Descrição de chapéu Coronavírus

Atletas que tiveram Covid-19 voltarão a ser os mesmos?

Especialistas alertam que o vírus não faz discriminação entre pessoas comuns e esportistas

Andrew Keh
The New York Times

Era o final de março e Josh Fiske, urologista em Livingston, Nova Jersey, estava no hospital travando uma batalha desesperada contra o coronavírus. Apenas uma semana antes, ele tinha corrido com facilidade um percurso de oito quilômetros, na região em que mora. Mas seu corpo estava falhando.

O nível de oxigênio em seu organismo caiu a um nível perigosamente baixo, e sua febre disparou para preocupantes 40 graus. Mover seu corpo na cama bastava para fatigá-lo. Caminhar nem que apenas uns poucos passos era “como fazer uma trilha no ar rarefeito”. Abrir uma garrafa de chá gelado passou a ser “uma tarefa complicada”.

Fiske continuou a lutar, e por fim, com a ajuda de seus médicos, ele superou a crise. Mas no momento em que conseguiu fazê-lo, no momento em que parecia garantido que ele evitaria o pior resultado do vírus, uma espécie diferente de ansiedade passou a consumi-lo.

“Comecei a pensar se conseguiria voltar a correr um dia, se conseguiria voltar a percorrer uma pista de golfe”, disse Fiske, 46, que corre uma maratona ou meia-maratona a cada ano. “Essas são coisas que amo fazer.”

O coronavírus infectou milhões de pessoas em todo o mundo. Atletas tendem a ser vistos como talvez mais preparados que a população comum para evitar as piores consequências da doença que o vírus causa, a Covid-19.

No entanto, entrevistas com atletas que contraíram o vírus –de profissionais a atletas universitários e amadores que praticam nos finais de semana–, revelaram a surpresa deles diante da potência dos sintomas, sua luta por reestabelecer seu regime de preparação física, as batalhas persistentes com os problemas pulmonares e a fraqueza muscular que a doença deixa, e perturbadores surtos de ansiedade quanto a serem capazes ou não de recuperar seu pico de condicionamento.

Os especialistas alertam que o vírus não discrimina.

Foi essa a lição que Andrea Boselli, que joga na linha ofensiva do time de futebol americano da Universidade Estadual da Flórida, aprendeu quando membros de sua família –entre os quais seu pai, Tony, que jogou na NFL –começaram a mostrar sintomas, em março.

“Eu sabia que era jovem e saudável”, disse Boselli, 22, que voltou para a casa de sua família, em Jacksonville, Flórida, quando a universidade suspendeu as aulas. “Eu jogo futebol americano na Divisão 1 do campeonato universitário, e rachei de treinar durante todo o inverno e primavera. Achava que não teria motivos de preocupação. Que eu nunca pegaria a doença.”

A atitude otimista desapareceu dias mais tarde, quando ele acordou se sentindo fraco e respirando mal. Naquela noite, a temperatura de seu corpo subiu para 40 graus.

“Eu nunca tinha me sentido tão doente”, disse Boselli, que continuou sentindo dificuldades para respirar e fadiga por mais ou menos dez dias.

Na Itália, Paulo Dybala, jogador argentino da Juventus, descreveu sua experiência enervante ao enfrentar os sintomas respiratórios.

“Eu tentava treinar mas ficava sem fôlego depois de apenas cinco ou dez minutos”, disse Dybala em entrevista à Associação Argentina de Futebol, “e percebemos que havia algo de errado”.

Panagis Galiatsatos, médico especialista em pulmões e professor assistente na Universidade Johns Hopkins, disse que, como muita coisa sobre a doença, as consequências em longo prazo para os atletas que a contraem não são plenamente compreendidas. Mas os atletas representam objetos de estudo interessantes para os médicos, porque sua saúde básica é em geral boa e eles têm uma boa consciência quanto às nuances de seu físico.

