Descrição de chapéu Tóquio 2020

Herói improvável há 20 anos, nadador Eric Moussambani virou referência

Guinéu-equatoriano ficou marcado por dificuldade de completar prova em Sydney-2000

São Paulo

A fala suave de Eric Moussambani, 42, parece a de um garoto de 22 anos, a idade que ele tinha quando colocou seu nome na história das Olimpíadas, há duas décadas.

"Ainda hoje, quando viajo para torneios percebo que nadadores de países africanos me veem como uma referência. Tenho orgulho disso, mas é uma responsabilidade", afirma ele em entrevista à Folha.

Moussambani tem recebido pedidos de entrevistas nos últimos meses por causa dos 20 anos de sua participação na Olimpíada de Sydney, em 2000, marca que será completada em setembro.

Os Jogos Olímpicos jamais tinham visto uma cena como aquela. Um nadador sozinho na piscina, diante de uma arquibancada lotada, com tanta dificuldade para completar a prova que passava a impressão de não saber nadar.

Sob os gritos de incentivo de milhares de espectadores no Centro Aquático Internacional, em Homebrush Bay, Sydney, Eric Moussambani conseguiu dar a batida final. Seu tempo de 1min52 nos 100 metros livre foi mais de 1 minuto acima do holandês Pieter van den Hoogenband, que ganhou a medalha de ouro e bateu o recorde mundial na ocasião, com 47,84 segundos.

A imagem da sua dificuldade para nadar os 100 metros se tornou icônica. E o tornou celebridade. "Sei que pareceu que eu não sabia nadar. Mas não era aquilo, claro. Ter nadado sozinho me deixou muito nervoso. Fiquei com medo de envergonhar a minha família e o meu país. Os 50 metros finais foram bem difíceis."

Ele era o primeiro atleta da história da natação da Guiné Equatorial, país da África ocidental com 1,2 milhão de habitantes e sem nenhuma piscina de tamanho olímpico na época, a chegar à Olimpíada. Foi convidado a participar por causa da política do COI (Comitê Olímpico Internacional) de oferecer vagas para países sem tradição no esporte. Ele jamais havia tomado parte em qualquer torneio.

Moussambani nadaria a prova qualificatória contra o nigeriano Karin Bare e Farkhod Oripov, do Tajiquistão. Quando os dois foram eliminados por queimarem a largada, o inexperiente atleta da Guiné Equatorial ficou só.

"Quando revejo a prova, creio que nadei muito bem os primeiros 50 metros. Acho que nunca tinha nadado tão bem. Mas na virada, comecei a sentir cãibras fortes. Não conseguia me movimentar direito e pensei em desistir. Eu dava uma braçada atrás da outra, mas a sensação que tinha é de não sair do lugar", relembra.

O que poderia ser visto como fiasco o tornou famoso. Ele recebeu dezenas de pedidos de entrevistas. Equipes de TV da Europa foram a Malabo, capitão da Guiné Equatorial, mostrar como era a vida e os treinos do último colocado dos 100 metros em Sydney que tinha virado exemplo de superação no esporte.

"Fiquei em último, mas foi o dia em que minha vida mudou", afirma, sobre aquele 19 de setembro. Ele ainda guarda os óculos e a sunga que recebeu de presente de um integrante da delegação da África do Sul um dia antes da prova. O técnico ficou comovido com a trajetória de Moussambani.

Ao voltar para o seu país, teve recepção de chefe de Estado. O ditador Teodoro Obiang Nguema Mbsasogo, 78, no poder desde 1979, mandou construir duas piscinas olímpicas para o desenvolvimento de atletas da natação local.

De tanto repetir sua história, ele tem o discurso ensaiado. Conta como chegou a Sydney sem treinador, depois de uma viagem de três dias e com várias escalas. Relembra o desejo de treinar natação, que apareceu quando tinha sete anos. Como não havia piscinas disponíveis, ele pediu ao gerente de um hotel de Malabo que o deixasse praticar no local. Eric foi autorizado a usá-la entre 5h e 6h da manhã.

"Quando eu ia nadar no mar, meus técnicos eram os pescadores, que me davam dicas sobre como movimentar os pés e os braços", lembra. Moussambani foi apelidado de Eric, a enguia.

Por outro lado, os Jogos também o deixaram desiludido com o esporte. Ele esperava competir quatro anos depois, em Atenas. Parecia que estava tudo certo para isso, mas houve um problema administrativo que até hoje nem o próprio nadador consegue explicar. As autoridades gregas disseram não ter encontrado a foto do seu pedido de visto, e a solicitação foi negada.

"Eu estava pronto para mostrar que poderia nadar muito melhor do que em Sydney. Eu tenho certeza que nadaria os 100 metros em menos de um minuto", lamenta.

Vinte anos depois da prova que o tornou famoso, ele é engenheiro eletrônico em uma empresa exportadora de gás. Continua envolvido com o esporte porque é selecionador da equipe de natação da Guiné Equatorial. Foi assim que esteve presente no Rio de Janeiro, em 2016. Esperava levar quatro atletas (dois homens e duas mulheres) neste ano, para Tóquio. Mas com o adiamento para 2021, afirma não saber como será.

"Fico feliz por ter contribuído para o crescimento da natação no meu país. Hoje há crianças que podem treinar em piscinas que não existiam quando eu tinha a idade delas. Montei uma seleção de polo aquático também. É isso o que espero continuar a fazer: ajudar", finaliza.

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