Descrição de chapéu The New York Times

Ondas espetaculares durante pandemia frustram surfistas pelo mundo

Praias fechadas e adiamento do Mundial de Surfe atingem amadores e profissionais

Adam Skolnick
The New York Times

“As ondas do coronavírus”, foi o apelido que surgiu.

Ondas espetaculares, da ordem de oito metros de altura, varreram o famoso recife de Teahupo’o, no Taiti, naquele dia, um mês atrás.

Audíveis a quilômetros de distância, as ondas de Teahupo’o –que abrigará a competição de surfe da Olimpíada de Paris, em 2024– normalmente ecoam como um código Morse com força de trovão, convocando os melhores surfistas de todo o planeta. Dezenas deles teriam chegado ao recife, de barco, e apanhado caronas em jet skis na direção da rebentação, acompanhados por equipes de filmagem posicionadas em helicópteros.

Mas naquele dia, havia muito pouca gente na água. “Nem mesmo um barco”, disse Tikanui Smith, um surfista profissional taitiano que vive em Teahupo’o e cujas façanhas no torneio local já lhe valeram diversas indicações para o prêmio "Ride of the Year", da World Surf League (Liga Mundial de Surfe).

A mesma coisa aconteceu quando a maré sul quebrou em Pleasure Point, no condado de Santa Cruz, Califórnia, em 9 de abril, o primeiro dia de uma proibição de ida à praia que duraria uma semana. “Nós só pudemos ficar lá olhando as ondas”, disse o surfista profissional Kyle Thiermann.

“Em um dia de mar bom como aquele, normalmente você vê 100 surfistas na água. A sensação para mim foi a de ter entrado em uma máquina do tempo que me levou para uma época em que o surfe ainda não existia”.

De Bali ao Brasil, da Costa Rica à Califórnia, a pandemia paralisou o surfe, quer por conta de proibições de acesso às praias, quer porque os surfistas não tinham como chegar a elas. Mas alguns lugares se mantiveram abertos, agravando a distinção entre os surfistas capazes de entrar no mar e os condenados a ficar em casa.

A WSL suspendeu sua Championship Tour em 12 de março, duas semanas antes da abertura da temporada, em Gold Coast, na Austrália. O circuito anual leva os surfistas a algumas das ondas mais famosas do planeta –do Eastern Cape, na África do Sul, à North Shore de O’ahu, no Havaí. O anúncio da suspensão abalou o mundo do surfe. Quatro dias mais tarde, a liga adiou ou cancelou todos os seus demais eventos até maio —na terça (28), o adiamento da liga foi postergado até junho.

Surfistas aguardam vez de entrar na onda em Teahupoo, no Taiti
Surfistas aguardam vez de entrar na onda em Teahupoo, no Taiti - Brian Bielmann - 18.ago.19/AFP

Mas os surfistas continuam a ser atraídos pelo mar –legalmente ou não.

Na Austrália, as decisões quanto a restringir ou não o acesso às praias foram deixadas aos legislativos locais. Algumas praias em Sydney estão fechadas há semanas, e outras, como a Bondi Beach, reabriram para uso entre as 7h e as 17h, nos dias de semana, e apenas para os esportes aquáticos. Estender uma toalha na areia pode valer multa de US$ 1 mil.

A surfista americana Lakey Peterson, terceira colocada na Championship Tour da World Surf League em 2019, está na Austrália desde antes da suspensão da liga. Seu marido é de Bells Beach, Austrália, que sediaria o segundo torneio da Championship Tour em 2020. Peterson vem conseguindo surfar quatro horas por dia e está expandindo seu repertório de manobras.

“Por nove anos, eu não tive tempo para trabalhar em manobras e praticar”, ela disse. “Estou aperfeiçoando meus lay backs e aerials. Tentando melhorar na água.”

E nas ilhas havaianas, ficar na praia foi proibido, mas não existem restrições para as pessoas entrarem no mar.