“Adoro pacientes que são atletas, porque eles percebem mudanças sutis às vezes até antes que exames identifiquem uma doença”, disse Galiatsatos.

Ele destacou três complicações da Covid-19 que podem preocupar especialmente os atletas.

Para começar, os pacientes de coronavírus, como qualquer pessoa que sofra uma infecção respiratória séria, correm o risco de complicações pulmonares em longo prazo. Ele muitas vezes viu pacientes que “tiveram um vírus forte três meses atrás e ainda não conseguem respirar direito”.

“Às vezes, uma infecção forte por vírus cria uma doença semelhante à asma nas vias respiratórias”, ele disse. “Essas doenças podem devastar os pulmões e, mesmo que os pulmões se reconstruam, eles não o fazem muito bem, e os pacientes ficam em uma situação de doença reativa das vias respiratórias, semelhante à asma.”

Outra complicação que Galiatsatos considera especialmente preocupante para os atletas, e uma que os especialistas ainda estão tentando compreender, envolve a alta incidência de coágulos sanguíneos que os médicos têm encontrado nos pacientes de coronavírus. As pessoas que têm coágulos sanguíneos diagnosticados, e às quais são receitados anticoagulantes, tipicamente são desencorajadas de praticar esportes de contato.

Por fim, Galiatsatos disse que as pessoas que tiveram a infelicidade de necessitar de tratamento intensivo podem ficar sujeitas a “fraquezas relacionadas à UTI”. Os pacientes colocados em respiradores artificiais e confinados aos seus leitos muitas vezes perdem entre 2% e 10% de sua massa muscular ao dia, ele disse.

Ben O’Donnell, triatleta que vive no condado de Anoka, Minnesotta, perdeu mais de 20 quilos em uma internação de hospitalar de quatro semanas durante a qual ele foi colocado em um respirador artificial e em uma máquina que auxilia na manutenção das funções vitais.

O’Donnell, 38, que foi um astro do futebol americano universitário e concluiu uma corrida Ironman dois anos atrás, planejava uma nova prova da categoria para o final deste ano, e disse que escapou por pouco da morte, depois de enfrentar níveis de oxigênio perigosamente baixos e falência renal e do fígado, na unidade de terapia intensiva.

Na metade de fevereiro, O’Donnell estava planejando intensificar seu treinamento e passou por um exame físico completo de dois dias de duração, no qual não foi diagnosticado qualquer problema. Os médicos acreditam que ele tenha contraído o vírus cinco dias mais tarde.

Em casa, depois do mês assustador que ele passou no hospital, O’Donnell planeja participar de uma corrida Ironman no Arizona, no final deste ano. E reconhece que é uma meta ambiciosa.

“Eles não sabem se recuperarei plenamente minha capacidade pulmonar”, ele disse. “Pode ser que sim, pode ser que não”.

Caso não tivesse contraído o vírus, O’Donnell, que é executivo em uma companhia química, estaria fazendo três sessões de corrida, três de bicicleta e três de natação por semana, a esta altura de seu ciclo de treinamento. Mas o vírus tirou seus planos dos trilhos.

Quando voltou para casa, ele precisava de um andador para ir à caixa de correio na entrada do terreno. Em sua primeira tentativa de se exercitar, dois dias depois de sair do hospital, ele caminhou por sete minutos a uma velocidade de 2 km/h, usando uma garrafa de oxigênio. Ele está tentando aumentar um pouco a duração e a velocidade de suas caminhadas, a cada dia.

O’Donnell disse que estava tendo de lidar com “dúvida considerável” quanto à sua capacidade de recuperar a forma em tempo para a corrida. Mas ele se motiva com o objetivo secundário de arrecadar dinheiro para o combate ao coronavírus, e vem repetindo o mesmo lema desde que estava lutando pela vida em seu leito de hospital: “Não pare. Não desista. Continue avançando.”

Tradução de Paulo Migliacci

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