Descrição de chapéu Coronavírus

Árbitros sofrem na paralisação e pedem mudança no pagamento

Juízes no país, que recebem por jogo, têm dificuldade com torneios interrompidos

São Paulo

A ficha básica dos quase 500 árbitros e assistentes vinculados à CBF (Confederação Brasileira de Futebol) tem o item “profissão”. O campo, quando não está em branco, é preenchido com ocupações como “corretor de seguros”, “professor” e “funcionário público”.

Para muitos deles, é esse trabalho declarado na ficha que tem sido a salvação. No entanto, para muitos outros, que dependiam exclusivamente da atuação como juiz ou bandeirinha, vem sendo mais difícil o momento atual, com os torneios suspensos por causa da pandemia do novo coronavírus.

O momento é complicado ara quem depende do apito ou da bandeira - Adriano Vizoni - 2.ago.19/Folhapress

Há diferenças enormes nas realidades dos árbitros, sobretudo entre os que atuam na elite do futebol brasileiro e aqueles que apitam em divisões inferiores ou mesmo em campeonatos amadores. Todos, porém, foram afetados pela interrupção das competições.

A razão é simples: não há vínculo empregatício e, portanto, não há salário. O pagamento é feito por partida trabalhada. E, sem jogos nos quais trabalhar, não há dinheiro.

“Alguns, no alto nível, ainda têm alguma reserva. Agora, aqueles que ainda estão tentando se firmar e optaram por viver exclusivamente da arbitragem estão sofrendo e estão preocupados. Porque já começa a faltar para pagar as contas”, afirmou o experiente juiz Marcelo Aparecido Ribeiro de Souza, 47, que se vê em situação tranquila na comparação com a de vários de seus colegas.

“Nossa preocupação é com quem está nas camadas inferiores da arbitragem, com quem está no escalão intermediário. A gente até propôs ajudar quem está em dificuldade, porque não sabemos quanto tempo vai durar esta situação. É preocupante”, acrescentou Souza.

Marcelo Aparecido Ribeiro de Souza vê vários colegas em dificuldade - Robson Ventura - 8.abr.18/Folhapress

Diante desse cenário, a Anaf (Associação Nacional de Árbitros de Futebol) pediu ajuda à CBF, que topou apenas fazer um adiantamento, anunciado na última quarta-feira (1º). Cada juiz e assistente filiado à confederação vai receber o valor referente a um jogo, que será abatido do pagamento no momento em que eles voltarem a trabalhar.

O número é baseado no maior cachê recebido em 2019. No último Campeonato Brasileiro, árbitros do quadro da Fifa ou listados como másteres ganhavam R$ 5.000 por jogo da Série A. Juízes sem essa qualificação levavam R$ 3.600. Para os bandeiras, a variação era de R$ 2.160 a R$ 3.000.

As cifras são bem menores nas divisões inferiores. E, embora o adiantamento seja útil, particularmente àqueles em situação de maior necessidade entre os 486 beneficiados, o ato não foi visto, por muitos árbitros, como um grande gesto de generosidade da CBF.

O auxílio terá um custo de cerca de R$ 900 mil. Ele foi anunciado apenas 15 dias depois de a CBF divulgar seu balanço financeiro de 2019, com receita recorde de R$ 957 milhões e superavit de R$ 190 milhões. O ativo total da CBF, ao fim do último ano, era de R$ 1,248 bilhão.

Esses números, bastante celebrados pelo presidente Rogério Caboclo, foram lembrados pelos juízes que torceram o nariz para a ajuda. Eles preferiram não gravar entrevista ou ser identificados, temendo represálias, mas há um claro ambiente de temor e insatisfação na categoria.

As federações estaduais, de maneira geral, também não têm colocado a mão no bolso. Mais rica delas, a FPF (Federação Paulista de Futebol) recusou um pedido de socorro dos seus árbitros citando justamente a pandemia do novo coronavírus, que “acarretou a suspensão dos recebíveis relacionados aos campeonatos”.

Uma exceção foi outra FPF. Depois de oferecer R$ 10 mil a cada uma das dez equipes da primeira divisão estadual, a Federação Pernambucana de Futebol estendeu o auxílio aos juízes, que dividiram a mesma quantia entre 50 profissionais.

No curto prazo, considerando ou não os aportes generosos, os árbitros recebem os valores de bom grado. Mas, para além dos recursos emergenciais, a paralisação do futebol voltou a levantar os questionamentos sobre o método de pagamento aos juízes e bandeirinhas.

