Coronavírus é ameaça à existência de alguns torneios de tênis

Cancelamento de Wimbledon nesta quarta aumenta preocupação com prejuízos

Christopher Clarey
The New York Times

No momento em que Bob Moran foi informado de que o torneio de tênis profissional que ele dirige em Charleston, Carolina do Sul, seria cancelado por conta do coronavírus, ele suspendeu a montagem das arquibancadas, que estavam sendo erigidas bem diante de seu escritório.

“A primeira camada já estava instalada e no mesmo dia começou a ser desmontada”, disse Moran, diretor do Volvo Car Open, um torneio feminino jogado em quadras de saibro cuja abertura estava marcada para o sábado (4). “Cada coisinha faz diferença.”

Com o tênis profissional suspenso pelo menos até junho –e talvez por muito mais tempo–, os administradores e jogadores do esporte estão correndo para reduzir seus prejuízos em meio a adiamentos e cancelamentos generalizados de torneios.

E, por trás desses ajustes, pende uma ameaça –a de que alguns eventos, especialmente os dos degraus mais baixos dos tours profissionais masculino e feminino, não sobrevivam.

“Isso é real”, disse Steve Simon, o presidente executivo da WTA, a associação do tênis feminino. “Os torneios sofrem golpes pesados por não acontecerem.”

O tamanho do baque para cada torneio depende de diversos fatores, entre os quais o momento do adiamento, o orçamento operacional envolvido, os contratos de patrocínio e o acordo vigente com os locais em que eles ocorrem.

As apólices de seguro em vigor, em geral, não ajudam. Wimbledon, cancelado nesta quarta (1º), é um dos poucos eventos que contam com alguma cobertura contra pandemias. A vasta maioria dos eventos do tour não está coberta. De fato, muitos dos torneios da associação masculina de tênis (ATP) e da WTA não assinaram apólices de seguro com cobertura contra cancelamento, que custam entre US$ 200 mil (R$ 1,05 bilhão) e US$ 700 mil (R$ 3,67 bilhões) ao ano, a depender do faturamento do torneio evolvido.

“Temos seguro contra terremoto ou ataque terrorista, e coisas assim, mas nenhum torneio que conheço está segurado contra esse vírus específico, de modo que não há cobertura de seguro”, disse Edwin Weindorfer, cuja empresa administra torneios em quadras de grama em Mallorca, Espanha, e nas cidades alemãs de Berlim e Stuttgart.

Sem recurso ao seguro, os torneios terão de absorver prejuízos sem ajuda, a não ser que as direções da ATP e da WTA, ou as federações nacionais de tênis, escolham oferecer apoio financeiro.

“Os torneios estão sofrendo golpes tremendos, e obviamente os jogadores sofrerão golpes tremendos, porque estão desprovidos da oportunidade de competir por diversas semanas”, disse Simon. “Creio que esse seja um dos desafios que todo o mundo está tentando resolver. Como distribuir os prejuízos significativos que todos os membros estão sofrendo, e o prejuízo que o tour mesmo sofrerá?”

O mundo do tênis está em pausa, à espera do controle da pandemia do coronavírus - Susan Mulane - 14.jul.19/USA Today Sports

Gerard Tsobanian, presidente do Aberto de Tênis de Madri, um torneio masculino e feminino em quadra de saibro marcado para maio, não acredita que que os tours sejam capazes de oferecer muita assistência.

“Não acredito que elas tenham fundos suficientes para ajudar os jogadores e os torneios ao mesmo tempo”, ele disse. “Não há como.”

O prejuízo vai depender da duração da paralisação geral do esporte. O tênis profissional suspendeu todos os seus jogos até 8 de junho, a data de abertura tradicional da temporada das quadras de grama. Mas, com a quarentena em vigor no Reino Unido, os dirigentes de Wimbledon decidiram cancelar o evento, antes marcado para o período entre 29 de junho a 12 de julho.

“Caso Wimbledon seja cancelado, nós seguiremos o exemplo rapidamente, com o cancelamento dos torneios em quadras de grama”, disse Weindorfer, antes do anúncio da queda do torneio britânico. E foi o que aconteceu.

Por conta das particularidades da superfície da quadra, os torneios jogados na grama têm probabilidade menor de serem remarcados para mais tarde na temporada, se e quando os tours retomarem seu calendário de jogos.

O tour masculino e o tour feminino prepararam planos de contingência amplos para jogar suas temporadas mais tarde no ano, lotando suas agendas, estendendo os jogos até o final de dezembro e abandonando a folga de pós-temporada.

“Os jogadores terão de criar espaços nos seus calendários, mas, para o bem deles e dos torneios, é preciso aproveitar todas as semanas disponíveis na agenda”, disse Jim Courier, um ex-tenista que ocupou posições elevadas no ranking da ATP.

O Aberto da França, o torneio de Grand Slam que precede Wimbledon, já anunciou que postergaria suas datas para o período de 30 de setembro a 4 de outubro, ante a data original de 24 de maio. A decisão causou ira generalizada no esporte, porque os dirigentes do Aberto da França anunciaram seus planos publicamente sem discuti-los com outros representantes do esporte.

A reação adversa pode levar a novas mudanças de data para o Aberto da França —a fim de acomodar outros torneios do calendário—, a pagamentos de indenização a torneios que possam ser prejudicados ou até a uma redução punitiva no número de pontos que jogar o Aberto da França confere no ranking das associações.

Os protestos são a mais recente demonstração das profundas divisões que existem no tênis, um esporte em que existem múltiplas organizações controladoras e agendas conflitantes.

