Descrição de chapéu Tóquio 2020

Rafaela Silva luta bem quando sente raiva, afirma Flávio Canto

Mentor da campeã olímpica, suspensa por doping, acredita que ela será inocentada

Cuiabá

Aposentado dos tatames desde 2012, Flávio Canto, 44, ainda vive o judô intensamente. É comentarista da modalidade na Globo e comanda o Instituto Reação, que atualmente atende a quase 2.000 crianças e adolescentes de forma gratuita em suas duas sedes.

O instituto nasceu em 2004, na favela da Rocinha, no Rio de Janeiro, e inaugurou neste mês uma unidade em Cuiabá, com o apoio financeiro do banco BV. O padrinho do projeto em Mato Grosso é o judoca peso-pesado David Moura, 32, vice-campeão mundial em 2017 e que já foi aluno de Canto.

O ex-judoca, medalhista de bronze na Olimpíada de Atenas-2004, atua também como uma espécie de mentor da campeã olímpica em 2016 Rafaela Silva, 27, principal atleta revelada pelo instituto e que atualmente cumpre suspensão de dois anos por doping, à espera do julgamento do seu recurso na CAS (Corte Arbitral do Esporte).

Canto acredita que, se ela for absolvida pelo uso de fenoterol (substância com efeito broncodilatador), todo o drama poderá contribuir para o seu desempenho na Olimpíada de Tóquio-2020.

"A Rafaela tem muita raiva dessa história, porque se sente injustiçada. E ela lida muito bem com esse tipo de coisa. Cada um é cada um. Eu, por exemplo, gostaria de lutar feliz. A Rafaela luta bem quando sente raiva", disse em entrevista à Folha.

Essa hipótese só poderá ser testada, é claro, se Tóquio-2020 não for cancelada pela pandemia de coronavírus. Caso seja adiada, o ex-atleta vê até a possibilidade de Rafaela se beneficiar, desde que consiga ao menos diminuir o tempo de gancho. "Tem essa possibilidade da Olimpíada ser adiada. Não, não quero pensar nisso, mas já pensou se for adiada e ela pega oito meses?". Ela cumpre suspensão desde novembro.

Por que abrir uma unidade do Instituto Reação em Cuiabá? O caminho natural seria São Paulo, mas o destino nos aproximou do David Moura. Eu o conheci quando ele entrou na seleção, e eu estava parando de lutar. O David cismou que eu poderia ajudá-lo. Estava com uma vida louca, começando a trabalhar na TV, e ele persistia para treinar comigo. É um cara que se preocupa com os demais. Tenho vários amigos, mas não consegui trazê-los para o Reação porque poderiam querer ser maior que o instituto, e não são.

O instituto teve três classificados para os Jogos de 2016 e o ouro da Rafaela Silva. Qual patamar você gostaria de alcançar em Tóquio? No Rio foi um número muito bom. Ter lutador na Olimpíada será muito importante para a gente. Estamos enfrentando um momento difícil com a Rafaela e torcendo muito por esse recurso dela. Ainda tenho esperança que ela seja absolvida ou tenha a pena reduzida. Mas hoje estamos nessa situação, o David está brigando cabeça a cabeça com o Baby [Rafael Silva], o Victor Penalber tem uma chance improvável porque teve lesão no joelho. O Popole [Misenga, do time Refugiados], um super querido, está dentro. Então, se der certo os três, ótimo.

Qual foi a sua reação com a suspensão da Rafaela Silva por doping? A notícia da Rafaela é muito triste para mim. Ela é inocente nessa história. O fato de saber que não usou nada é que foi uma porrada. A minha preocupação é como está a cabeça dela diante de tudo isso. O advogado, segundo a Rafaela me disse, tem muita esperança no recurso. Tenho me preocupado muito com a cabeça dela caso não passe [o recurso].

