Descrição de chapéu Copa Libertadores 2020

Gre-Nal inédito na Libertadores é verdadeiro teste para cardíacos

Tricolor e colorada já passaram por situações delicadas na torcida por seus times

Porto Alegre

A conversa tem um tom familiar entre aqueles que enfrentam alguma condição cardíaca. “Tu tens desfibrilador no coração?”, pergunta o engenheiro Luiz Felipe Sana, 68, gremista. “Ainda não”, responde a comerciante Tânia Beatriz Lopes, 53, colorada. “Então, sou o teu futuro”, brinca o tricolor.

O diálogo entre os dois, nos corredores do Hospital Moinhos de Vento, em Porto Alegre, revelou que, apesar de serem torcedores fanáticos de times adversários, eles têm algo em comum: já passaram por situações delicadas envolvendo seus corações e a emoção de acompanhar jogos da dupla Gre-Nal.

Nesta quinta-feira (12), às 21h (com transmissão do Facebook), Grêmio e Inter se enfrentam pela segunda rodada da fase de grupos da Copa Libertadores, num clássico inédito pelo maior torneio sul-americano e com ingressos já esgotados na arena gremista.

O Gre-Nal, além de deixar a cidade colorida de azul e vermelho, põe em alerta os cardiologistas que tratam de pacientes torcedores.

“Existe essa associação entre futebol e problemas cardíacos, com casos de morte súbita. Pesquisadores europeus constataram que há uma morte súbita a cada 580 mil espectadores. Imagine, no Brasil, uma rodada com dez partidas e que cada uma levasse 50 mil pessoas para o estádio. Dá quase uma morte súbita por rodada”, diz Leandro Zimerman, chefe do setor de arritmias cardíacas do Moinhos de Vento.

Só na Copa do Mundo de 2014, realizada no Brasil, houve dois casos de mortes após infartos em estádios. No ano passado, um torcedor do Atlético-MG morreu durante clássico contra o Cruzeiro pelo Brasileiro. Há vários exemplos país afora.

O gremista Sana recorda o momento em que virou torcedor do clube, apesar de ser de família colorada. O garoto passava boa parte do tempo na loja do tipo “secos e molhados” do seu padrinho, em Encantado, cidadezinha a 105 km de Porto Alegre e que atualmente tem cerca de 23 mil habitantes.

“A gente passava a tarde abrindo caixas de produtos que chegavam”, relembra. Um dia, as caixas continham mercadorias especiais: uniformes completos do Grêmio. O menino de seis anos foi conquistado com calção, camiseta, meias, chuteiras e uma bola.

Em 2014, seu cardiologista concluiu que ele precisaria implantar um desfibrilador no coração. O aparelho o salvou de pelo menos um dos episódios mais críticos que vivenciou assistindo aos jogos do Grêmio.

“Ele tem um aparelho implantado de baixo da clavícula esquerda, com um cabo dentro do coração. Na hora em que, porventura, tiver uma parada, o desfibrilador dá um choque. Já aconteceu isso”, explica Zimerman, que também é médico do gremista.

Um dos casos ocorreu na final da Libertadores de 2017, quando o time tricolor enfrentou o Lanús (ARG). “Foi em um dos gols do Fernandinho. Caí no chão da sala, me agarrei na perna da mesa. Quando consegui levantar, apaguei as luzes e desliguei a TV. Tomei calmante e liguei para minha esposa”, conta.

“É como se ele tivesse morrido assistindo ao jogo, e o aparelho o salvou. Meu estilo de médico é mais liberal, recomendo tocar a vida com normalidade. Mas, se a cada jogo do Grêmio tiver parada, numa dessas o aparelho não resolve. Então, ele não pode assistir”, explica o médico.

O gremista passou por outra situação delicada acompanhando uma partida do Grêmio. O jogo era contra o São Paulo, em 2018. “Subiu um calorão, minha visão ficou turva”, relata. Desde então, não acompanha mais as partidas e procura ver filmes enquanto os jogos passam na televisão, o que pode se repetir na noite deste Gre-Nal, para saber o placar da partida apenas quando ela já acabou.

“Mesmo assim, escuto o som dos fogos de artifício dos vizinhos, então sei que tem alguma coisa acontecendo em campo”, diz. Os vídeos dos melhores lances ele vê no dia seguinte, no noticiário esportivo.

Enquanto o torcedor tricolor optou por seguir as recomendações dos especialistas, a colorada Lopes continua frequentando os jogos do Inter e chega a trocar de médico quando percebe que eles vão recomendar que ela evite acompanhar as partidas. "Mas é claro que sim! Já basta na minha casa, em que pedem para eu não assistir”, justifica.

Lopes usa pulseira, brinco, tênis, bolsa, óculos e batom na cor vermelha. “Já nasci colorada”, diz.

A comerciante saiu de ambulância do estádio duas vezes e perdeu a conta de em quantas passou mal. O diagnóstico de hipertensão, uma condição que faz com que o coração precise se esforçar mais para distribuir o sangue, veio há cerca de 20 anos.

Mesmo assim, ela não renunciou ao futebol. A colorada toma medicação diariamente e chegou a procurar uma neurologista em 2016. “Eu acordava no meio da noite ansiosa. Ficava sem ar, me levantava da cama e ia para a cozinha para me acalmar. Contei tudo para a doutora."

Enquanto conversava com a paciente, a médica perguntou se ela passava por problemas familiares ou financeiros. Com a resposta negativa, quis saber, então, o que a deixava aflita. “Daí respondi que estava sofrendo com o risco de o Inter ser rebaixado, o que de fato aconteceu”, recorda.

“Já teve jogo que passei mal a ponto de não conseguir formular uma frase, a visão ficar embaçada e eu sentir dormência nos braços”, diz Lopes. Seus filhos e marido se preocupam. “Eles dizem que vou acabar morrendo no Beira-Rio. Mas, para mim, o melhor lugar para morrer é lá."

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