Descrição de chapéu The New York Times

Ginastas buscam reparação após suspensão de treinadora por abusos

Atletas americanas pressionam por mudanças efetivas na cultura errática da modalidade

Juliet Macur Danielle Allentuck
The New York Times

A suspensão de uma importante treinadora, no mês passado, por abusos emocionais e verbais, estimulou ginastas dos Estados Unidos e os levou a compartilhar, entre eles e com o público, histórias semelhantes de conduta inapropriada, de uma maneira que pode sinalizar um ponto de inflexão para um esporte desesperado por uma mudança de cultura, depois do escândalo de abuso sexual do médico Larry Nassar.

Uma ex-ginasta que treinava em uma academia da costa leste dos Estados Unidos escreveu no Facebook que a USA Gymnastics, a federação americana da modalidade, ao suspender por oito anos a treinadora Maggie Haney, que orientava a campeã olímpica Laurie Hernandez, havia validado sua perspectiva sobre experiências abusivas com sua ex-treinadora.

A ginasta norte-americana Laurie Hernandez se apresenta na Olimpíada do Rio de Janeiro, em 2016
A campeã olímpica da ginástica por equipes nos Jogos de 2016 Laurie Hernandez, dos EUA, era orientada pela treinadora Maggie Haney - Dylan Martinez - 9.ago.16/Reuters

Agora, essa atleta, que falou sob a condição de que seu nome não seja revelado porque ainda não apresentou uma queixa formal, está organizando um grupo de atuais e antigos ginastas que passaram por histórias de abuso semelhantes envolvendo a treinadora em questão. A organizadora disse que o grupo está se preparando para anunciar suas acusações em público.

Em entrevistas, a ginasta e outras pessoas envolvidas no esporte disseram estar sentindo um momento no qual será possível exigir que a USA Gymnastics preste contas mais rigorosamente e puna os treinadores que maltratam atletas. O grupo quer pressionar pela adjudicação de casos pendentes.

Um caso envolvendo um treinador de elite, Qi Han, da Everest Gymnastics, na Carolina do Norte, continua sem solução depois de três anos. A USA Gymnastics encaminhou o caso aos investigadores do United States Center for SafeSport, um órgão independente que investiga delitos de conduta nos esportes olímpicos. A queixa envolve acusações de que Han abusou dos jovens atletas que comandava, emocional, verbal e fisicamente. Ele não é acusado de abuso sexual.

Ashton Locklear, que foi uma das reservas da equipe olímpica americana em 2016, e quatro outros ginastas da Everest tornaram públicas suas queixas contra Han em entrevistas ao The New York Times em 2018. O SafeSport está encarregado do caso desde 2017, disse uma porta-voz da USA Gymnastics, dois anos atrás.

A ginasta Ashton Locklear ao lado do treinador Qi Han
A ginasta Ashton Locklear ao lado do treinador Qi Han - Chang W. Lee - 10.jul.16/The New York Times

Os ginastas dizem que o tratamento de Han era cruel a ponto de ser insuportável, e que ele os atacava diariamente no ginásio, que se promove como um centro nacional de treinamento para a ginástica. Dois dos ginastas envolvidos, um dos quais é Locklear, disseram ter pensado em se matar para não precisarem mais participar dos treinos e competições de Han.

“Não sei por que Han jamais enfrentou problemas por nos tratar do modo que fez, já que o que ele fazia era, em minha opinião, pior do que aquilo que Maggie Haney fazia”, disse Locklear, 22, que deixou o esporte no ano passado por causa de lesões.

Han, por meio de sua advogada, Melissa Owen, continua a contestar as acusações contra ele, afirmando que um exército de ginastas e pais de ginastas o defenderia, e que ele cooperou com o SafeSport. Owen não respondeu a uma pergunta posterior sobre se um investigador do SafeSport tinha contatado Han para marcar uma entrevista.

Li Li Leung, que assumiu a presidência da USA Gymnastics no começo de 2019, admitiu em entrevista por telefone este mês que os casos precisam ser revisados mais rapidamente e que é preciso haver mais transparência no processo. Ela classificou a suspensão de Haney como um passo na direção certa, porque demonstra que a federação reconhece um problema já antigo no esporte e está disposta a assumir a responsabilidade.

Como ex-ginasta, Leung diz compreender o quanto pode ser difícil para um atleta denunciar seu treinador. Jennifer Sey, ex-campeã nacional de ginástica dos Estados Unidos, disse que a apreensão ao denunciar abusos era um traço característico do esporte, no qual os atletas de elite muitas vezes chegam à sua melhor forma no começo da adolescência, e no qual métodos tirânicos de treinamento são comuns há muito tempo.

“Parte do que é insidioso nesse processo é que você sente que o abuso é sua culpa, e carrega essa culpa por muito tempo”, disse Sey, que registrou sua angústia em um livro, em 2008

Locklear disse que ficou aterrorizada em 2018 ao acusar Han publicamente de abuso, e que está decepcionada por ainda não haver uma solução para o caso.

Ela e sua mãe, Carrie Locklear, disseram ter informado a federação em 2015 de que Han havia chamado Ashton Locklear de gorda, feia e preguiçosa repetidas vezes, em 2014, e que o treinador a havia expulsado do ginásio diversas vezes e a forçado a implorar para ser admitida de volta.

Locklear sugeriu que uma maneira de ajudar a manter os treinadores sob controle seria que a USA Gymnastics contratasse fiscais para visitar os ginásios e os locais de competição para monitorar o comportamento dos treinadores.

“Precisa haver alguém sempre de vigia quanto aos treinadores pessoais, porque eles são o maior problema”, ela disse. “Eles precisam literalmente estar sob o microscópio, para que a segurança dos atletas possa ser protegida. Acho que isso terá de mudar antes que o esporte seja completamente seguro para as crianças, ou para qualquer pessoa."

Tradução de Paulo Migliacci

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