Kai Lenny, um dos principais atletas da World Surf League, chegou ao Taiti no começo de março para competir no Papara Open, um torneio muito aguardado, mas a competição foi cancelada, e ele e outros surfistas encontraram dificuldade para voltar para suas casas. Mesmo assim, ele pôde continuar surfando.

“Tivemos muita sorte, aqui”, disse Lenny, de sua casa em Maui. “Temos permissão para continuar surfando, para fazer windsurfe e para muitos outros esportes, desde que você mantenha o distanciamento social.”

Mas muitas das praias do Brasil estão fechadas, o que significa que Gabriel Medina, bicampeão mundial e segundo colocado do ano passado, está ilhado em terra, em Maresias, cidade litorânea no estado de São Paulo. Ele estava se preparando para ir para o aeroporto quando foi informado da suspensão da liga.

Existe pressão entre os atletas para que os surfistas fiquem em suas áreas e respeitem as restrições das autoridades, disse o tricampeão mundial Mick Fanning, da Austrália. “Há uma pressão forte para cada um surfar em seu código postal”, ele disse. “Eu nem tentei ir para o sul. Não acho que seria certo.”

Dirigentes da World Surf League disseram que mantinham a esperança de salvar a Champonship Tour de 2020. Por enquanto, apenas dois torneios –o Corona Open, que teria aberto a temporada na Gold Coast australiana, e o Quiksilver Pro G-Land, na Indonésia, marcado para junho– foram cancelados.

Três outros eventos foram adiados, entre os quais o Oi Rio Pro, anunciou Erik Logan, o presidente-executivo da liga, na terça-feira. O torneio do Rio atrai o maior público no calendário do surfe.

Logan também anunciou na terça-feira que a liga adicionaria um torneio de um dia de duração no final de seu calendário, a partir de 2021. A última bateria do ano determinaria o campeão mundial. Logan não deixou claro o que aconteceria neste ano.

Depois de tanto tempo longe do mar, Medina estimou que precisaria de três ou quatro semanas de surfe e de exercícios regulares na academia para estar pronto para competições.

E para cada profissional paciente há incontáveis surfistas amadores desesperados por água salgada.

O desejo de entrar no mar se manifestou por meio de violações de restrições que variam do cômico ao absurdo, e de fiscalização que varia de policiais armados disparando tiros a controle algum.

Na Costa Rica, um surfista que acabava de sair da água tentou fugir correndo de um policial, que disparou um tiro por trás dele. Em Malibu, na Califórnia, um praticante de stand-up paddle desafiou a ordem de fechamento da praia e pegou 20 ondas perfeitas, e depois tentou escapar remando dos barcos da polícia e dos salva-vidas que saíram em perseguição. O fim da história? Ele não conseguiu.

Na semana passada, algumas praias foram reabertas no sul da Califórnia, por exemplo no condado de Ventura, onde o prefeito da cidade, Matt LaVere, advogou um fechamento mais flexível que permitiria acesso ao oceano, mas não a banhos de sol, aos banheiros ou o uso dos estacionamentos. Os banhistas chegam a pé ou de bicicleta.

“Ventura tem algumas das melhores ondas do mundo”, disse LaVere, que é surfista. “Dizer às pessoas de Ventura que elas não podem surfar é como lhes dizer que não podem respirar.”

Chad Nelsen, presidente-executivo da Surfrider Foundation, foi mais circunspecto. Quando os fechamentos começaram, a Surfrider, que lutou por acesso às praias por 35 anos e abriu dezenas de praias aos surfistas do planeta, criou a campanha “fique em casa e detone mais tarde”.

“As pessoas estão perdendo a paciência, o que é completamente compreensível”, disse Nelson. “Mas o risco é de que abramos lugares cedo demais, e com isso ampliemos o contágio nas comunidades, criando uma segunda onda de infecções que fará com que as pessoas sofram e vai levar a fechamentos mais longos."

Tradução de Paulo Migliacci

Tópicos relacionados

Comentários

Os comentários não representam a opinião do jornal; a responsabilidade é do autor da mensagem.