Descrição de chapéu Campeonato Paulista 2020

Férias de atletas terminam em meio a bate-cabeça sobre volta do futebol

Vontade de clubes, federações e da CBF esbarra na realidade da Covid-19 no país

São Paulo

A palavra “protocolo” foi inserida no dicionário do futebol brasileiro por causa do coronavírus. CBF (Confederação Brasileira de Futebol), federações estaduais e clubes trabalham para montar uma série de regras vistas como essenciais para o retorno do esporte, interrompido desde a metade de março em razão da pandemia.

A intenção, porém, esbarra na realidade de um país que contabiliza centenas de mortes por Covid-19 a cada dia e não dá sinais de ter atingido o pico da transmissão da doença.

Estádio do Pacaembu se transformou em um hospital de campanha para o combate ao coronavírus
Estádio do Pacaembu se transformou em um hospital de campanha para o combate ao coronavírus - Eduardo Anizelli/Folhapress

O período de férias dos jogadores da Série A do Campeonato Brasileiro se encerra oficialmente nesta quinta-feira (30), com retorno aos treinos previsto originalmente para sexta (1º). Mas a liberação para a volta das atividades não depende só do desejo de alguns clubes e federações, que fazem pressão principalmente pelo fato de acumularem perdas financeiras.

Uma volta controlada requer aval dos governos estaduais, responsáveis por determinar as políticas de controle da pandemia para cada região. As autoridades locais, por sua vez, também aguardam uma orientação mais clara sobre o tema por parte do Ministério da Saúde.

A autonomia que os estados têm para aplicar as medidas de contingência, como a flexibilização ou a rigidez do distanciamento social, dificulta a elaboração de um protocolo uniforme a ser seguido por equipes de diferentes cantos do país, plano imaginado pela CBF para a retomada do futebol brasileiro como um todo.

“O mais importante é que existam determinações que possam ser seguidas por todos os clubes”, afirma o médico Jorge Pagura, que lidera grupo de estudos para a elaboração de um protocolo nacional, a ser distribuído pela entidade nos próximos dias.

Apesar disso, federações como as de São Paulo, Rio de Janeiro, Minas Gerais, Paraná e Rio Grande do Sul trabalham na montagem de regras locais para seus filiados, assim como os próprios clubes.

O que foi divulgado dos protocolos não difere muito de um estado para outro. Envolve treinos individuais ou em pequenos grupos, testes para verificar contágio, higienização e portões fechados em estádios e centros de treinamentos.

“O importante é que todos adotem o mesmo protocolo e ao mesmo tempo, para que não exista nenhuma lacuna”, diz Moisés Cohen, presidente da comissão médica da FPF (Federação Paulista de Futebol).

Na próxima segunda (4), ele deverá ter uma nova reunião com David Uip, coordenador do comitê de contingência para controle do coronavírus em São Paulo. A FPF deseja uma sinalização positiva do governo estadual de que a volta do futebol é viável. Sem isso, a situação se complica.

Dirigentes de clubes paulistas disseram à Folha que, a princípio, a ideia é que os jogadores se reapresentem das férias até 10 de maio, treinem por duas semanas e no final do mês o Campeonato Paulista, paralisado desde 16 de março, reinicie com portões fechados. A quarentena em São Paulo está vigente até pelo menos o dia 11 de maio.

Outro aspecto que pode dificultar o retorno aos treinos é a própria vontade dos jogadores, preocupados com a saúde e a possibilidade de contágio. Nesta quarta-feira (29), o atacante Alexandre Pato, do São Paulo, questionou a ideia de retomada imediata do esporte.

"A volta ao futebol? Estou com saudades sim de jogar futebol, mas ao mesmo tempo sei o quanto prezo pela minha saúde. Vejo essa movimentação que estão fazendo para voltar. Mas seria isso o melhor cenário hoje? Deixem a sua opinião", escreveu Pato em seu Twitter.

Entusiasta da volta dos jogos, o presidente Jair Bolsonaro afirmou nesta quinta que jogadores de futebol, se acometidos pelo coronavírus, têm baixo risco de letalidade.

"O desemprego está batendo à porta dos clubes também. E com a idade jovem do jogador, caso seja acometido pelo vírus, a chance de ele partir para a letalidade é infinitamente pequena. Até pelo estado físico, pela rigidez do atleta", disse nesta quinta, em entrevista à Rádio Guaíba.

Bolsonaro ainda afirmou que a decisão pelo retorno não cabe ao governo federal, mas que tanto o Ministério da Saúde como a Anvisa (Agência Nacional de Vigilância Sanitária) deverão publicar em breve recomendações para a realização de partidas, sem a presença de torcidas.

O protocolo da Federação Paulista, por exemplo, inclui isolamento de jogadores e profissionais essenciais aos jogos e treinos. Antes disso, todos terão de ser testados para o coronavírus (não está claro qual procedimento será adotado no caso de teste positivo). O mesmo vai valer para os árbitros. Os centros de treinamentos deverão ter áreas restritas, como salas médicas e de fisioterapia.

É plano semelhante, mas menos detalhado, do que o elaborado pela Ferj (Federação Estadual do Rio de Janeiro), que pede para que todos os clubes tenham estoque de álcool em gel, máscaras, roupas de proteção e outros equipamentos necessários para prevenção.

Outra recomendação é que os jogadores se dirijam ao estádio e aos treinos em seus carros particulares, façam as refeições em casa e lavem seus uniformes.

“Nós ainda discutimos esse assunto, porque precisamos ter um protocolo, mesmo que não exista uma data para a volta do futebol ou pensemos nisso neste momento”, afirma o presidente da FMF (Federação Mineira de Futebol), Adriano Ano.

O presidente Jair Bolsonaro defende a volta do futebol, mas diz que decisão não cabe ao governo federal
O presidente Jair Bolsonaro defende a volta do futebol, mas diz que decisão não cabe ao governo federal - Marcos Corrêa/PR

A posição de cautela também foi adotada pelas federações de Pernambuco e Bahia, que afirmam seguirem a orientação dos governos locais, que consideram precoce a possibilidade de retorno.

“A decisão é da federação, e esta depende das medidas sanitárias do governo do estado e de Salvador. Nós não podemos decidir nada sozinhos. E também esperamos receber o protocolo elaborado pela CBF”, afirma Paulo Carneiro, presidente do Vitória.

Segundo o secretário de Saúde de Pernambuco, André Longo, a curva de contaminação está em ascensão, e ainda não é o momento para tratar de protocolos exclusivos para o futebol.

Embora a Federação Gaúcha também afirme aguardar as determinações da CBF, o São José, equipe que disputa a primeira divisão local, elaborou um protocolo próprio usando as recomendações da OMS (Organização Mundial de Saúde) e experiências internacionais. Entre as medidas, os jogadores terão a temperatura medida todos os dias ao chegarem para o treino.

Coritiba e Athletico foram pelo mesmo caminho: testes em atletas e comissões técnicas nas vésperas dos jogos, roupas lavadas fora dos centros de treinamento, utilização de roupas de proteção e máscara na chegada ao estádio, além de contato mínimo entre os jogadores, a não ser nas partidas.

A Federação Catarinense chegou a enviar ao governo estadual um pedido de autorização para que os clubes retomassem os treinos no dia 16 de maio, mas o plano de 27 páginas, similar aos já citados, não foi aceito.

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