.

Mas a maior questão no calendário esportivo de 2020 continua a ser a Olimpíada no Japão, prevista para começar no dia 22 de julho. Na semana retrasada, a Organização Mundial da Saúde (OMS) realizou uma conferência telefônica com dezenas de dirigentes de saúde das federações esportivas internacionais que comandam as provas na Olimpíada.

A discussão girava em torno dos piores cenários possíveis nos Jogos Olímpicos, e dos riscos e benefícios de uma Olimpíada disputada sem torcida, de acordo com diversas pessoas informadas sobre a conversa, que durou quase duas horas, todas as quais pediram que seus nomes não fossem mencionados porque não estavam autorizadas a falar publicamente sobre uma conversa que a OMS caracterizou como privativa.

Realizar torneios sem a presença de torcedores, com apenas dirigentes esportivos e jornalistas como espectadores, foi uma das opções discutidas para administrar os grandes eventos esportivos marcados para as semanas e meses que antecedem os jogos.

De acordo com as fontes, um especialista da OMS que participou da discussão disse que a coisa mais importante seria criar um processo de filtragem de participantes –atletas, torcedores e outros– e preparar um perfil de risco de países e regiões.

Os participantes da conversa também discutiram os diferentes perfis de risco de esportes disputados a céu aberto e em ambientes fechados, bem como os de esportes de contato e esportes sem contato.

Tarika Jasarevic, porta-voz da OMS, se recusou a comentar sobre a conversa porque “a teleconferência não era pública”. Mas ele disse que o papel da OMS não é cancelar (ou permitir) qualquer evento esportivo, e sim simplesmente “oferecer orientação e recomendações de saúde pública racionais e de base científica”.

Pessoas usam máscaras ao andar pelas ruas de Tóquio, cidade que sediará os Jogos Olímpicos de 2020
Pessoas usam máscaras ao andar pelas ruas de Tóquio, cidade que sediará os Jogos Olímpicos de 2020 - Edgard Garrido/Reuters

Na quarta-feira, Thomas Bach, o presidente do Comitê Olímpico Internacional (COI), disse que a organização não havia mencionado as palavras “cancelamento” ou “adiamento” nos dois dias de reunião de seu conselho executivo em Lausanne, Suíça. Bach disse que o COI seguiria a orientação da OMS., sediada em Genebra.

Ainda não está claro como qualquer decisão sobre a Olimpíada transcorreria se as autoridades de Tóquio concluírem que precisam alterar os planos para os jogos. Seiko Hashimoto, a ministra das Olimpíada japonesa, disse esta semana que a posição do país era a de que, desde que Tóquio realize os jogos em 2020, o COI não os cancelaria.

O contrato de 80 páginas entre o Comitê Olímpico Japonês, a Prefeitura de Tóquio e o COI assinado em 2013 obriga os organizadores locais a preparar as competições, vender ingressos, atender os torcedores e oferecer diversas outras amenidades –e seus termos aparentemente permitiriam que o COI pressione contra qualquer plano de realizar a Olimpíada sem espectadores.

Mas o contrato entre o COI e a cidade-sede também confere aos organizadores direitos amplos para cancelar a Olimpíada em caso de guerra ou outras formas de distúrbios civis, ou caso eles acreditem, nas palavras do contrato, que “a segurança dos participantes dos jogos seria seriamente ameaçada ou colocada em risco, por qualquer que seja o motivo”.

Nem Bach e nem as autoridades de Tóquio estabeleceram um cronograma para decidir se os Jogos Olímpicos acontecerão ou não.

Um dirigente sênior da Olimpíada de Londres em 2012 disse que planos de contingência haviam sido preparados para que aqueles jogos acontecessem sem a presença de torcedores, em caso de acontecimentos inesperados ou ataques terroristas.

De acordo com os planos, o primeiro grupo a ser proibido de comparecer seriam os espectadores, seguidos por membros não essenciais da equipe organizadora, e depois por outros grupos, até que apenas jornalistas e os responsáveis por realizar os eventos estivessem presentes.

Realizar a Olimpíada sem espectadores, e ter de restituir o dinheiro da venda de ingressos, poderia custar cerca de US$ 850 milhões aos organizadores dos Jogos de Tóquio, de acordo com documentos orçamentários dos organizadores do evento.

Um porta-voz do Comitê Olímpico e Paralímpico dos Estados Unidos disse que a organização estava dialogando com seus atletas, patrocinadores e outras partes interessadas, sobre diversos planos alternativos para a Olimpíada.

Essas conversações estão sendo dirigidas pelo novo vice-presidente de medicina do comitê, o médico Jonathan Finnoff, que começou na organização em janeiro, no momento em que o surto do coronavírus estava surgindo.

Finnoff, que era diretor médico do Centro de Medicina Esportiva da Clínica Mayo, em Minnesota, trabalhou com a Associação de Esqui e Snowboard dos Estados Unidos e assistiu às duas últimas Olimpíadas de inverno.

A delegação americana que irá a Tóquio pode chegar a 10 mil pessoas, incluindo atletas, treinadores, equipes de apoio, amigos, parentes, doadores e patrocinadores.

A preocupação mais imediata, de acordo com dirigentes esportivos americanos e internacionais, são as provas qualificativas para a Olimpíada, diversas das quais já foram canceladas ou adiadas, o que causou sérios problemas no processo de seleção dos atletas e equipes que representarão o país nos Jogos.

Nos Estados Unidos, os atletas dos saltos ornamentais e tênis de mesa podem perder a oportunidade de se qualificar, e os últimos eventos qualificativos para a Olimpíada, marcados para junho em Taiwan, também podem estar sob ameaça.

Sem as seletivas finais, os dirigentes podem ter de recorrer a rankings sazonais para determinar quem participará dos Jogos. Isso pode levar à exclusão de atletas da delegação, e a queixas de último minuto ao Tribunal Arbitral do Esporte, em busca de vagas na Olimpíada.

À medida que o prazo que nos separa dos jogos se reduz –e enquanto o tribunal lida com a elegibilidade dos atletas russos apanhados em um escândalo de doping—, não está claro se os juízes teriam tempo para decidir sobre quaisquer contestações ao método de seleção adotado.

Tradução de Paulo Migliacci 

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