Caso a Rafaela seja absolvida e possa disputar a Olimpíada, acredita que toda essa angústia poderá prejudicá-la? A Rafaela tem muita raiva dessa história, porque se sente injustiçada. E ela lida muito bem com esse tipo de coisa. Cada um é cada um. Eu, por exemplo, gostaria de lutar feliz. A Rafaela luta bem quando sente raiva. Eu e o Geraldo [Bernardes, técnico dela] ficamos preocupados quando ela está numa onda muito boa. Quando teve o episódio do racismo [nos Jogos de Londres, em 2012], um ano depois foi campeã mundial no Rio de Janeiro. Eu gosto quando ela chega à competição depois de algumas pauladas. Uma coisa boa na Olimpíada do Rio foi ela ter lido que era certeza em 2012 e dúvida em 2016. Ela fala isso em palestras. Aquilo mexeu com ela, motivou. Talvez pela sua história, sua origem, a Rafaela se sente injustiçada, ela tem uma coisa meio que Mike Tyson de lutar contra o mundo.

Quais prejuízos a Rafaela pode ter pelo fato de não poder competir? Ela vai perder pontos, mas não o ranking para os Jogos de Tóquio. Só que poderá deixar de ser cabeça de chave, e isso atrapalha muito na Olimpíada, poderá pegar uma judoca de ponto logo de cara. Tem essa possibilidade de a Olimpíada ser adiada. Não, não quero pensar nisso, mas já pensou se for adiada e ela pega oito meses?

O instituto teve outra judoca suspensa por doping, a Jéssica Pereira. O que é preciso fazer para evitar esses casos? O da Jéssica é diferente, um doping de diurético, para perder peso. Adoro a Jéssica, mas pagou o preço. Estava com a Olimpíada na mão. No Reação temos fortalecido nossas conversas em relação ao doping, de como se cuidar e de como funciona. Espero que essas situações sirvam de exemplo.

Como você analisa o momento do judô brasileiro e quais projeções para Tóquio? É um momento difícil. No feminino, a gente tem a Mayra [Aguiar], a principal. Há uma briga entre a Bia e a Suelen [Beatriz Souza e Maria Suelen Altheman] e a Rafaela com chances. Nas outras categorias, precisaríamos de alguém num dia especial, como aconteceu com Rogério Sampaio [1992], Leandro Guilheiro [2008], Carlos Honorato [2000]. Eles não eram cotados e chegaram arrebentando. O nosso judô é técnico o suficiente para surpreender. No masculino, temos boas chances no peso-pesado, seja quem for entre o Baby e o David, apesar de a categoria estar mais difícil hoje do que há três anos. Muita gente do meio-pesado subiu e está bem. Tirando essa categoria, a gente depende de quem estiver num dia especial, como o Daniel Cargnin. Quanto a medalhas, conquistar duas será um resultado bom, três será muito bom.

A redução de investimento e patrocínios para o esporte nos últimos anos pode afetar o rendimento do Brasil em Tóquio? O nosso perigo é com 2024 [Olimpíada da França]. A gente tem o legado de 2016 para 2020 e teremos novidades a partir de Tóquio, como skate e surfe, que vão trazer muitas medalhas. Então, a performance deve atingir a de 2016. A de 2024 me preocupa por causa do estado atual do esporte.

Flávio Canto nos Jogos Olímpicos de Atenas-2004, em que foi medalhista
Flávio Canto nos Jogos Olímpicos de Atenas-2004, em que foi medalhista - Flavio Florido - 17.ago.04/Folhapress

O Tiago Camilo disse em entrevista à Folha que o judô brasileiro está ultrapassado. Você concorda? Essa gestão técnica de hoje é a mesma da minha época. Esteve presente no Brasil exuberante. Então por que estamos tendo menos resultados [hoje]? Temos uma geração menos talentosa. Eu venho de uma geração de muito talento, com [João] Derly, Tiago Camilo, Leandro Guilheiro. O judô deixou de ser do Aurélio Miguel, do Rogério Sampaio, para ser do Brasil. [Formou-se] uma geração tão forte que talvez tenha atrapalhado os que estavam chegando. Eu parei de lutar com 35 anos, enquanto havia outras pessoas de fora, assim como o Leandro, o Tiago. Treinava com o júnior e não dava nem saída. Por exemplo, teve um campeão mundial júnior com quem fomos lutar e eu ganhei de ippon. O Tiago também [ganhou] com ippon. Esse cara sumiu. Olha o estrago que a gente fez, esse cara poderia ter sido campeão olímpico.

O jornalista viajou a convite do banco BV

Tópicos relacionados

Comentários

Os comentários não representam a opinião do jornal; a responsabilidade é do autor da mensagem.