Fifa planeja grande fundo de emergência contra efeitos do coronavírus

Segundo balanço, entidade que comanda futebol tem R$ 14 bilhões no caixa

Tariq Panja
The New York Times

Diante das crescentes preocupações e de atualizações diárias sobre a crise gerada pelo coronavírus no setor mundial de futebol, a Fifa está preparando planos para um fundo de socorro de emergência no valor de centenas de milhões de dólares.

O fundo, caso venha a ser aprovado pela liderança do futebol mundial, representaria a maior resposta de qualquer grande organização esportiva ao impacto do coronavírus.

Como em outras partes da economia mundial, as restrições ao movimento adotadas para impedir a difusão da doença paralisaram o fluxo de caixa de um negócio no qual o planejamento financeiro de longo prazo é tipicamente tratado como um luxo, com as receitas de bilheteria, os direitos de transmissão televisiva e a receita de patrocínio dedicados primordialmente a bancar os salários dos jogadores e as contratações no mercado de transferência.

Isso levou diversas federações, clubes e ligas a já se declararem em estado de crise financeira. Esta semana, o MSK Zilina, clube sete vezes campeão da Eslováquia, declarou falência, e a federação uruguaia licenciou 400 empregados, porque todas as atividades futebolísticas foram suspensas no país.

Mesmo os maiores clubes não estão imunes à primeira paralisação desse tipo desde a Segunda Guerra Mundial. O Barcelona e a Juventus anunciaram cortes nos salários de seus elencos multimilionários, e outros clubes seguiram seu exemplo.

A escala da crise colocou em destaque uma carta enviada aos integrantes da Associação dos Clubes Europeus, que congrega mais de 200 clubes europeus de primeira linha, pelo presidente da entidade, Andrea Agnelli.

“Somos todos executivos de futebol responsáveis pelo bem-estar e pela sustentabilidade dos clubes que administramos, que estão diante de uma verdadeira ameaça à sua existência”, afirmou Agnelli, também presidente da Juventus, clube que já foi campeão italiano 35 vezes.

“O futebol está paralisado, e o mesmo se aplica aos fluxos de receita dos quais dependemos para pagar nossos jogadores, funcionários e outras despesas operacionais. Ninguém está imune, e agir na hora certa é essencial. Resolver essas preocupações será o maior desafio que nosso esporte e nosso setor já enfrentaram”.

Agora, dirigentes da Fifa querem tirar vantagem de uma das maiores reservas de caixa entre as organizações esportivas mundiais e usá-la para proteger algumas das partes mais prejudicadas do setor, uma ação semelhante às medidas que governos de todo o mundo tomaram para escorar partes de suas economias diante da pandemia, de acordo com as fontes, que se recusaram a falar publicamente porque ainda não existe acordo formal sobre o plano.

O italiano Gianni Infantino, presidente da Fifa, discursa durante evento conjunto com a OMS (Organização Mundial da Saúde) sobre medidas para o combate ao coronavírus
O italiano Gianni Infantino, presidente da Fifa, durante evento conjunto com a OMS (Organização Mundial da Saúde) sobre medidas para o combate ao coronavírus - 23.mar.20/AFP

De acordo com seu mais recente balanço anual, publicado no ano passado, a Fifa dispunha de reservas de caixa de US$ 2,74 bilhões (R$ 14,24 bilhões). A organização está considerando colocar algumas dessas reservas em uso em um esforço para escorar a economia combalida do futebol, e também está disposta a tomar empréstimos garantidos por futuras receitas televisivas e de patrocínio a fim de levantar dinheiro para aquilo que vem sendo descrito internamente como um “fundo de socorro ao futebol”.

O fundo exigiria aprovação do Conselho da Fifa, um órgão de 36 membros formado por dirigentes futebolísticos das seis confederações regionais do esporte, antes que os planos possam ir adiante.

O fundo seria administrado de maneira diferente do que a estrutura atual de desenvolvimento da Fifa, sob a qual a administração da organização tem o compromisso de desembolsar US$ 6 milhões a cada ciclo de quatro anos para cada uma das 211 federações filiadas, não importa quais sejam seus tamanhos e suas necessidades.

Dirigentes da Fifa, sediada em Zurique, estão atualmente fazendo uma avaliação do impacto de curto e médio prazo do coronavírus sobre o futebol mundial, a fim de determinar como a organização pode ajudar as federações integrantes, e quem se encarregará de atuar como uma central para as solicitações de assistência nacionais. O fundo poderá oferecer empréstimos ponte para cobrir déficits e até doações de verbas. Há preocupações quanto à possibilidade de que o dinheiro não seja destinado àqueles que mais precisam, e de que seja usado indevidamente, mas a urgência da situação fez dessa preocupação uma questão secundária, de acordo com uma das pessoas informadas.

O fundo de socorro, de acordo com o plano, seria administrado independentemente da liderança da Fifa a fim de evitar o risco de que seja contaminado pelas questões de política esportiva que há muito agitam o mundo do futebol. As relações entre a Fifa e alguns líderes regionais do futebol se amargaram quando o presidente da organização, Gianni Infantino, agiu para expandir a influência da Fifa para além do futebol de seleções e do desenvolvimento do esporte, e rumo ao futebol de clubes.

No entanto, a crise atenuou algumas dessas tensões, por enquanto, com as partes interessadas no esporte se unindo para discutir ideias de como lidar com o impacto da paralisação do futebol. Na semana passada, representantes das grandes ligas nacionais, clubes, confederações nacionais e sindicatos de jogadores se uniram à Fifa para discutir a definição de diretrizes sobre como lidar com as questões mais prementes.

Tradução de Paulo Migliacci

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