“Essa era uma oportunidade de ouro, em um momento difícil, de demonstrar que nossa pequena comunidade do tênis não está fragmentada e que os líderes são capazes de tomar uma decisão juntos e de cooperar. E terminamos por mostrar uma imagem muito egoísta daquilo que somos”, disse Tsobanian, cujo torneio em Madri foi adiado sem garantia de que será possível encontrar nova data para ele em 2020.

Algumas pessoas do esporte encaram a situação extrema apresentada pelo pandemia do coronavírus como uma oportunidade para que os tours enxuguem seu calendário superlotado, encontrando maneiras de pagar pelo cancelamento de torneios pequenos e deficitários e de concentrar mais atenção nos eventos maiores, que têm mais capacidade de atrair os melhores jogadores e audiências televisivas.

“Talvez esse caos tenha surgido para que uma nova ordem possa emergir”, disse Tsobanian sobre o calendário do tênis. “Mas, por enquanto, todo o mundo está com medo."

O tênis profissional em geral depende de patrocínios, uma pressão que afeta especialmente os torneios menores.

“Não somos como o futebol, no qual de 60% a 70% da receita vem da TV e da mídia”, disse Weindorfer. “Mais de 70% de nossa receita vem de patrocínios, no negócio do tênis, pelo menos nas categorias mais baixas, e por isso somos muito mais afetados por um mercado de patrocínio fraco do que acontece com outros esportes.”

As margens de lucro dos eventos de mais baixo patamar no tour masculino costumam ser magras, mesmo em períodos socioeconômicos normais. Os torneios conhecidos como circuito ATP 250, por conta dos 250 pontos no ranking conferidos ao campeão de simples, compõem parte significativa do tour –36 dos 68 eventos. Os torneios de categoria mais alta são os ATP 500 e os ATP Masters 1000.

Bill Oakes, antigo diretor de torneio do Aberto de Winston-Salem e presidente do grupo que representa os torneios ATP 250, disse que o lucro líquido médio desses torneios era de “cerca de US$ 125 mil” (R$ 655 mil), com orçamentos operacionais médios de por volta de US$ 4 milhões (cerca de R$ 21 milhões).

As margens são semelhantes no tour feminino, disse Moran, que dirige o torneio feminino da Carolina do Sul.

Oakes disse que os lucros eram de em média US$ 1,1 milhão (R$ 5,8 milhões) nos torneios ATP 500, e que chegavam a US$ 6 milhões (R$ 31,4 milhões) nos ATP Masters 1000.

“O torneio ATP 250 médio está a um patrocinador de distância de ficar no vermelho”, disse Oakes. “Em minha opinião, todos os torneios deveriam estar muito preocupados com o que vai acontecer.”

Quaisquer torneios que estejam diante de ruína financeira podem se ver forçados a vender sua licença de organização de eventos sancionados pelos tours –a versão tenística de uma franquia–, para tentar resgatar algum valor. As sanções, o nome pelo qual as licenças são conhecidas no esporte, variam amplamente em valor, a depender de sua posição no calendário e na geografia, mas podem variar entre US$ 1 milhão (R$ 5,2 milhões) e US$ 10 milhões (R$ 52,4 milhões), em eventos ATP 250.

“Eles podem ganhar um bom dinheiro vendendo a sanção a outras cidades; é daí que o valor vem, em oposição ao fluxo de caixa registrado ano a ano”, disse Courier. “As licenças são escassas da mesma forma que imóveis podem ser escassos no mercado.”

Em 2018, 13 torneios ATP 250 ficaram no prejuízo, disse Oakes. O número deve disparar em 2020, mas Oakes disse que cancelar um torneio com antecedência suficiente permite um bom corte no prejuízo, já que a organização reduz as despesas com montagem de infraestrutura, alimentação e segurança. O dinheiro dos prêmios e dos cachês dos jogadores, que são autorizados em níveis mais baixos do tour, não precisa ser gasto.

Os torneios também podem ser isentados de seus pagamentos anuais ao tour, embora isso não esteja decidido.

A maior despesa que pode restar são as equipes permanentes, os contratos com os locais de jogos e outros custos fixos. Os três torneios de Weindorfer, por exemplo, gastam juntos cerca de US$ 600 mil (R$ 3,14 milhões) ao ano na manutenção de quadras de grama.

O timing é um fator importante em todos os torneios, entre os quais o BNP Paribas Open, prestigioso torneio masculino e feminino em Indian Wells, Califórnia. O torneio foi cancelado pouco antes da abertura das rodadas qualificativas, e o custo foi pesado, porque a maior parte da infraestrutura e do pessoal já estavam mobilizados. A liderança do torneio, que inclui o bilionário Larry Ellison, recusou-se a comentar sobre o impacto econômico, mas disse que existe esperança de que o evento possa ser remarcado ainda em 2020.

Larry Ellison tem menos dificuldade do que outros organizadores de torneios - Stephen Lam - 26.mar.13/Reuters

“Se você é o torneio de Indian Wells e Larry Ellison é uma das pessoas que o bancam, a situação é muito diferente do que ser o Aberto de Winston-Salem, promovido por uma organização sem fins lucrativos“, disse Oakes.

Diretores de torneios de todos os níveis, como executivos de muitos setores em todo o mundo, estão fazendo contas constantemente e buscando maneiras de limitar os danos.

Pete Holtermann, diretor de mídia do torneio ATP 250 em Houston, que deveria ser jogado em abril, conseguiu cancelar a impressão do programa do evento.

“No grande esquema das coisas, essa foi uma economia pequena, provavelmente”, ele disse. “Mas, na situação atual, qualquer coisinha ajuda.”

Tradução de Paulo Migliacci

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