Descrição de chapéu
Tóquio 2020

Faltou fogo e óleo ao uniforme amazônico do Brasil para Tóquio-2020

Internet comparou vestimenta da delegação brasileira com look de Agostinho Carrara

São Paulo

Não dava mesmo para esperar novidade do uniforme que os atletas brasileiros devem vestir na abertura dos Jogos Olímpicos de Tóquio. Se o da Olimpíada do Rio, em 2016, que, em tese, deveria ser o ápice do esmero criativo e virou uma mal ajambrada combinação de terninho da firma com saída de banho, o novo não passa de uma tentativa frustrada de mostrar ao mundo que, por aqui, vai tudo bem, obrigado.

Mas nada vai bem, e o noticiário recente não deixa dúvidas, para as helicônias e alocásias amazônicas estampadas na camisa que o ginasta Arthur Nory exibiu na foto divulgada pelo Comitê Olímpico do Brasil semana passada.

Nem para os peixes desenhados na mesma roupa, assinada pela grife carioca Wöllner, que seriam inspirados nas carpas cujo simbolismo, na cultura japonesa, é de superação.

O ginasta Arthur Nory com o uniforme que a delegação brasileira usará nos Jogos Olímpicos de Tóquio
O ginasta Arthur Nory com o uniforme que a delegação brasileira usará nos Jogos Olímpicos de Tóquio - Divulgação/Twitter do Time Brasil

Por mais que a palavra carregue significado inerente ao evento esportivo, não vai ser uma estampa, que a internet logo comparou às dos looks usados pelo malandro Agostinho Carrara, do seriado “A Grande Família” (TV Globo), que ajudará o mundo a superar os retratos da floresta em chamas e da vida marinha banhada em óleo e, em vez deles, engolir o do Brasil rico por natureza.

Conseguiu-se no último ano fazer com que dois dos maiores e belos clichês nacionais virassem símbolos trágicos de nossa incompetência. Não haveria hora pior para usá-los, por melhores que tivessem sido as intenções dos designers da marca escolhida.

Parece ter faltado criatividade ao comitê já na escolha da etiqueta. Se a ideia era reproduzir o espectro ensolarado do país e, de alguma forma, prestigiar a próxima sede olímpica, a marca carioca Osklen poderia levar bom senso ao look olímpico.

Conhecida dos japoneses, para os quais ainda vende, a grife muitas vezes mescla a desconstrução da moda japonista dos 1980 com clichês tropicais, do samba à floresta. Faria alfaiataria de qualidade, não cairia na previsibilidade de usar todas as cores da bandeira e entregaria uma mensagem de consciência ambiental se escolhesse costurar algum de seus tecidos sustentáveis.

Arthur Nory, da ginástica artística, com o uniforme que os atletas da delegação brasileira usarão na Olimpíada no Japão
Arthur Nory, da ginástica artística, com o uniforme que os atletas da delegação brasileira usarão na Olimpíada no Japão - Divulgação/Twitter do Time Brasil

Indo mais além nas hipóteses, faria bem ao país se o COB levasse em conta que São Paulo abriga a maior comunidade japonesa fora do Japão –são quase 900 mil só no estado– e escolhesse um entre as dezenas de bons estilistas cujas famílias têm origem no país asiático.

Alex Kazuo, Fernanda Yamamoto, Karen Fuke, Cynthia Hayashi, só para citar os nipo-brasileiros mais incensados, e também metade dos ateliês do Bom Retiro, na região do comércio popular paulistano, ofereceriam um recado de diplomacia único para os milhões atentos à cerimônia.

Talvez um desses nomes lembrasse que a cultura brasileira, por mais verde-amarela que se desenhe nos programas de governo, é um patchwork estético. Quão simbólico seria ver tecidos o abstracionismo de Tomie Ohtake (1913-2015) ou as pinceladas em têxtil de Manabu Mabe (1924-1997).

Mas, se a ideia era mesmo copiar o look do Time Brasil na Rio-2016, pelo menos ele poderia vir atualizado no desfile de 24 de julho. É que faltou o fogo, vermelho-amarelo, e o óleo, preto furta-cor, para deixá-lo a caráter. Este da foto, no atual cenário, soa apenas como mais uma notícia falsa.

Delegação brasileira desfila na cerimônia de abertura da Rio-2016
Delegação brasileira desfila na cerimônia de abertura da Rio-2016 - Stoyan Nenov - 5.ago.16/Reuters
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