Descrição de chapéu The New York Times

Com time da 3ª divisão, Berlusconi quer voltar a ser grande no futebol

Depois de viver auge com o Milan, ex-primeiro ministro italiano investe no Monza

Rory Smith
Monza, Itália | The New York Times

Filippo Antonelli recorda os dias em que as pessoas não atendiam as suas ligações. Como diretor esportivo do Monza –um clube de futebol com orçamento ínfimo e horizontes estreitos, que disputa o campeonato da terceira divisão italiana–, ele não tinha muita influência junto aos seus pares.

Para discutir um jogador com outro clube, ou para fazer ofertas de venda ou compra de atletas, ele em geral precisava telefonar “quatro ou cinco vezes” antes que o interlocutor se dignasse a atender.

As coisas mudaram um pouco, agora. Hoje em dia, Antonelli sabe que quase todo mundo o atende na primeira ligação, tão logo vê seu nome na tela. Mas o mais comum é que “eles me liguem primeiro”. Tudo muda na Itália, compreendeu Antonelli, se você trabalha para Silvio Berlusconi.

À primeira vista, o Monza pouco mudou ante o clube que sempre foi –uma equipe modesta, provinciana, em cuja sede os pais dos jogadores do juvenil, o pessoal da comissão técnica e muitos moradores locais mais velhos se reúnem no café que ocupa posição central na área de treinamento.

Eles bebem expressos, comem doces, folheiam jornais. As pessoas trocam cumprimentos calorosos antes de se encaminharem ao gramado para assistir aos treinos.

​Antonelli se acomoda a uma mesa, cercado de colegas. Ele tem um escritório no piso superior, na sede do clube, mas o café é um bom lugar para uma reunião improvisada com os olheiros, com calendários e listas espalhados pela mesa. Não há senso de sigilo, nenhuma segurança no portão, nenhum estacionamento lotado de carros esporte.

Mas por sob a superfície, as coisas mudaram. Em 2017, a carreira pública de Berlusconi parecia encerrada. Afundado em uma onda interminável de vergonhas e escândalos, ele havia sido forçado a renunciar como primeiro-ministro, quando a Itália foi varrida pela crise da dívida na zona do euro, e foi excluído do Legislativo ao ser condenado por fraude tributária.

O Forza Italia, o movimento político que o conduziu ao poder, continuava a existir, mas suas perspectivas eleitorais oscilavam muito. Depois de três décadas, ele havia por fim vendido a peça central de seus ativos: o Milan, clube de futebol que Berlusconi transformou no melhor time do planeta nas décadas de 1980 e 1990. Parecia que Berlusconi estava acabado, destinado a uma aposentadoria rica, mas irrelevante.

Em setembro de 2018, Antonelli foi informado de que a Fininvest, a holding do império de mídia de US$ 5 bilhões controlado por Berlusconi, havia concluído a aquisição de seu clube. Ele sabia que existia um comprador interessado, e que o clube poderia mudar de mãos em breve. Mas não recebeu indicações de quem pudesse estar envolvido.

Um quadro dos assessores de mais confiança de Berlusconi foi colocado no comando do clube –entre os quais seu irmão Paolo, como presidente, e Adriano Galliani, por muito tempo o braço direito do empresário, como presidente do conselho–, e o trabalho de reforma do centro de treinamento e do estádio começou. A meta de Berlusconi era ambiciosa.

Silvio Berlusconi, ex-primeiro ministro da Itália e ex-dono do Milan
Silvio Berlusconi, ex-primeiro ministro da Itália e ex-dono do Milan - Flavio Lo Scalzo - 24.jan.20/Reuters

“O objetivo é estar na Série A em 2021”, disse Galliani, o que significa que o Monza precisa subir nesta temporada e depois passar pela Série B por apenas uma temporada –e fazê-lo com um time formado principalmente por jovens jogadores italianos que jogam “um futebol limpo, épico e bonito”.

Mas acima de tudo, Berlusconi quer uma coisa. “O sonho”, disse Cristian Brocchi, o treinador do Monza, “é ver o clube jogar contra o Milan no San Siro”.

É fácil suspeitar que essa seja a motivação do investimento de Berlusconi, que seu objetivo é retomar seu lugar na elite do futebol italiano e provar aos críticos que ele é capaz de fazer tudo de novo, que ele é tão poderoso e inteligente quanto sempre foi, e que, embora a impressão possa ser a de que está acabado, a realidade é o contrário disso.

As pessoas que conhecem Berlusconi melhor insistem que o Monza não se enquadra a esse padrão. “Foi uma decisão tomada totalmente com o coração”, disse Galliani sobre o investimento.

Especificamente, foi uma decisão tomada com o coração de Galliani. Ele cresceu em Monza, era torcedor do clube e trabalhou como diretor do Monza, tudo isso antes que Berlusconi o recrutasse para o Milan. “Passei 10 anos no Monza”, disse Galliani. “Depois joguei por empréstimo no Milan por 31 anos."

Comprar o clube foi ideia de Galliani. Ele a sugeriu a Berlusconi, que tem uma casa em Arcore, a alguns quilômetros de distância. Galliani não via a aquisição como uma forma de Berlusconi ganhar dinheiro, conquistar troféus ou reconstruir seu prestígio político, ele diz. “Foi puro romantismo”, disse Galliani. “Monza é um estado de alma."

De fato é Galliani que cuida do dia a dia do clube. Fala com Antonelli diversas vezes por dia; verifica com Brocchi o progresso dos treinos; e acionou a agenda repleta de contatos que ele acumulou trabalhando no Milan a fim de ajudar a reforçar o time.

Silvio Berlusconi cumprimenta Adriano Galliani, que foi seu braço-direito no Milan, em jogo da equipe no San Siro
Silvio Berlusconi cumprimenta Adriano Galliani, que foi seu braço-direito no Milan, em jogo da equipe no San Siro - Alberto Lingria/AFP

Na janela de transferência de janeiro, o Monza concluiu mais de 30 transações, reformando completamente o time. “Não tive muito tempo para dormir”, disse Antonelli. “Era como correr uma maratona, mas em velocidade de 100 metros rasos. Galliani fez história. Trabalhar com ele é como fazer um mestrado em futebol."

O efeito foi imediato. Ainda que não tenha subido para a Série B no ano passado, o Monza lidera a terceira divisão com folga confortável, hoje. A promoção é quase certa. Subitamente, há jogadores interessados em jogar no Monza, algo que nem sempre foi o caso, na experiência de Antonelli. “Muitos jogadores das divisões mais altas gostariam de jogar aqui”, ele disse.

Berlusconi assiste à maioria das partidas do Monza em seu estádio e também assistiu a alguns dos jogos fora. Para Antonelli, Berlusconi se interessou pelo Monza não só por querer realizar o sonho de Galliani, mas também porque “ele sentia alguma saudade do futebol”.

Talvez seja essa a explicação mais convincente para seu investimento. O Monza não é uma tentativa de reanimar sua carreira política, ou restaurar seu nome, ou reviver seus dias de glória. Não é só um favor a um amigo. Para Berlusconi, o futebol sempre girou em torno do poder: não só obtê-lo, mas senti-lo.

As pessoas que trabalham com Berlusconi dizem que ele sempre se dispõe a parar e conversar com torcedores, cumprimentar o público, desfrutar de um eco da adulação que ele recebia quando era dono do Milan e líder da Itália.

Não se trata de uma segunda chance de dominar o mundo, ou de construir um império esportivo. Mas essa é a única maneira que lhe resta de desfrutar dos holofotes, de despertar admiração, de ainda sentir o que é estar por cima.

Tradução de Paulo Migliacci

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