Descrição de chapéu Campeonato Paulista 2020

Corinthians ameniza crise em campo enquanto vive tormenta financeira

Clube comemora vendas de 2020, mas ainda ajusta déficit de quase R$ 200 mi em 2019

São Paulo

A classificação do Corinthians para as quartas de final do Campeonato Paulista é um alento para o clube, que durante a paralisação causada pela pandemia de Covid-19 viu sua crise financeira e política se aprofundar, com dívidas milionárias, disputa nos bastidores e salários do elenco atrasados em três meses.

Enquanto o time do técnico Tiago Nunes ainda não convence, mas agora está a quatro confrontos de um inédito tetracampeonato estadual consecutivo, fora de campo o cenário se mostra mais complexo.

Em abril, a divulgação do balanço de 2019, com prejuízo de R$ 177 milhões e dívidas de R$ 665 milhões, mostrou o tamanho do problema. Ou quase, porque o déficit se revelaria ainda maior nos meses seguintes.

Em reunião neste mês, o conselho de orientação (CORI) do clube aconselhou a reprovação das contas do ano passado. O órgão aponta que o balanço não informou uma pendência de R$ 18 milhões com o J. Malucelli, equipe do Paraná, referente a negociações do volante Jucilei.

Outro problema é que uma dívida com um ex-funcionário seria de R$ 2,2 milhões, e não de R$ 1,7 milhão, conforme registrado originalmente no balanço.

Roberto Gavioli, gerente financeiro do Corinthians, anunciou que fez um acordo com o J. Malucelli para pagar R$ 17 milhões em 12 parcelas a partir de agosto.

"Estamos fazendo uma retificação nesse balanço para incluir os compromissos com o atleta Jucilei, o que vai elevar o déficit para cerca de R$ 194 milhões", disse em nota o clube, que afirma ter adotado "uma série de medidas de correção de rumos, o que já esperávamos fazer por ser o último ano da gestão" de Andrés Sanchez.

O Corinthians vive clima eleitoral acirrado há meses, motivado pelo pleito que escolherá o sucessor de Sanchez no fim do ano. Mário Gobbi, seu ex-aliado, já lançou candidatura de oposição.

Na paralisação, a agremiação sofreu com a queda de ao menos duas das suas principais receitas: a cota de televisão paga pela Globo e a venda de ingressos.

Esta última, suspensa enquanto os jogos forem sem público e que rendeu R$ 62 milhões em 2019, nem passa pelo cofre alvinegro e segue direto para o abatimento do empréstimo feito junto à Caixa Econômica Federal para construção da arena em Itaquera.

O clube reúne 61 títulos protestados em cartórios, de setembro de 2016 até junho deste ano, no total de R$ 1.169.938,50. As dívidas com fornecedores e bancos prejudicam a instituição na hora de reivindicar empréstimo ou financiamento.

Entre os 61 protestos, não está incluída a dívida com a Caixa Econômica Federal. Em setembro de 2019, o banco entrou com ação na Justiça Federal para cobrar R$ 536 milhões. A agremiação, por sua vez, afirma que o débito é de R$ 470 milhões. O processo está suspenso, mas não extinto, desde outubro, enquanto as partes tentam acordo.

Também chama a atenção o salto na dívida do clube com a União mesmo depois da implantação do Profut (programa de refinanciamento de dívidas), em 2015. Os R$ 26 milhões inscritos na Dívida Ativa em janeiro deste ano viraram R$ 130,7 milhões, segundo extrato ao qual a Folha teve acesso nesta segunda-feira (27).

O montante é referente a débitos de Imposto de Renda, PIS (Programa de Integração Social), Cofins (Contribuição para o Financiamento da Seguridade Social) e previdenciários.

O orçamento para 2020, aprovado em fevereiro deste ano, previa um lucro modesto de R$ 40 mil. O cálculo considerava que o time chegaria pelo menos às oitavas de final da Libertadores e, com isso, faturaria R$ 27 milhões entre bilheterias e premiações paga pela Conmebol.

A equipe de Tiago Nunes, porém, foi eliminada pelo Guaraní (PAR) na segunda fase eliminatória da competição, em fevereiro.

"Ainda não é possível fazer essa previsão [do resultado financeiro do ano], como não é possível saber quando a vacina chegará. Mas nós já tivemos a maior venda da história do Corinthians [Pedrinho, para o Benfica, por 20 milhões de euros] e dois meses de superávit no exercício de 2020. O otimismo permanece", afirmou o clube em nota. O balanço do primeiro semestre apresentou lucro de R$ 4,39 milhões.

"Como nossos movimentos de contratação são bem menos numerosos que os do ano passado, a tendência é que 2020 tenha um resultado melhor que 2019. Tudo isso considerando, claro, que não haverá nova pausa no futebol", completou.

Danilo Avelar comemora gol na classificação do Corinthians às quartas de final do Campeonato Paulista - Rodrigo Coca 26.jul.2020/Agência Corinthians

A agremiação contabiliza R$ 135 milhões arrecadados em vendas de jogadores no primeiro semestre. Também comemora os R$ 8 milhões anuais que serão obtidos com seu novo patrocinador na manga da camisa ao longo de cinco anos e o fato de ter renegociado R$ 100 milhões em dívidas de curto prazo com a Receita Federal, que agora poderão ser pagas em até 72 meses.

Caso alcance o título estadual, o clube receberá como premiação da Federação Paulista de Futebol R$ 5,5 milhões.

Para isso, o próximo passo será vencer o Red Bull Bragantino, time de melhor campanha até agora, na quinta (30). Nunes poderá contar com a reestreia do atacante Jô, que teve seu registro regularizado.

Problemas trabalhistas

Atualmente, o Corinthians responde a 179 processos no Tribunal Regional do Trabalho da 2ª região. A minoria é movida por atletas, como Clodoaldo, atacante do time que foi rebaixado à Série B do Brasileiro em 2007 (ingressou com ação em 2012 e teve decisão favorável em julho para receber R$ 924 mil), e o volante Marcelo Mattos.

O meio-campista, campeão brasileiro em 2005, pleiteia verbas de FGTS, direito de imagem e férias. Em maio, a juíza Renata Libia Martinelli, da 79ª Vara do Trabalho, determinou o bloqueio de R$ 500 mil das contas do Corinthians.

Somente de janeiro a julho deste ano são 29 reclamações trabalhistas. Em 2019, foram 47, e em 2018, 26.

A maioria dos ex-funcionários tinha funções administrativas no clube ou na arena. Há processos em que funcionários contratados por empresas terceirizadas reclamam na Justiça.

Os valores pleiteados por atletas, no entanto, tendem a ser mais altos. O meia Giovanni Augusto, que chegou ao time em 2016 e não conseguiu se firmar entre os titulares até ser emprestado para o Vasco, pede indenização de R$ 924 mil referente a FGTS e saldo de férias –uma audiência está agendada para setembro.​

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