Uma parcela considerável deles é amplamente favorável ao que se convencionou chamar de “profissionalização da arbitragem”, embora os árbitros já sejam tecnicamente profissionais. Muitos defendem um modelo com remuneração mensal fixa, além do cachê por atuação.

É assim que funciona nas principais ligas da Europa. Em países como Inglaterra, Espanha, Alemanha, França e Portugal, há um salário, ao qual é adicionado o valor de cada partida.

O árbitro Crhis Kavanagh e seus colegas de Campeonato Inglês ganham salário - Carl Recine - 1º.mar.20/Reuters

Trata-se de um velho sonho da categoria no Brasil, uma ideia que era veemente defendida por Leonardo Gaciba em seus tempos de árbitro. Atual presidente da Comissão Nacional de Arbitragem da CBF, o ex-juiz de 48 anos era firme apoiador do modelo.

Quando assumiu o comando da arbitragem no Brasil, em abril do ano passado, o gaúcho pôs os salários como meta e apontou que esse objetivo era compartilhado pelo presidente da CBF, Rogério Caboclo.

“Estamos estudando juridicamente como fazer isso. A gente já quer dar alguns passos em relação a isso”, afirmou Gaciba, logo após sua posse, em entrevista à Fox Sports. “Não depende só de mim. Se fosse por mim, amanhã. Esse seria o prazo. Adoraria o cara 24 horas dedicado à arbitragem.”

Em setembro, em entrevista à ESPN Brasil, o tom já era bem diferente. “O que é profissionalização? É ter uma carteira assinada? A elite do Brasil é profissional. Eles não têm carteira assinada, mas são profissionais”, disse.

“Como que vou sustentar um árbitro? Se eu pegar e assinar a carteira... Vamos supor que o árbitro receba R$ 5.000 por mês de taxa. A partir daquele momento, tem que pagar R$ 2.500 por mês de imposto para assinar a carteira dele. Pergunta para os árbitros se eles querem baixar de R$ 5.000 para R$ 2.500. Profissionalizar a arbitragem vai muito além de assinar um papel. É dar estrutura para o árbitro trabalhar”, acrescentou.

A Folha questionou Gaciba se ainda está de pé seu plano de mudar o modelo de pagamento dos árbitros brasileiros, mesmo com todas as dificuldades que se impõem para a realização dessa ideia. E perguntou também o que pode ser feito para que os profissionais não fiquem desamparados neste momento de paralisação.

“A CBF já acenou com um adiantamento de taxas como auxílio aos nossos árbitros. A entidade está em constante estudo de possibilidades, mas, conforme você mesmo disse, é um trabalho complexo”, respondeu o presidente da comissão de arbitragem.

O dirigente Leonardo Gaciba tem ideias diferentes das defendidas pelo árbitro - Lucas Figueiredo - 19.ago.19/CBF

Boa parte dos juízes e auxiliares hoje na ativa têm uma simpatia maior em relação às ideias que Gaciba apresentava em seus tempos de apito. Se a mudança no modelo já era defendida por boa parte do quadro, a parada abrupta dos campeonatos e dos pagamentos reforçou a sensação de desproteção.

O momento atual, com o mundo esportivo em pausa por causa de uma pandemia, é totalmente atípico. Não são atípicas, porém, as situações em que o árbitro fica sem a chance de receber por causa de uma lesão ou por ter sido colocado na “geladeira”, jargão utilizado para o afastamento dos profissionais após algum erro de maior repercussão.

Há, por isso, um clamor por um sistema em que os árbitros fiquem menos sujeitos a intempéries e ganhem alguma salvaguarda. Nem todos podem falar –algumas federações estaduais proibiram expressamente entrevistas neste momento–, mas é evidente a sensação geral no mundo do apito sem bola rolando.

“Sempre digo assim: lições das dificuldades. Ficou claro para todos que não pode ser da forma que é. Precisa ser feita alguma coisa, alguma atitude para modernizar. E não é só modernizar a técnica de arbitragem. É modernizar o perfil do árbitro”, afirmou Marcelo Aparecido Ribeiro de Souza.

“A pessoa que é árbitra e se dedica exclusivamente à arbitragem tem que ter uma segurança. E não pode ficar vivendo apenas da próxima escala. É a profissionalização sair do papel e realmente tomar corpo, né?”, concluiu o juiz–e empresário, como aponta sua ficha na CBF.

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