Acusações de suborno aumentam questionamentos sobre Copa no Qatar

Justiça americana acusa ex-dirigentes, entre eles Ricardo Teixeira, de venderem votos

Kevin Draper Tariq Panja
The New York Times

Depois de anos de investigações e indiciamentos, o Departamento de Justiça dos Estados Unidos anunciou na segunda-feira (6), pela primeira vez, que representantes trabalhando para a Rússia e o Qatar haviam subornado importantes dirigentes do futebol para conquistarem o direito de organizarem a Copa do Mundo de futebol masculino.

Os procuradores públicos fizeram as acusações em um indiciamento no qual três executivos de mídia e uma companhia de marketing esportivo são acusados de diversos crimes, entre os quais fraude telegráfica e lavagem de dinheiro, em conexão com subornos pagos para garantir diretos de televisão e marketing sobre torneios internacionais de futebol.

Pessoas celebram diante de telão em Doha após Qatar ser confirmado como sede da Copa de 2022
Pessoas celebram diante de telão em Doha após Qatar ser confirmado como sede da Copa de 2022 - Fadi Al-Assaad - 02.dez.2010/Reuters

As acusações foram as mais recentes em um caso de corrupção que já dura anos e produziu condenações de diversos dirigentes de futebol e executivos, bem como a destituição dos antigos líderes da Fifa, a organização que comanda o esporte mundial. No entanto, os procuradores públicos jamais haviam descrito com tanta clareza o esquema usado para produzir os votos que deram à Rússia e ao Qatar o direito de organizar um dos maiores eventos esportivos do planeta.

Na segunda-feira, os procuradores públicos americanos revelaram detalhes sobre o dinheiro pago a cinco integrantes do principal conselho da Fifa antes da votação na qual Rússia e Qatar foram escolhidos como anfitriões, em 2010.

A Rússia derrotou a Inglaterra e propostas combinadas de Holanda-Bélgica e Espanha-Portugal, para sediar o torneio masculino de 2018. O Qatar, um minúsculo país desértico que gastou bilhões de dólares para se preparar para a Copa do Mundo de 2022, derrotou os Estados Unidos em um segundo turno de votação, por um grupo de eleitores que já tinha sido reduzido depois que dois integrantes do conselho foram filmados secretamente concordando em vender seus votos.

Três dirigentes sul-americanos, de acordo com o indiciamento, receberam pagamentos para votar em favor do Qatar.

Um deles, Julio Grondona, da Argentina, morreu em 2014. Outro, Nicolás Leoz, morreu no Paraguai no ano passado; ele estava em prisão domiciliar e buscava combater um pedido de extradição feito pelos Estados Unidos, O terceiro homem, Ricardo Teixeira, antigo comandante do futebol brasileiro, continua no seu país, que não tem um tratado de extradição com os Estados Unidos.

Leoz e Teixeira foram indiciados em 2015 por acusações relacionadas a esquemas de suborno para a venda de lucrativos direitos sobre futebol a veículos de mídia eletrônica,

Os procuradores públicos americanos também declararam no indiciamento da segunda-feira que Jack Warner, antigo dirigente de futebol de Trinidad e Tobago que vem lutando contra extradição aos Estados Unidos desde 2015, recebeu US$ 5 milhões (R$ 26 milhões em valores atuais), por meio de uma série de companhias de fachada, para votar em favor da Rússia.

Parte do dinheiro, o indiciamento afirma, veio de “companhias sediadas nos Estados Unidos que realizaram trabalhos em benefício da candidatura da Rússia para sediar a Copa do Mundo de 2018”.

Rafael Salgueiro, dirigente de futebol guatemalteco que se admitiu culpado em 2016 por acusações de fraude e lavagem de dinheiro, recebeu US$ 1 milhão (R$ 5,2 milhões em valores atuais) para dar seu voto à Rússia, segundo o indiciamento.

Nenhum dos antigos dirigentes futebolísticos foi localizado para comentar de imediato as acusações. Dirigentes da federação russa de futebol e da Fifa não responderam a um email enviado depois do horário comercial (na última segunda) solicitando comentários.

O Qatar há muito tempo nega todas as imputações de impropriedade, a despeito de enfrentar uma série de acusações desde que começou a tentar conquistar o direito de sediar o maior evento futebolístico do planeta.

Um documento da Fifa aludiu ao esquema de suborno no ano passado. Os nomes de Grondona, Leoz e Teixeira e referências a pagamentos que eles teriam recebido foram incluídos em um documento sobre ética que justificava a suspensão perpétua de Teixeira de qualquer função relacionada à Fifa.

As acusações contra os sul-americanos espelham as feitas por Alejandro Burzaco, um antigo executivo de televisão argentino que depôs pela acusação depois de ser identificado como figura central no caso de corrupção no futebol. Ele disse, no julgamento de três outros dirigentes futebolísticos em Nova York, em 2017, que Leoz, Grondona e Teixeira haviam sido pagos para votar pelo Qatar.

