Migração e luto marcam história de adversário peruano do São Paulo

Jogador do Binacional morreu em acidente de carro na reta final da temporada 2019

São Paulo

Entre as equipes que integram o Grupo D da Copa Libertadores, só há uma que nunca foi campeã do torneio. Nem poderia ter sido. Fundado em 2010, o Deportivo Binacional, do Peru, faz sua estreia no torneio continental como o estranho no ninho ao lado de River Plate (4 títulos), São Paulo (3) e LDU (1).

Nesta quinta-feira (5), às 21h, o clube peruano recebe o clube do Morumbi, em Juliaca, no jogo mais importante de sua curta história.

O Deportivo Binacional comemora o título de campeão peruano de 2019
O Deportivo Binacional comemora o título de campeão peruano de 2019 - Facebook do Binacional

Com apenas uma década de existência, o Binacional surgiu na cidade de Desaguadero, que fica na fronteira do Peru com a Bolívia, banhada pelo lago Titicaca. Isso explica o nome do time, uma homenagem ao seu berço geográfico. Aliás, é muito mais fácil ir de carro até La Paz (cerca de 2 horas) do que viajar até Lima (aproximadamente 20 horas).

Em 2017, a equipe conquistou o título da Copa Peru, competição que reúne aproximadamente 20 mil times do país. O inusitado do torneio é o prêmio que ele dá ao campeão: o salto direto do amadorismo para a primeira divisão nacional.

Durante essa aventura na elite do futebol peruano, o Binacional precisou mandar seus jogos em outras cidades, como Arequipa e Moquegua, pois seu estádio em Desaguadero não tinha condições de receber partidas da primeira divisão.

Foi apenas em 2019 que o clube se assentou em Juliaca, na região de Puno, a 3.800 metros do nível do mar, onde receberá no estádio Guillermo Briceño o tricampeão São Paulo.

Na altitude, somou 15 vitórias, três empates e só uma derrota na campanha do título peruano no ano passado, que o levou à sua primeira disputa de Libertadores.

Antes da decisão, porém, o Binacional viveu um drama. Titular do time e uma das referências do elenco, o meia Juan Pablo Vergara capotou o carro a caminho de um treino e precisou ser hospitalizado. Donald Millán e Jefferson Collazos, seus colegas de equipe, também estavam no veículo.

Uma lesão no fígado de Vergara, 34, ocasionou em uma grave hemorragia interna. No mesmo dia do acidente, o hospital de Juliaca confirmou sua morte.

O corpo do jogador foi levado em uma caravana fúnebre pelas ruas da cidade, acompanhado por centenas de torcedores, até chegar no estádio Guillermo Briceño, onde foi velado.

Com homenagens a Vergara, golearam no jogo de ida da final o tradicional Alianza Lima por 4 a 1 –Millán, que estava no carro que capotou, marcou um dos gols.

Na partida de volta, com a presença da viúva e do filho recém-nascido de Vergara, o time de Juliaca perdeu por 2 a 0, resultado suficiente para garantir seu primeiro título de campeão peruano. 

O confronto com os são-paulinos é visto com grande expectativa pelo clube, que irá estrear novo uniforme nesta quinta-feira, e pelos atletas da equipe, ansiosos pela oportunidade de enfrentar o time de Daniel Alves.

"Não sou de trocar camisas, mas me animaria a pedir uma foto com ele para que fique de lembrança. É um jogador de grande trajetória", diz o atacante Aldair Rodríguez, que só deixará as homenagens só para depois da partida.

"Não me imaginava enfrentando-os, mas isso é o bonito do futebol, dá coisas que às vezes você não espera. No campo, porém, você esquece que tem diante de si Daniel Alves ou Alexandre Pato. Aí somos onze contra onze", completa.

A equipe que enfrentará o clube do Morumbi já não é a mesma que conquistou o título em 2019, a começar pelo comando técnico.

O treinador campeão Roberto Mosquera, que defendeu a seleção peruana na Copa do Mundo de 1978, deixou o Binacional no fim da última temporada e deu lugar a César Vigevani. O argentino não ficou nem dois meses no cargo e já foi substituído pelo colombiano Flabio Torres, anunciado há menos de uma semana.

O elenco também sofreu algumas mudanças. Os sobreviventes do acidente, Donald Millán e Jeferson Collazos, trocaram o Binacional pelo Universitario e pelo Atlético Grau, respectivamente, ambos da elite peruana.

"Nosso projeto é sermos campeões da liga e classificar à próxima fase da Libertadores. Temos uma boa equipe e faremos o possível para estarmos dentro dos classificados. Pegamos um grupo forte, mas não podemos olhar para eles como gigantes. No campo, é uma batalha de 11 contra 11", disse o técnico Torres.

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