Mais de metade das pessoas envolvidas nas votações sobre as sedes das Copas de 2018 e 2022, entre as quais Sepp Blatter, ex-presidente da Fifa, foram acusados de delitos, embora nem todos tenham sido alvo de indiciamento criminal.

A escolha do Qatar –um país cujos verões são tão quentes que, cinco anos atrás, depois da votação, a Fifa se viu forçada a transferir a data da Copa do Mundo de 2022 para novembro– recebeu a maior parte da atenção. Mas a Rússia também recebeu acusações de comportamento impróprio no processo seletivo.

Dirigentes russos informaram a um comitê da Fifa que investigou sua proposta de que não era possível entregar os computadores usados durante o processo de candidatura ao investigador da Fifa porque todos haviam sido destruídos.

Em maio do ano passado, quase um ano depois que a Rússia realizou sua Copa do Mundo, Gianni Infantino, que saiu da relativa obscuridade e garantiu a presidência da Fifa depois do escândalo de corrupção que derrubou praticamente toda a liderança da organização, recebeu uma medalha da Ordem da Amizade, conferida pelo presidente Vladimir Putin.

Dois dos executivos de mídia esportiva que foram acusados nos indiciamentos da segunda-feira, Hernan Lopez e Carlos Martinez, trabalharam no passado para subsidiárias internacionais da 21st Century Fox. Essa foi a primeira vez que o governo federal americano acusou a Fox, que conquistou os direitos de transmissão das Copas de 2018 e 2022, ou algum de seus executivos de qualquer impropriedade.

Durante o julgamento de 2017, Burzaco acusou a Fox de subornar dirigentes, uma acusação que a empresa negou, na época.

Lopez, 49, era presidente-executivo da Fox International Channels, e Martinez, 51, era presidente da Fox Networks Group Latin America. De acordo com a acusação, os dois participaram de um esquema que resultou em milhões de dólares em subornos a dirigentes da confederação de futebol sul-americana, a fim de influenciar a concessão de direitos de transmissão sobre a Copa Libertadores, a principal competição interclubes sul-americana.

Eles também foram acusados de usar informações privilegiadas a fim de ajudar a Fox a conquistar os direitos de transmissão em língua inglesa nos Estados Unidos das Copas de 2018 e 2022. Lopez e Martinez “contaram com a lealdade criada pelo pagamento de propinas”, de acordo com o indiciamento. Entre outras coisas, disseram os procuradores públicos, as propinas ajudaram a Fox a obter informações confidenciais “sobre os direitos de transmissão das Copas do Mundo de 2018 e de 2022 nos Estados Unidos”.

O Mundial da Rússia, em 2018, também foi alvo de acusações de suborno por parte da justiça americana
O Mundial da Rússia, em 2018, também foi alvo de acusações de suborno por parte da justiça americana - Alexander Nemenov - 15.jul.2018/AFP

Por meio de seus advogados, Lopez e Martinez negaram as acusações e afirmaram que o governo dos Estados Unidos está tentando levar adiante um caso precário.

“O indiciamento contém apenas um parágrafo sobre Lopez que atribui a ele algum comportamento vagamente impróprio”, disse Matthew Umhofer, advogado de Lopez, em comunicado. Steven McCool, advogado de Martinez, classificou as acusações como “nada mais que ficção, e ficção antiga”.

Nem a Fox e nem a Disney –que adquiriu a maior parte dos ativos internacionais da Fox em 2019–responderam imediatamente a pedidos de comentário.

Em 2011, surgiu a informação de que a Fox pagaria mais de US$ 400 milhões (R$ 2 bilhões em valores atuais) pelos direitos de transmissão em inglês da Copa do Mundo masculina nos Estados Unidos, em 2018 e 2022, e pelas Copas do Mundo femininas de 2015 e 2019. A vitória foi uma surpresa, porque as redes ABC e ESPN transmitiam as Copas do Mundo masculinas desde 1994.

A Fifa mais tarde conferiu à Fox os direitos de transmissão da Copa do Mundo de 2026 sem realizar uma concorrência, depois que a rede contestou a decisão da organização de transferir o torneio para o quarto trimestre, em lugar do meio do ano, quando ele tradicionalmente acontece.

Lopez deixou a Fox em 2016, para criar a Wonderly, uma empresa de podcasts. Martinez saiu da empresa em 2019.

Outro dos acusados anunciados na segunda-feira foram Gerard Roy, ex-executivo de um conglomerado espanhol de mídia, e a Full Play, uma companhia uruguaia de marketing esportivo. Hugo Jinkis e Mariano Jinkis, os donos da Full Play, foram acusados individualmente em 2015 como parte dos primeiros indiciamentos do caso por queixa da Fifa

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